25 de setembro de 2026

Por que algumas ruas fazem o motorista acelerar mesmo sem perceber?

Faixas largas, longas retas e poucos elementos que exijam atenção podem transmitir uma sensação de segurança para dirigir mais rápido. Especialistas defendem que vias também sejam projetadas para induzir comportamentos seguros.


Por Mariana Czerwonka Publicado 24/09/2026 às 08h15
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acelerar vias
O desenho das vias também influencia o comportamento de quem dirige. Engenharia, sinalização e fiscalização precisam trabalhar juntas para favorecer velocidades seguras. Foto: ifong para Depositphotos

Duas ruas podem ter exatamente o mesmo limite de velocidade e, ainda assim, provocar sensações completamente diferentes em quem dirige. Em uma delas, faixas largas, longas retas e poucos elementos nas laterais podem fazer 50 km/h parecerem pouco.

Na outra, faixas mais estreitas, travessias de pedestres, árvores, edificações próximas e maior presença de pessoas podem levar o motorista a reduzir naturalmente a velocidade.

Essa diferença ajuda a compreender um aspecto da segurança viária que nem sempre recebe a mesma atenção das campanhas educativas: o comportamento de quem dirige também é influenciado pelo ambiente ao redor.

Na reta final da Semana Nacional de Trânsito 2026, realizada entre 18 e 25 de setembro com a mensagem “Desacelere. Seu bem maior é a vida”, a discussão sobre velocidade também passa por uma pergunta importante: nossas vias ajudam o motorista a desacelerar?

A placa diz uma coisa. A rua pode transmitir outra mensagem

Imagine uma avenida larga, reta, com várias faixas de circulação e boa visibilidade. O limite indicado na placa é de 50 km/h.

Se o desenho da via transmite ao motorista a sensação de que seria perfeitamente possível trafegar a 70 km/h, surge uma contradição entre a regra estabelecida e a percepção criada pelo ambiente.

Isso não significa que o condutor esteja autorizado a ultrapassar o limite. A responsabilidade pelo cumprimento da velocidade regulamentada continua existindo.

Mas a segurança viária moderna procura ir além da expectativa de que todas as pessoas tomarão sempre a decisão correta.

A própria infraestrutura pode contribuir para tornar o comportamento seguro mais intuitivo.

Para Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata Educacional, essa discussão é fundamental.

“É claro que o condutor precisa respeitar a sinalização e cumprir as regras. Mas também precisamos reconhecer que o ambiente influencia o comportamento. Se uma via parece uma pista de alta velocidade, não podemos esperar que apenas uma placa resolva todos os problemas. A engenharia precisa conversar com a regra que está sendo estabelecida”, afirma.

O que é uma via que induz velocidade segura?

Não existe uma única solução que possa ser aplicada a todas as ruas. Cada local possui características próprias: volume de tráfego, presença de pedestres, transporte coletivo, escolas, comércio, hospitais, residências e diferentes tipos de usuários.

Dependendo dessas características, medidas de engenharia podem contribuir para controlar a velocidade.

Travessias elevadas, estreitamento de faixas, rotatórias, ilhas, alterações geométricas, melhor organização do estacionamento e outros recursos podem modificar a percepção de quem dirige e exigir maior atenção.

São estratégias conhecidas, de maneira geral, como medidas de moderação de tráfego ou traffic calming.

A ideia não é criar obstáculos aleatoriamente.

É fazer com que o desenho da via seja compatível com a velocidade considerada segura naquele ambiente.

Uma rua não serve apenas para os carros passarem

Outro ponto importante é compreender a função das vias urbanas. Uma rodovia destinada principalmente a deslocamentos de longa distância possui características muito diferentes de uma rua diante de uma escola ou de uma avenida comercial com intenso fluxo de pedestres.

Nas cidades, as vias não cumprem apenas a função de transportar veículos.

Pessoas atravessam, caminham, esperam ônibus, entram em estabelecimentos, pedalam e permanecem naquele espaço.

Quanto maior a interação entre veículos motorizados e usuários vulneráveis, maior é a necessidade de considerar as consequências da velocidade. “Às vezes avaliamos uma via apenas pela quantidade de carros que ela consegue fazer passar em determinado período. Mas uma cidade não existe para movimentar veículos; existe para permitir o deslocamento seguro das pessoas. Essa mudança de perspectiva faz muita diferença quando pensamos em engenharia e mobilidade”, avalia Mariano.

O motorista pode errar — e a via precisa considerar isso

Um dos princípios utilizados atualmente na segurança viária é reconhecer que seres humanos cometem erros.

Um motorista pode se distrair por alguns segundos. Um pedestre pode avaliar incorretamente a distância de um veículo. Um ciclista pode precisar desviar de um obstáculo.

Em um sistema no qual qualquer erro pode resultar em uma colisão fatal, as consequências podem ser desproporcionais.

Por isso, o chamado Sistema Seguro parte do entendimento de que vias, veículos, velocidades e comportamentos precisam funcionar conjuntamente para evitar mortes e lesões graves mesmo quando alguém comete uma falha.

Isso não elimina a responsabilidade individual.

Significa acrescentar camadas de proteção.

Fiscalização continua necessária

Projetar vias mais seguras também não significa que radares ou outras formas de fiscalização deixem de ser necessárias.

Há locais onde o controle da velocidade depende da combinação de engenharia, sinalização e fiscalização.

A fiscalização atua especialmente quando o comportamento desejado não acontece espontaneamente.

O ideal é que esses elementos sejam coerentes.

Se a velocidade regulamentada é necessária para proteger quem circula naquele ambiente, a sinalização precisa deixar isso claro, a engenharia deve contribuir para seu cumprimento e a fiscalização pode reforçar a regra. “Não deveríamos tratar engenharia, educação e fiscalização como soluções concorrentes. Elas são complementares. Quando as três trabalham na mesma direção, fica muito mais fácil construir um trânsito no qual o comportamento seguro seja também o comportamento mais natural”, explica Mariano.

Desacelerar também é responsabilidade de quem projeta as vias

Ao longo da Semana Nacional de Trânsito, grande parte das mensagens é direcionada a motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.

E isso é necessário.

Mas a segurança viária não pode depender exclusivamente de milhões de decisões individuais perfeitas tomadas todos os dias.

Gestores públicos, projetistas, engenheiros, fabricantes de veículos, órgãos fiscalizadores e demais integrantes do sistema também têm responsabilidades.

A mensagem “Desacelere. Seu bem maior é a vida”, portanto, pode ser dirigida não apenas a quem segura o volante.

Uma via capaz de reduzir naturalmente a velocidade, oferecer travessias seguras e considerar a presença de diferentes usuários pode evitar que um erro se transforme em uma tragédia.

No fim das contas, a rua também ensina como deve ser utilizada.

E, quando segurança é prioridade, aquilo que a placa determina e aquilo que a própria via comunica deveriam dizer a mesma coisa.

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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