23 de setembro de 2026

Por que o Brasil repete o tema da Semana Nacional de Trânsito? Especialista faz reflexão


Por Mariana Czerwonka Publicado 23/09/2026 às 14h30
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A Semana Nacional de Trânsito de 2026, realizada entre os dias 18 e 25 de setembro, traz novamente a mensagem “Desacelere. Seu bem maior é a vida”. O tema, utilizado em 2025, foi mantido para reforçar a importância da redução da velocidade e da preservação da vida nas ruas e rodovias brasileiras.

Mas por que repetir a mesma campanha? E, principalmente, o que precisa mudar para que a conscientização se transforme em resultados concretos?

Para o especialista em trânsito Celso Mariano, diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata Educacional, a repetição da mensagem não representa falta de criatividade. Ela evidencia a necessidade de continuar enfrentando um dos principais fatores de risco para a segurança viária: a velocidade inadequada.

“O título não é novo. Foi o tema da Semana Nacional de Trânsito de 2025. E está sendo repetido este ano não por falta de criatividade. Mas porque as estatísticas mostram que a velocidade continua sendo um grande problema”, afirma.

Em um vídeo dedicado à campanha (que você pode assistir acima), Mariano amplia a discussão e questiona se o Brasil tem dado à segurança viária a atenção necessária. Na avaliação dele, a redução das mortes e dos ferimentos no trânsito depende de iniciativas que ultrapassem o calendário das campanhas.

Desacelerar é preciso, mas o problema vai além do velocímetro

Ao analisar a mensagem da Semana Nacional de Trânsito, Celso Mariano destaca que a velocidade é um fator de risco que precisa ser compreendido para além dos excessos mais evidentes. “Desacelerar é preciso. Porque velocidade é um dos grandes fatores de risco no trânsito. E não estamos falando apenas de 140, 160 quilômetros por hora. 40 km/h pode ser velocidade inadequada. E pode ser fatal. Um atropelamento na frente de uma escola, por exemplo.”

Isso significa que o risco não está associado exclusivamente a velocidades muito elevadas ou ao desrespeito aos limites regulamentados.

As características da via, as condições climáticas, a visibilidade e a presença de pedestres, ciclistas e outros veículos precisam ser consideradas pelo condutor.

“Velocidade problemática não é necessariamente aquela que faz o velocímetro chegar às alturas. É aquela que não é compatível com o local, com o momento, com as condições da via e com as pessoas que estão ali.”

O especialista também chama a atenção para a segunda parte do tema da campanha, que coloca a preservação da vida no centro da discussão. “Valorizar a vida é preciso porque, sem ela, nada mais faz sentido. Sem vida, nem de trânsito precisaríamos.”

A relação com a velocidade e os riscos do trânsito

Para explicar a complexidade do problema, Mariano propõe uma reflexão sobre a relação das pessoas com a velocidade.

Desde a infância, o ser humano experimenta o prazer de correr e de se movimentar rapidamente. Com o desenvolvimento da tecnologia, bicicletas, motocicletas e automóveis ampliaram essa capacidade.

Entretanto, o desejo de chegar cada vez mais rápido também passou a representar riscos, especialmente quando combinado com comportamentos inadequados e com a necessidade de compartilhar o espaço viário. “Trânsito é um ambiente cheio de riscos. Mesmo sozinho na via, você precisa tomar cuidados. Imagine quando esse ambiente é compartilhado.”

Na avaliação do especialista, a convivência entre diferentes usuários torna o trânsito um ambiente particularmente complexo. “E assim é o trânsito: o nosso maior palco social. Todos juntos, ao mesmo tempo, disputando espaço, muitas vezes com pouca empatia e muita pressa.”

Mariano ressalta que a velocidade inadequada não é o único fator que contribui para a ocorrência de sinistros. A falta de habilidade, a desatenção e os comportamentos de motoristas, motociclistas e pedestres também precisam ser considerados.

“O problema da velocidade inadequada não está restrito aos caminhões ou às motos. Atravessar uma rua correndo — ou devagar demais, no lugar errado — também pode ser perigoso.”

Para ele, compreender essa combinação de fatores é essencial para desenvolver ações de prevenção que considerem a realidade do trânsito brasileiro.

Campanhas não substituem programas permanentes de segurança viária

Com três décadas de atuação na área, Celso Mariano considera que o Brasil ainda não atribui à segurança no trânsito a importância necessária.

Embora reconheça o trabalho de profissionais e instituições que se dedicam ao tema, ele defende que a prevenção de mortes e ferimentos precisa ser tratada como uma responsabilidade contínua. “Apesar do esforço honroso de muita gente, o Brasil parece não dar a devida importância ao assunto. Uma Semana Nacional de Trânsito, por mais efetiva e brilhante que seja, não vai fazer milagre.”

Para o especialista, concentrar as ações de conscientização em datas específicas não é suficiente para enfrentar um problema que está presente diariamente nas ruas e rodovias.

“Nem um mês inteiro destacado no calendário. Porque não são campanhas que vão nos salvar. São programas: é trânsito nas escolas, como está, em letras garrafais, no artigo 76 do Código de Trânsito Brasileiro. Desde 1997.”

O artigo citado por Mariano determina que a educação para o trânsito seja promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus, por meio de planejamento e ações coordenadas entre os órgãos e entidades dos sistemas de trânsito e de educação.

Na avaliação do especialista, porém, a implementação dessa diretriz ainda está distante do necessário. “E o que se fez, de lá para cá? É pífio. É vergonhoso.”

Segurança no trânsito também precisa entrar no debate eleitoral

Outro ponto abordado por Celso Mariano é a necessidade de ampliar a presença da segurança viária nas discussões sobre políticas públicas.

Em meio ao período eleitoral de 2026, ele questiona o espaço dedicado ao tema nas propostas apresentadas pelos candidatos e na própria participação da sociedade. “Estamos em período eleitoral. Quantos candidatos apresentaram propostas consistentes para trânsito e mobilidade? Pouquíssimos. E isso deveria nos fazer pensar.”

Para Mariano, a cobrança por medidas de segurança viária não deve ficar restrita aos profissionais e às instituições que atuam diretamente no setor. “Quantos de nós perguntamos aos candidatos o que pretendem fazer sobre trânsito e mobilidade? Quantos cobramos nossos representantes?”

O especialista lembra que as consequências dos sinistros vão muito além dos números registrados nas estatísticas oficiais. Elas incluem ferimentos, mortes, afastamentos do trabalho e impactos emocionais sobre as famílias das vítimas.

Diante desse cenário, ele defende uma participação mais ativa da sociedade nas discussões sobre mobilidade e prevenção.

Formação de condutores e inspeção veicular também precisam ser discutidas

Na avaliação de Mariano, o enfrentamento da violência no trânsito também exige atenção às decisões que envolvem a formação de novos motoristas e as condições de segurança dos veículos.

O especialista questiona a flexibilização de determinadas exigências em um cenário no qual o país ainda enfrenta graves consequências dos sinistros. “Vamos perguntar por que, enquanto nossos números continuam tão ruins, algumas exigências são afrouxadas em vez de fortalecidas.”

Entre os pontos levantados estão as mudanças no processo de primeira habilitação, a ausência de um programa abrangente de inspeção veicular e as exigências para profissionais que trabalham com motofrete e mototáxi.

“Por que desconstruímos a formação de condutores? Por que ainda não temos uma inspeção veicular que faça jus ao nome? Por que exigências importantes, como a formação de motofretistas e mototaxistas, continuam sendo tratadas como algo secundário?”

As perguntas expressam a preocupação do especialista com a necessidade de avaliar as consequências das mudanças regulatórias e de manter a segurança como prioridade na elaboração das normas de trânsito.

Repetir a mensagem pode ser uma oportunidade para mudar

Ao final do vídeo, Celso Mariano retoma o tema da Semana Nacional de Trânsito de 2026 e propõe que a repetição da campanha seja encarada como uma oportunidade para aprofundar a discussão. “Já começamos a repetir o tema na Semana Nacional de Trânsito. Talvez seja um bom sinal. Repetimos porque ainda não demos conta. Mas vamos tentar novamente.”

Para ele, é necessário ir além das mensagens de conscientização e transformar a preocupação com a segurança viária em ações permanentes, tanto por parte do poder público quanto da sociedade.

“Desta vez, mais profundamente. De forma mais inteligente. Vamos cobrar dos nossos representantes — atuais e futuros.”

O especialista encerra com um convite à reflexão individual: “Você está fazendo o quê nesta Semana Nacional de Trânsito? Desacelerando? Valorizando a vida?”

Ao longo da Semana Nacional de Trânsito de 2026, o Portal do Trânsito publica uma série de matérias sobre educação, comportamento, legislação e segurança viária. O objetivo é ampliar o debate e contribuir para que a valorização da vida esteja presente nas decisões de todos os que compartilham as vias, não apenas durante a campanha, mas ao longo de todo o ano.

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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