Evitar a noite, mudar o caminho e avisar quando chega: como o medo interfere na mobilidade das mulheres
Pesquisa qualitativa na Região Metropolitana do Rio mostra como a insegurança influencia horários, trajetos e meios de transporte e evidencia diferenças relacionadas à renda e ao local de moradia.

MediaWhalestock para Depositphotos
Evitar determinados horários, mudar o caminho, compartilhar a localização, avisar alguém ao chegar ao destino ou gastar mais para não precisar fazer um trajeto considerado perigoso. Essas são algumas das estratégias relatadas por mulheres ouvidas em uma pesquisa que investigou como o medo e a insegurança interferem na mobilidade feminina na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
O estudo “Rotina Calculada: mulheres, insegurança e a organização do cotidiano na Região Metropolitana do Rio de Janeiro”, realizado pela Movimentos, com apoio do Instituto Update e do Instituto Fogo Cruzado, analisou como mulheres com diferentes condições de renda e locais de moradia organizam seus deslocamentos diante da percepção de risco.
Realizada em agosto de 2026, a pesquisa é qualitativa e reuniu 20 participantes, distribuídas em quatro grupos focais. Por isso, seus resultados não devem ser interpretados como estatisticamente representativos de todas as mulheres da Região Metropolitana do Rio.
Os relatos, porém, ajudam a compreender de que maneira a insegurança pode interferir em decisões cotidianas de mobilidade.
Entre as situações identificadas estão mudanças de trajeto, restrição dos deslocamentos noturnos, escolha do meio de transporte, compartilhamento de informações sobre a viagem e procura por companhia para voltar para casa.
Renda interfere nas alternativas disponíveis
Um dos aspectos identificados pelo estudo é que a percepção de risco aparece entre mulheres de diferentes condições econômicas, mas as possibilidades de responder a esse medo não são as mesmas.
Participantes de renda média-alta relataram maior possibilidade de substituir o transporte público por táxis, carros particulares ou transporte por aplicativo. Entre mulheres de baixa renda, o custo pode limitar essas alternativas e levar à manutenção de trajetos considerados inseguros.
Camila* contou que, antes de receber vale-transporte da empresa onde trabalha, precisava percorrer a pé uma região que considerava perigosa. “É uma rua, eu tenho que chegar a uma rua que é conhecida como Rua do Perdeu. Antes de eu ser contratada, eu fazia ele a pé, porque não dava pra pagar passagem”, relatou.
Conforme Isabelly Damasceno, coordenadora de comunicação na Movimentos, escolhas aparentemente simples podem revelar essas restrições.
“Que roupa usar, qual caminho escolher, a que horas voltar e quem avisar quando chegar não são apenas detalhes do dia a dia para as mulheres da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.”
Segundo ela, “a pesquisa se mostra muito relevante para percebermos, além do medo geral das mulheres, como os marcadores de classe e território agem e tornam essa própria dinâmica desigual para elas”.
Anoitecer pode mudar a organização da rotina
Os relatos mostram que o horário é um elemento importante na organização dos deslocamentos.
Atividades de lazer e exercícios físicos, por exemplo, podem ser reorganizadas, realizadas com menor frequência ou abandonadas quando o horário, o trajeto ou o local são considerados inseguros.
“Quando está escurecendo, no máximo, eu estou chegando em casa. Eu me sinto muito mais segura à noite em casa”, contou Márcia*, participante de renda média-alta residente em área periférica.
Outra estratégia mencionada é dormir na casa de amigos ou familiares para evitar o retorno durante a madrugada.
“Ao invés de eu me deslocar para o Centro, eu vou para a casa dela [amiga], que é mais próxima […] e aí eu fico no conforto de voltar na luz do dia para a minha casa depois”, explicou Cláudia*, participante de baixa renda e moradora de área não periférica.
A pesquisa apresentou ainda aos grupos uma situação hipotética envolvendo uma festa em outra cidade com término às três horas da manhã. Entre as soluções mencionadas para tornar o deslocamento possível estava justamente ter onde passar a noite.
Uma participante com renda média-alta mencionou também a possibilidade de pagar um hotel para evitar o deslocamento durante a madrugada.
Os exemplos mostram como a capacidade de evitar um trajeto considerado perigoso também está relacionada aos recursos financeiros e à rede de apoio disponível.
Avisar quando chega e compartilhar rotas fazem parte da autoproteção
Compartilhar trajetos, conferir a placa de um veículo de aplicativo e avisar quando chegou ao destino são algumas das práticas de autoproteção mencionadas pelas participantes.
O estudo também identificou uma diferença na percepção sobre a presença masculina no espaço urbano. Homens desconhecidos aparecem nos relatos como fonte de medo, enquanto companheiros e familiares podem ser procurados para acompanhar determinados deslocamentos.
“Quando o meu namorado tá, a gente fica até mais tarde […] que eu me sinto mais segura pra voltar pra casa”, relatou Natália*, participante de baixa renda residente em área periférica, que também mencionou o receio da transfobia em espaços públicos.
A percepção aparece inclusive na utilização do transporte por aplicativo. “Quando eu pego o [carro de aplicativo], eu vejo que a motorista é mulher, eu me sinto tão aliviada. […] Os homens, eu me sinto mais ameaçada”, contou Mônica*, participante de baixa renda e moradora de área não periférica.
São experiências individuais relatadas nos grupos focais, mas que ajudam a demonstrar como a percepção de segurança pode entrar na escolha de quando, como e com quem realizar um deslocamento.
As redes de apoio entre mulheres também aparecem com frequência. Além de compartilhar informações sobre trajetos e veículos, as participantes relataram estratégias para acompanhar umas às outras e confirmar a chegada ao destino.
Segurança também passa por iluminação, transporte e movimento nas ruas
Outro aspecto da pesquisa é a forma como as próprias participantes descrevem um ambiente em que se sentem mais seguras.
Nas entrevistas, a discussão sobre segurança não ficou restrita à presença policial. Iluminação pública, movimento de pessoas, comércio funcionando, disponibilidade de transporte, planejamento urbano, monitoramento e capacidade de resposta do poder público também apareceram nos relatos.
“Pra mim é questão da iluminação e de movimentação. Eu me sinto mais segura quando a rua é melhor iluminada e tem mais movimento”, afirmou Isabela*, participante de renda média-alta de área não periférica.
Rosana*, moradora de área periférica e também de renda média-alta, descreveu uma avaliação semelhante: “Tem que ter uma iluminação, tem que ter o comércio, tem que ter um pouco de movimento […]. Fica tudo escuro, a rua sem ninguém [já fico atenta]”.
Tatiane*, participante de renda média-alta e moradora de área periférica, também apontou uma percepção de diferença territorial na presença das forças de segurança. “Você chega na Zona Sul […] toda hora que você passa, tem um carro de polícia. Bairros mais pobres, eles são mais carentes de segurança pública, né?”, afirmou.
Os depoimentos ajudam a ampliar a discussão sobre mobilidade urbana. Ter acesso à cidade não significa apenas existir uma rua, um ônibus ou uma estação que permita chegar a determinado lugar. A percepção de segurança também pode determinar se um deslocamento é considerado viável, principalmente em determinados horários.
Mobilidade não é vivenciada da mesma maneira
A pesquisa foi estruturada a partir do cruzamento de duas variáveis: renda — baixa ou média-alta — e território de residência — áreas periféricas ou não periféricas.
Foram realizados quatro grupos focais, cada um com cinco participantes. A seleção também considerou diversidade de idade, raça/cor, situação profissional e formas de mobilidade cotidiana.
Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, o estudo não permite estabelecer, por exemplo, qual percentual das mulheres evita sair à noite ou muda de caminho por medo. Sua contribuição está em identificar como essas decisões aparecem na experiência das participantes e quais fatores interferem nas alternativas encontradas por elas.
Os relatos revelam um planejamento constante dos deslocamentos: calcular horário, avaliar o caminho, considerar quem estará junto, decidir quanto é possível gastar e organizar uma rede de pessoas que saiba onde aquela mulher está.
Nesse sentido, a discussão sobre segurança se conecta diretamente à mobilidade. Quando o medo interfere nos horários, trajetos, atividades ou no custo necessário para realizar uma viagem, o acesso à cidade deixa de depender somente da existência de meios de transporte e passa a envolver também as condições em que esse deslocamento pode ser feito.
*Os nomes das participantes citadas nesta matéria são fictícios, conforme informado pela pesquisa, para preservar sua privacidade e identidade.
