27 de outubro de 2026

O problema não é só comportamento: pesquisa revela o que aumenta o risco para motociclistas

Levantamento com mais de 23 mil participantes mostra que motociclistas reconhecem os perigos, mas fatores sociais, econômicos e do próprio sistema dificultam escolhas mais seguras.


Por Mariana Czerwonka Publicado 27/10/2026 às 13h30
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risco para motociclistas
Os participantes demonstram elevada percepção dos riscos, mas o ambiente em que circulam e trabalham aparece como a parte mais problemática da equação. Foto: joasouza para Depositphotos

O motociclista pode saber que excesso de velocidade, pressa e determinadas manobras aumentam o risco de um sinistro. Mas saber o que é mais seguro não significa necessariamente conseguir agir dessa maneira o tempo todo.

Pressão para cumprir horários, longas jornadas sobre a motocicleta, influência de outros usuários e condições encontradas no trânsito também podem interferir nas decisões tomadas ao guidão.

É justamente essa diferença entre “saber o que fazer” e “ter condições para fazer” que aparece em uma pesquisa nacional com 23.240 participantes dos 27 estados brasileiros.

O levantamento Movimento Brasil 2 Rodas, realizado pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), procurou avaliar a segurança a partir de três perguntas bastante simples:

  • O motociclista reconhece os riscos e acredita que consegue se proteger?
  • As pessoas e o ambiente social ao redor favorecem comportamentos seguros?
  • E as condições do trânsito, do trabalho e da vida cotidiana ajudam ou dificultam essas escolhas?

No estudo, essas três áreas receberam os nomes de Indivíduo, Grupo e Sistema.

Para comparar os resultados, os pesquisadores atribuíram pontuações em uma escala de zero a 100. De maneira geral, quanto maior a pontuação, mais favorável é aquela dimensão para a cultura de segurança; quanto menor, maiores são os obstáculos identificados.

É a partir daí que surge o principal resultado do levantamento.

No aspecto individual — relacionado ao conhecimento dos riscos e à percepção de capacidade para agir de forma segura — a pontuação chegou a 91,2.

Quando entram em cena as influências sociais, o resultado cai para 72 pontos.

Já no chamado Sistema, que considera condições e pressões que cercam o motociclista, a pontuação despenca para 32,2.

Traduzindo: os participantes demonstram elevada percepção dos riscos, mas o ambiente em que circulam e trabalham aparece como a parte mais problemática da equação.

Motociclista sabe que corre risco

O melhor resultado da pesquisa apareceu justamente no aspecto individual.

A consciência sobre os riscos alcançou 95,9 pontos, enquanto a percepção dos participantes sobre sua capacidade de adotar comportamentos seguros ficou em 86,4 pontos.

“Os resultados indicam que os profissionais de motocicletas, de maneira geral, reconhecem os riscos a que estão expostos e acreditam ser capazes de agir com segurança”, afirma o presidente da SBOT, Miguel Akkari.

Isso não significa que motociclistas sempre adotem comportamentos seguros ou que campanhas educativas tenham deixado de ser necessárias.

O resultado mostra outra coisa: entre os participantes da pesquisa, falta de conhecimento sobre o perigo não parece ser o único problema.

Se o motociclista reconhece o risco, mas ainda assim se expõe a ele, é necessário investigar o que acontece entre aquilo que ele sabe e aquilo que consegue fazer na prática.

Quando o comportamento dos outros também pesa

A pesquisa também procurou entender quanto o ambiente social interfere nas decisões do motociclista.

Essa parte recebeu 72 pontos — abaixo dos 91,2 registrados no aspecto individual.

Dentro dela, porém, apareceu uma diferença importante. Enquanto as normas sociais relacionadas à segurança tiveram resultado elevado, de 85,1 pontos, a chamada influência social ficou em apenas 41,2.

Em termos mais simples, o comportamento e as pressões vindas de outras pessoas podem dificultar a adoção de práticas mais seguras, mesmo quando existe conhecimento sobre o risco. “Se comprova a influência do Grupo no comportamento dos Indivíduos”, avalia Marcos Musafir, coordenador da Comissão de Campanhas Públicas e Responsabilidade Social da SBOT.

Essa influência pode ganhar importância ainda maior entre pessoas que utilizam a motocicleta profissionalmente, já que as decisões são tomadas dentro de uma rotina que envolve trânsito, trabalho e interação constante com outros usuários.

É no ambiente ao redor que aparece o maior problema

O resultado mais baixo de toda essa comparação aparece quando a pesquisa deixa de olhar principalmente para o motociclista e passa a observar as condições ao redor dele.

O chamado Sistema recebeu apenas 32,2 pontos.

Entre os aspectos avaliados estão as pressões econômicas, que ficaram em 46,5 pontos e foram classificadas pelo levantamento como um fator que dificulta a segurança.

É esse resultado que ajuda a entender a principal mensagem da pesquisa.

Dizer ao motociclista simplesmente para “ter cuidado” pode ser insuficiente quando existem fatores externos pressionando suas decisões.

Para quem utiliza a motocicleta como instrumento de trabalho, por exemplo, tempo, remuneração, quantidade de entregas ou viagens, jornadas prolongadas e organização da atividade podem interferir na exposição ao risco.

Isso não elimina a responsabilidade individual de respeitar as regras de trânsito.

Mostra, porém, que prevenção não pode depender exclusivamente do comportamento de quem está ao guidão.

Mais da metade relata pilotar seis horas ou mais por dia

Outro resultado ajuda a compreender por que olhar para as condições de trabalho é importante.

Mais da metade dos participantes declarou pilotar seis horas ou mais por dia.

Quanto maior o tempo circulando, maior é a exposição às situações do trânsito. Jornadas prolongadas também colocam fatores como fadiga, atenção e pressão profissional no debate sobre segurança.

“Quando falamos sobre trabalho em duas rodas, não podemos olhar apenas para os acidentes e suas consequências. É preciso entender quem está sobre essas duas rodas, como trabalha, quais pressões enfrenta e quanto controle tem sobre sua atividade. A tecnologia transformou não apenas as ferramentas, mas a própria organização do trabalho — e precisamos considerar isso também na prevenção”, afirma Mara Machado, presidente do Conselho Diretivo da Vértea – Academia de Estudos Avançados em Saúde Sustentável, núcleo do Instituto Qualisa de Gestão (IQG).

59,5% dos participantes dizem já ter sofrido sinistro de moto

Um dos números mais impactantes do levantamento está no histórico dos próprios entrevistados.

De acordo com a pesquisa, 59,5% afirmaram já ter sofrido um sinistro de motocicleta, durante o trabalho ou utilizando o veículo como meio de transporte.

Esse dado, no entanto, exige cuidado.

O percentual se refere aos participantes do levantamento. Sem informações adicionais que permitam confirmar a representatividade estatística da amostra para toda a população de motociclistas, não é correto transformar o resultado na afirmação de que “seis em cada dez motociclistas brasileiros já sofreram um sinistro”.

Dentro do universo pesquisado, porém, o número mostra uma elevada presença de experiências anteriores com ocorrências no trânsito.

Motociclistas representam grande parcela das internações do trânsito

O problema também aparece nos dados hospitalares apresentados pela SBOT.

Segundo a entidade, foram registradas 166.026 internações de motociclistas em um total de 251.699 hospitalizações relacionadas ao trânsito, o equivalente a aproximadamente dois terços.

Usuários de motocicletas estão entre os mais vulneráveis em uma colisão porque não contam com a estrutura de proteção existente em um automóvel.

Por isso, reduzir a ocorrência dos sinistros é especialmente importante para esse grupo.

Então, o que a pesquisa mostra?

A principal conclusão pode ser entendida sem olhar para nenhuma pontuação:

  • o motociclista pode conhecer o risco e ainda estar inserido em um ambiente que dificulta a escolha mais segura.

Os números apenas ajudam a mostrar o tamanho desse contraste.

De um lado, os participantes apresentam elevada consciência dos riscos e confiança na própria capacidade de agir com segurança. Do outro, aparecem pressões sociais, econômicas e condições do sistema que podem interferir nessas decisões.

Isso não significa retirar do motociclista a responsabilidade por respeitar a legislação e adotar uma condução segura.

Significa reconhecer que reduzir sinistros envolvendo motocicletas exige atuar também sobre fiscalização, infraestrutura, formação, condições de trabalho, comportamento dos demais usuários e políticas públicas.

Se o objetivo é tornar o trânsito mais seguro, portanto, a pergunta não deve ser apenas “o que o motociclista precisa fazer diferente?”.

Os resultados indicam que também é necessário perguntar: “o que precisa mudar ao redor dele para que dirigir com segurança seja mais fácil?”

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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