02 de fevereiro de 2026

Mais de 60% dos motociclistas aprendem a pilotar de forma informal: estudo reforça a importância da formação adequada

O dado reforça a urgência de investir em formação adequada e desmonta o discurso de que o maior problema do processo de habilitação é apenas o custo para o cidadão.


Por Mariana Czerwonka Publicado 14/10/2025 às 08h15
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Os números do estudo são claros: quando a maioria aprende sem preparo técnico, o risco coletivo aumenta. Foto: Rachid Waqued/Detran-MS

Um dos principais desafios do trânsito brasileiro passa pela formação dos condutores, especialmente dos motociclistas. Um levantamento realizado pela Fundación MAPFRE em parceria com o Instituto Brasileiro de Segurança no Trânsito (IST) mostra que mais de 60% dos motociclistas aprenderam a pilotar de forma informal, sem qualquer tipo de acompanhamento técnico ou pedagógico. O dado reforça a urgência de investir em formação adequada. Além disso, desmonta o discurso de que o maior problema do processo de habilitação é o custo para o cidadão.

Conforme o estudo, apenas 30% dos motociclistas tiveram contato inicial com a pilotagem em uma autoescola. O restante declarou ter aprendido sozinho, com amigos ou familiares. Esse cenário preocupa especialistas em segurança viária. Eles alertam para os riscos de colocar milhares de pessoas em circulação sem o preparo necessário para lidar com as complexidades do trânsito.

A formação que começa fora da lei

Outro dado revelador do estudo é que 22% dos entrevistados começaram a pilotar antes da idade legal permitida pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Isso significa que muitos jovens se arriscam nas ruas sem qualquer formação formal, em situações de alta vulnerabilidade. Além disso, 12% sequer possuem a categoria A da CNH, percentual ainda maior nas regiões Norte e Nordeste.

Essas informações evidenciam que o problema vai muito além do custo ou da burocracia para obter a CNH. O que se verifica é uma combinação de informalidade, falta de preparo técnico e falhas na fiscalização. Em vez de reforçar a importância da formação, boa parte da sociedade ainda enxerga o processo de habilitação como um obstáculo.

Segurança viária em risco

O especialista em trânsito Celso Mariano destaca que pilotar uma motocicleta exige mais do que habilidade prática: é preciso conhecimento técnico e respeito às normas.

“A moto é um veículo extremamente ágil, mas também muito vulnerável. Quem aprende sem orientação adequada não entende os riscos reais do trânsito. A formação não é um luxo ou uma formalidade burocrática; é um requisito para a sobrevivência”, afirma.

Para Mariano, os números do estudo mostram a realidade de um trânsito em que a improvisação predomina sobre a preparação. “Estamos falando de milhares de condutores que não foram orientados sobre técnicas de frenagem, uso de equipamentos de segurança, noções de espaço e tempo de reação. Sem esse conhecimento, a chance de acidentes cresce exponencialmente”, completa.

O custo de não formar bem

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os acidentes de trânsito custam ao Brasil bilhões de reais por ano. Nesse cenário, são os motociclistas os maiores responsáveis pelas internações e atendimentos de urgência no SUS. Ou seja, a ausência de uma formação sólida não é apenas um risco para quem pilota, mas também um fardo econômico para toda a sociedade.

O estudo da MAPFRE/IST reforça esse ponto ao mostrar que os principais obstáculos relatados pelos motociclistas para obter a CNH são o custo, a burocracia e, sobretudo, as dificuldades nos exames teóricos. Isso impacta especialmente candidatos com baixa escolaridade, que acabam desistindo ou optando por pilotar sem habilitação.

Formação como política pública

Para especialistas, o Brasil precisa mudar a lógica. Em vez de enfraquecer a exigência de formação, como propõe o governo ao discutir a flexibilização da CNH, o caminho deve ser garantir acesso mais amplo à formação de qualidade. Isso significa pensar em políticas públicas de inclusão, como programas de CNH social, subsídios regionais e maior apoio pedagógico a candidatos com dificuldades de aprendizagem.

“Flexibilizar não é solução. O que precisamos é tornar o processo acessível, mas sem abrir mão da qualidade. Uma formação consistente salva vidas”, defende Mariano.

Conclusão: qualidade que salva vidas

Os números do estudo são claros: quando a maioria aprende sem preparo técnico, o risco coletivo aumenta. A solução não está em baratear ou simplificar a habilitação ao ponto de esvaziar sua função pedagógica, mas em garantir que todos tenham acesso a uma formação responsável.

Enquanto isso não acontece, os motociclistas continuam sendo as maiores vítimas do trânsito brasileiro, carregando na pele — e muitas vezes na perda da própria vida — o preço da falta de preparo e da ausência de políticas efetivas de formação.

Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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