Acidente em prova da CNH acende alerta sobre novo modelo de formação
Atropelamento durante prova prática em Goiás levanta debate sobre exames com carro particular, sem duplo comando, e o impacto das mudanças no processo de formação de condutores no Brasil.

O atropelamento que deixou quatro pessoas feridas durante uma prova prática de direção em Goiânia, no fim de março, não foi apenas mais um acidente. O caso acendeu um alerta sobre as mudanças recentes no processo de formação de condutores no Brasil, especialmente em relação à flexibilização das regras, ao uso de veículos sem duplo comando e ao novo modelo de formação mais flexível.
Durante o exame, uma candidata perdeu o controle do veículo e acabou atingindo pessoas que aguardavam no local. O detalhe que mais chamou a atenção foi o fato de a prova estar sendo realizada em um carro particular, sem duplo comando, ou seja, sem a possibilidade de o examinador intervir diretamente no controle do veículo em uma situação de emergência.
O caso reacende um debate importante: até que ponto a flexibilização do processo de habilitação pode impactar a segurança — inclusive durante a própria prova?
O que mudou no processo de habilitação
Nos últimos meses, o processo de formação de condutores passou por mudanças significativas no Brasil. Entre elas, a possibilidade de maior flexibilização na formação, a atuação de instrutores autônomos e, em alguns casos, a realização de aulas e exames com veículos que não possuem duplo comando.
A proposta dessas mudanças foi ampliar o acesso à habilitação e reduzir custos para o candidato. No entanto, especialistas alertam que a formação de condutores não pode ser analisada apenas sob a ótica do custo, pois envolve diretamente a segurança viária.
A etapa prática da formação sempre foi tratada como uma atividade de risco controlado. Tradicionalmente, as aulas e exames eram realizados em veículos de autoescola com duplo comando, permitindo que o instrutor ou examinador interviesse em situações de emergência, evitando acidentes.
Sem esse recurso, o cenário muda.
Na prática, o exame deixa de ser um ambiente totalmente controlado — e isso altera o nível de risco da atividade.
Segurança durante o exame entra em debate
Para o especialista em trânsito Celso Mariano, deve-se analisar o episódio como um sinal de alerta sobre o rumo da formação de condutores no Brasil.
Conforme ele, o processo de habilitação não é apenas uma etapa burocrática, mas um processo de formação que precisa ocorrer em ambiente seguro e controlado.
“O processo de habilitação não é apenas uma etapa administrativa. Ele é, antes de tudo, um processo de formação e de avaliação em ambiente controlado. Quando se retira o duplo comando e se flexibilizam etapas, é preciso redobrar — e não reduzir — os protocolos de segurança”, explica.
O especialista afirma que a discussão sobre o custo da CNH é legítima, mas não pode ignorar o papel da formação na segurança viária.
“Baratear o processo não pode significar empobrecer a formação. O trânsito é um ambiente de risco, e a formação do condutor precisa ser tratada como uma política de segurança pública, não apenas como um serviço que precisa ser mais barato”, afirma.
O que diz o Detran
Após o acidente, o Detran-GO informou que vai revisar os protocolos de segurança das provas práticas. Entre as medidas anunciadas estão a reavaliação do espaço onde são realizados os exames, o reposicionamento das áreas de espera e mudanças operacionais para aumentar a segurança de candidatos e examinadores.
O órgão também afirmou que o uso de veículos particulares segue normas nacionais e que acidentes podem ocorrer mesmo em veículos com duplo comando, indicando que o problema estaria mais relacionado ao ambiente e à organização do local de prova do que necessariamente ao modelo de veículo utilizado.
A posição do Detran é importante e traz um ponto relevante: o ambiente de prova precisa ser seguro. No entanto, especialistas apontam que a possibilidade de intervenção direta no veículo sempre foi considerada um elemento adicional de segurança, justamente por se tratar de candidatos ainda em processo de formação.
Uma discussão que vai além de um acidente
O caso de Goiânia levanta uma discussão mais ampla sobre o processo de formação de condutores no Brasil. A flexibilização do modelo, a redução de custos e a simplificação de etapas são medidas que têm apelo social, mas precisam ser analisadas também sob a perspectiva da segurança.
Formar um condutor não é apenas ensinar alguém a passar em uma prova. É preparar uma pessoa para conduzir um veículo em um ambiente complexo, com riscos reais e consequências potencialmente graves.
Conforme Mariano, quando se fala em formação de condutores, o debate não pode ser apenas econômico. Ele precisa ser técnico e, principalmente, voltado à segurança viária. “Não se deve tratar o acidente durante a prova prática apenas como uma fatalidade ou como um erro individual. Ele levanta uma pergunta importante: o sistema está preparado para garantir segurança em todas as etapas do processo de habilitação?”, questiona.
Para o especialista, flexibilizar regras pode ampliar o acesso. Mas a formação de condutores continua sendo uma questão de segurança pública. E, nesse campo, é preciso fazer qualquer mudança com cautela, planejamento e responsabilidade.
“Porque, no trânsito, erros de formação não aparecem apenas na prova. Eles aparecem, depois, nas ruas — e muitas vezes cobram um preço alto demais”, conclui.
