O que muda no exame prático da CNH com a retirada da baliza
Entenda o que muda no exame prático da CNH com a retirada da baliza e veja a análise do especialista Celso Mariano sobre os impactos na formação de condutores.

A retirada da obrigatoriedade de realizar o processo de habilitação por meio de um Centro de Formação de Condutores (CFC), prevista na Resolução nº 1.020 do Contran, abriu uma série de discussões sobre o futuro da formação de motoristas no Brasil. Entre os pontos que mais chamaram a atenção está o enfraquecimento — e, em alguns estados, a eliminação — de manobras clássicas do exame prático, como a baliza.
O tema foi analisado em vídeo pelo especialista em trânsito Celso Mariano, diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata Educacional, que chama atenção para um risco recorrente quando mudanças são feitas sem a devida compensação técnica: simplificar o processo sem garantir que o futuro condutor realmente domine o veículo.
Assista ao vídeo com a análise completa do especialista ao longo desta matéria.
A baliza sempre existiu — mesmo antes da obrigatoriedade da autoescola
Celso Mariano lembra que, antes mesmo do Código de Trânsito Brasileiro entrar em vigor, em 1998, quando ainda não era obrigatório passar por uma autoescola, já existiam testes práticos rigorosos para avaliar se o candidato tinha domínio do veículo. Entre eles, a baliza sempre esteve presente.
“O teste de baliza se tornou um dos principais do exame prático, com poder eliminatório. Um estresse para os candidatos — e para os examinadores também”, observa o especialista.
Com o tempo, a manobra ganhou peso excessivo e acabou se transformando, na prática, em um dos maiores obstáculos para quem tentava obter a CNH. Para Celso Mariano, havia espaço para ajustes e modernizações, mas não para a simples exclusão da avaliação.
Retirar a baliza é exagero?
Na avaliação do especialista, eliminar completamente a baliza do processo é um movimento extremo, que pode gerar deficiências sérias na formação dos novos condutores. “Removê-la totalmente é um exagero. A baliza é um dos melhores testes para o examinador verificar se o candidato realmente domina o veículo”, afirma.
Ele reconhece que a manobra poderia ter sido simplificada, perdendo o caráter excessivamente punitivo, mas reforça que isso é muito diferente de retirá-la do caminho do novo condutor sem oferecer alternativas equivalentes.
Estacionar é simples? Nem sempre
Um dos argumentos mais comuns para minimizar a importância da baliza é a ideia de que estacionar não representa risco significativo. Celso Mariano discorda.
“Estacionar não é necessariamente perigoso, mas é uma manobra que interfere diretamente no fluxo do trânsito”, explica. De acordo com ele, entrar em uma vaga envolve troca de faixas, redução de velocidade, interrupção momentânea da circulação e, depois, a reinserção do veículo no fluxo — tudo isso em meio a outros condutores, ciclistas e pedestres. “Se você pensar bem, é uma operação complexa”, resume.
“Vestir o carro”: domínio total do veículo
Um dos conceitos centrais abordados no vídeo é a ideia de “vestir o carro”. A expressão, usada pelo especialista, ajuda a traduzir o que significa ter domínio real do veículo.
“Você e o carro se conectam. Ele precisa fazer parte de você. É como um exoesqueleto”, explica Celso Mariano, comparando o automóvel a uma extensão do próprio corpo.
Esse domínio, conforme ele, não surge espontaneamente. É resultado de aprendizado, treino e orientação profissional. Daí a importância da aula prática, do instrutor qualificado, do veículo adaptado e do ambiente controlado proporcionado pela autoescola.
“Para vestir esse exoesqueleto, você precisa aprender e treinar”, reforça.
O papel do Manual Nacional de Exames de Direção
Outro ponto levantado no vídeo é a publicação recente do primeiro Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular. Para Celso Mariano, o documento ainda precisa ser cuidadosamente analisado para entender como os Detrans vão lidar, na prática, com a retirada de etapas tradicionais do exame. “Recém saiu o tal Manual Nacional. Vamos estudá-lo. Quem sabe que outras surpresas estarão lá?”, provoca.
Ele acredita — ou ao menos espera — que o estacionamento continue fazendo parte do exame prático, ainda que de forma diferente da baliza tradicional.
Simplificar sem substituir é o problema
Na visão do especialista, o maior problema da Resolução 1.020 não está apenas em flexibilizar etapas, mas em eliminar componentes importantes do processo sem apresentar alternativas técnicas equivalentes.
“A baliza eliminava muitos candidatos, então ela foi eliminada. A resolução tem eliminado muitas partes do processo de formação, mas parece não se preocupar em oferecer boas alternativas para substituir aquilo que existia como padrão”, critica.
A pergunta que fica, segundo ele, é direta e incômoda: “Aonde exatamente queremos chegar com essas simplificações?”
Um debate que está só começando
O fim da baliza, a flexibilização do papel das autoescolas e a padronização nacional dos exames colocam o Brasil diante de uma escolha importante: tornar o acesso à CNH mais simples sem empobrecer a formação.
O vídeo de Celso Mariano contribui para esse debate ao lembrar que dirigir não é apenas cumprir etapas burocráticas, mas adquirir habilidades reais para circular com segurança em um ambiente complexo e compartilhado.
