14 de outubro de 2026

Mulheres ainda enfrentam preconceito ao volante; nova lei reacende debate no Brasil

Legislação do Espírito Santo cria campanha permanente contra a discriminação de gênero no trânsito; levantamento nacional revela baixa participação feminina entre motoristas e entregadores de aplicativos.


Por Assessoria de Imprensa Publicado 14/10/2026 às 12h00
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mulher ao volante
Preconceito contra mulheres ao volante ganha destaque com nova lei no Espírito Santo e reacende discussão sobre respeito e participação feminina no trânsito brasileiro. Foto: mimagephotos para Depositphotos

Dirigir um carro, pilotar uma motocicleta ou trabalhar transportando passageiros ainda pode significar, para muitas mulheres, enfrentar situações que vão além dos desafios cotidianos do trânsito. Comentários depreciativos, piadas sobre a capacidade feminina de dirigir e atitudes intimidatórias são manifestações de um preconceito que também aparece nas ruas e rodovias brasileiras.

O problema ganhou uma nova abordagem legislativa no Espírito Santo. Desde 30 de setembro de 2026, está em vigor no estado a Lei nº 12.954/2026, que institui a campanha permanente “Mulher no Volante Segurança Constante”, voltada ao enfrentamento do assédio, do preconceito de gênero e de outras formas de discriminação contra mulheres no trânsito.

Embora a legislação tenha aplicação exclusivamente estadual, o tema que ela aborda ultrapassa as fronteiras capixabas. Afinal, como combater comportamentos discriminatórios em um ambiente no qual as mulheres também atuam como motoristas profissionais, motociclistas, entregadoras e usuárias das vias?

A discussão ganha relevância quando se observa a participação feminina no transporte por aplicativos. Um levantamento da Machine, baseado em operações de transporte e entregas realizadas no país entre 2024 e 2026, mostra que as mulheres continuam sendo minoria entre os profissionais analisados.

Mulheres representam pouco mais de 10% dos motoristas de aplicativo

De acordo com os dados da Machine, a participação feminina entre motoristas de transporte por aplicativo passou de 11,53% em 2024 para 11,21% em 2025 e 10,61% em 2026.

Isso significa que, na base analisada, pouco mais de uma em cada dez pessoas que trabalham como motoristas é mulher.

No setor de entregas, a presença feminina é ainda menor. As mulheres representavam 5,55% dos profissionais em 2024, passaram para 5,85% em 2025 e chegaram a 5,76% em 2026.

Os percentuais mostram que a participação feminina permaneceu em patamares reduzidos durante o período observado, com pequenas oscilações anuais.

É importante destacar, entretanto, que os números se referem às operações analisadas pela Machine e não devem ser interpretados automaticamente como um retrato de todos os motoristas e entregadores de aplicativos do Brasil.

Além disso, os dados não permitem concluir que o preconceito de gênero seja a causa da baixa participação feminina. Para compreender esse cenário, seria necessário investigar diferentes aspectos relacionados ao ingresso e à permanência das mulheres nessas atividades.

Para Júlia Camossa, estatística responsável pelo Data Machine, os resultados apontam para uma questão que vai além da entrada das mulheres no mercado.

“A participação feminina na economia de plataformas mostra um padrão de estabilidade em patamares baixos, mesmo ao longo de diferentes ciclos de crescimento do setor. O que os dados sugerem não é uma expansão linear da presença de mulheres, mas uma espécie de teto estrutural, em que pequenas variações anuais não alteram a composição geral do mercado. Isso indica que o desafio vai além da entrada no sistema e envolve fatores como permanência, condições de trabalho, risco ocupacional e organização da atividade econômica, que continuam pesando de forma desigual sobre mulheres nesse tipo de ocupação”, diz Júlia Camossa.

Preconceito ao volante vai além das piadas

A associação entre gênero e capacidade de dirigir ainda aparece em comentários e comportamentos que, muitas vezes, são tratados como brincadeiras.

Expressões depreciativas dirigidas às mulheres ao volante podem reforçar a ideia equivocada de que a habilidade para conduzir um veículo está relacionada ao fato de ser homem ou mulher.
A diferença está na forma como determinadas situações são interpretadas. Um erro cometido por qualquer motorista deve ser analisado individualmente, considerando suas circunstâncias e consequências. Quando a mesma falha é utilizada para desqualificar todas as mulheres, a crítica passa a reproduzir um estereótipo de gênero.

Esse é um dos aspectos abordados na justificativa do Projeto de Lei nº 150/2023, de autoria da deputada estadual Iriny Lopes (PT), que deu origem à legislação capixaba.

De acordo com a parlamentar, “as mulheres sofrem preconceito no trânsito e são vítimas de um histórico processo de discriminação e desrespeito”.

A proposta parte do entendimento de que o trânsito também pode ser um espaço de manifestação da discriminação de gênero, por meio de ofensas, atitudes intimidatórias e comentários que questionam a capacidade das mulheres de conduzir veículos.

O que determina a nova lei do Espírito Santo?

A Lei nº 12.954/2026 institui a campanha permanente “Mulher no Volante Segurança Constante”. O objetivo é combater o assédio, o preconceito de gênero e outras formas de discriminação contra mulheres no trânsito.

Entre as medidas previstas estão campanhas educativas, divulgação de iniciativas de enfrentamento ao preconceito e disseminação de informações sobre políticas públicas de atendimento às vítimas.
A legislação também busca estimular denúncias e ampliar o conhecimento sobre os direitos das mulheres.

É importante ressaltar que a norma foi aprovada no âmbito do Espírito Santo e não representa uma alteração nacional das regras de trânsito.

Seu foco, conforme as disposições apresentadas, está na conscientização e na divulgação de medidas de enfrentamento à discriminação.

A criação da campanha estabelece uma diretriz permanente para o estado. Seus resultados, porém, dependerão das ações efetivamente desenvolvidas e de como serão acompanhadas ao longo do tempo.

Participação feminina no transporte profissional amplia a discussão

A baixa presença de mulheres entre motoristas e entregadores de aplicativos também ajuda a ampliar o debate sobre a ocupação dos espaços de mobilidade.

Embora o levantamento da Machine não tenha sido apresentado como uma pesquisa específica sobre preconceito no trânsito, seus resultados mostram uma diferença expressiva na composição por gênero das atividades analisadas.

A própria avaliação de Júlia Camossa aponta para a necessidade de investigar fatores como permanência, condições de trabalho, riscos ocupacionais e organização da atividade econômica.
Esses elementos podem ser relevantes para compreender as oportunidades e dificuldades enfrentadas pelas profissionais. No entanto, não é possível estabelecer relações de causa e efeito apenas com os percentuais divulgados.

A discussão, portanto, envolve questões distintas, que podem se relacionar: de um lado, o enfrentamento de estereótipos e comportamentos discriminatórios; de outro, as condições de participação das mulheres nas atividades profissionais ligadas ao transporte.

Respeito entre motoristas também faz parte da convivência no trânsito

A segurança viária costuma ser discutida a partir de temas como velocidade, fiscalização, infraestrutura, comportamento dos condutores e cumprimento das regras de circulação.
Mas a convivência entre os diferentes usuários das vias também merece atenção.
Ofensas, ameaças e atitudes intimidatórias podem agravar conflitos cotidianos. Quando essas manifestações são direcionadas a uma pessoa em razão de seu gênero, a situação envolve também uma dimensão discriminatória.

Isso não significa que toda discussão no trânsito seja motivada por preconceito. É necessário considerar o contexto e a natureza de cada comportamento.

Nesse sentido, campanhas educativas podem contribuir para dar visibilidade ao problema e estimular o respeito entre os usuários das vias, embora seus resultados dependam da implementação e não possam ser presumidos apenas pela existência de uma lei.

A iniciativa do Espírito Santo coloca essa discussão na agenda estadual. Além disso, oferece um exemplo de abordagem que pode ser observado em outras regiões do país, respeitadas as competências de cada ente federativo.

Debate nacional vai além da nova legislação

A criação de uma campanha permanente contra o preconceito no trânsito e os dados sobre participação feminina nas plataformas de mobilidade tratam de aspectos diferentes, mas relevantes, da presença das mulheres nesse ambiente.

Enquanto a legislação capixaba busca enfrentar manifestações de discriminação, o levantamento da Machine chama atenção para a participação ainda reduzida de mulheres em atividades profissionais de transporte e entrega.

Nenhuma dessas informações, isoladamente, permite explicar toda a realidade vivida pelas motoristas brasileiras.

Juntas, porém, elas ajudam a colocar em discussão questões como respeito, oportunidades de trabalho e condições de participação feminina na mobilidade.

Independentemente do estado ou do tipo de veículo, um princípio permanece: a capacidade de dirigir deve ser avaliada pelo comportamento do condutor e pelo respeito às regras de trânsito. Ou seja, nunca pelo gênero de quem está ao volante.

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