03 de fevereiro de 2026

Pedágio urbano: solução para o trânsito ou penalização para quem mais precisa?

Apesar dos resultados positivos, o pedágio urbano está longe de ser uma unanimidade. O tema foi debatido em recente edição do programa Sinal Verde, da Rádio Senado.


Por Redação Publicado 08/07/2025 às 13h30
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pedágio urbano
O programa analisou como cidades como Londres e Estocolmo implementaram o pedágio urbano para descongestionar o tráfego e os desafios de aplicar a medida no Brasil. Foto: khongkitwiriyachan para Depositphotos

A cobrança de pedágio urbano como forma de reduzir o congestionamento nas grandes cidades ainda é uma ideia controversa no Brasil. No entanto, a prática já é realidade em metrópoles como Londres, Estocolmo e Singapura, onde políticas de tarifação para o acesso de veículos em determinadas áreas centrais têm mostrado resultados significativos na mobilidade urbana. O tema foi debatido em recente edição do programa Sinal Verde, da Rádio Senado, que analisou os efeitos positivos e os desafios dessa medida em diferentes contextos internacionais — e provocou a reflexão: o Brasil está preparado para esse modelo?

Experiências internacionais mostram impacto positivo

A cidade-estado de Singapura foi pioneira na implementação de um sistema de pedágio urbano, ainda em 1975. A medida teve como objetivo principal restringir o tráfego na região central durante os horários de pico. Desde então, o modelo vem sendo modernizado com o uso de tecnologia eletrônica para monitoramento e cobrança.

Londres adotou a tarifa urbana em 2003. Os motoristas que desejam circular na zona central da capital britânica em horários específicos precisam pagar uma taxa. Os resultados não tardaram a aparecer: conforme dados do governo britânico, houve uma redução de 15% no fluxo de veículos no primeiro ano. A velocidade média dos ônibus aumentou e a qualidade do ar melhorou sensivelmente — um alívio especialmente importante para uma cidade conhecida por seus monumentos históricos afetados pela poluição.

Na Suécia, a capital Estocolmo também apostou na tarifação urbana com um sistema de cobrança automática que varia de acordo com o horário de entrada na cidade. O dinheiro que se arrecada, investe-se em melhorias no transporte público, o que reforça o ciclo virtuoso entre mobilidade, meio ambiente e qualidade de vida.

Solução eficaz, mas não isenta de críticas

Apesar dos resultados positivos, o pedágio urbano está longe de ser uma unanimidade. O Sinal Verde destacou um ponto sensível: a medida pode penalizar justamente quem mais depende do carro para trabalhar e se locomover, especialmente em cidades que não oferecem um transporte público de qualidade. Ou seja, a questão da justiça social é central nesse debate.

Se, por um lado, a restrição ao uso do carro pode favorecer a fluidez do trânsito e a redução da poluição, por outro, pode significar mais um custo no orçamento das famílias que não têm outra opção de deslocamento.

“Se a pessoa paga para não entrar de carro, mas não tem um bom ônibus ou metrô, o problema só muda de lugar”, observa o jornalista Bruno Lourenço, apresentador do programa.

É possível resolver casos específicos, como o de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, por meio de autorizações especiais, mas essa é apenas uma parte da equação. A infraestrutura urbana e o investimento em transporte coletivo são fatores determinantes para o sucesso (ou fracasso) de qualquer iniciativa de pedágio urbano.

E no Brasil?

No país, apesar de algumas discussões pontuais, nenhuma cidade chegou a adotar de fato o pedágio urbano. A proposta ainda enfrenta grandes barreiras: desde a resistência popular até a falta de estrutura adequada nas grandes metrópoles.

O que se vê, por enquanto, são tentativas isoladas de restringir o tráfego em zonas específicas, geralmente com base em rodízios de placas — como ocorre em São Paulo — ou em fechamentos temporários de vias aos domingos e feriados. Exemplo citado no programa foi o da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, que nos dias de pouco movimento mostra um cenário muito mais agradável e acessível para pedestres e ciclistas.

Além da aceitação social, o principal desafio para o Brasil está na qualidade do transporte público. Nas cidades onde o pedágio urbano deu certo, como Londres e Estocolmo, os usuários contam com redes eficientes, pontuais e integradas de metrô, ônibus, trens e ciclovias. Em muitos casos, o valor pago no pedágio é menor do que o custo total de manter um carro em circulação nessas áreas.

O pedágio urbano é uma política pública que demanda planejamento, transparência assim como participação da sociedade. Implementado de forma isolada, pode aumentar desigualdades e gerar mais descontentamento do que resultados positivos. Por outro lado, se for parte de um projeto amplo de requalificação urbana e valorização do transporte coletivo, pode representar uma ferramenta poderosa para transformar o caótico trânsito das grandes cidades brasileiras.

Afinal, como perguntou o apresentador do Sinal Verde, “o pedágio urbano seria um semáforo verde para a mobilidade das nossas cidades ou um sinal vermelho para o bolso do cidadão?”. A resposta, talvez, esteja no equilíbrio entre os dois.

Fonte: Matéria produzida com base no programa Sinal Verde, da Rádio Senado.

Redação

Matérias escritas pela equipe de Redação do Portal do Trânsito.

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