Por que o Brasil ainda está longe de ter veículos autônomos nas ruas
Veículos autônomos avançam no mundo, mas ainda estão distantes da realidade brasileira. Entenda os entraves técnicos, legais e estruturais.

O debate sobre veículos autônomos costuma despertar fascínio e expectativas elevadas. Em muitos países, testes já ocorrem em vias públicas, com carros capazes de se deslocar sem intervenção humana em ambientes controlados. No Brasil, porém, essa realidade ainda está distante — e não apenas por uma questão tecnológica.
O primeiro grande obstáculo é a infraestrutura viária. Veículos autônomos dependem de sinalização clara, padronizada e bem conservada. Faixas apagadas, placas encobertas, buracos e mudanças improvisadas no traçado urbano dificultam a leitura do ambiente pelos sensores e câmeras. No Brasil, esse cenário é comum, inclusive em grandes cidades.
Outro entrave importante é a heterogeneidade do trânsito. Motocicletas circulando entre faixas, pedestres atravessando fora da faixa, bicicletas sem infraestrutura adequada e veículos em condições precárias criam um ambiente altamente imprevisível. Para sistemas autônomos, essa imprevisibilidade é um desafio técnico significativo.
Há também o fator regulatório.
O Brasil ainda não possui um marco legal específico para veículos autônomos em circulação plena. Questões como responsabilidade em caso de sinistro, seguros, fiscalização e certificação tecnológica ainda carecem de definições claras. Sem esse arcabouço, a adoção em larga escala fica inviável.
Do ponto de vista tecnológico, embora sensores e algoritmos tenham evoluído, eles ainda enfrentam limitações em situações complexas, como chuvas intensas, iluminação deficiente ou tráfego desordenado. Em países onde os testes avançaram, o ambiente urbano é altamente controlado — algo distante da realidade brasileira.
Outro ponto sensível é o comportamento humano. O trânsito no Brasil se baseia em negociação informal, gestos, olhares e improvisos.
Elementos subjetivos que a tecnologia ainda tem dificuldade de interpretar com segurança.
Por fim, há a questão econômica. Veículos autônomos exigem alto investimento em tecnologia embarcada e infraestrutura externa. Em um país com grandes desigualdades sociais e desafios básicos de mobilidade, essa prioridade ainda parece distante.
Isso não significa que o Brasil ficará à margem dessa transformação. O avanço deve ocorrer de forma gradual, começando por aplicações específicas, como logística, transporte em áreas controladas e sistemas de assistência cada vez mais sofisticados. A autonomia plena, porém, ainda exige um longo caminho de adaptação estrutural, legal e cultural.
