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Artigo – Segunda chance 

Artigo – Segunda chance
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J. Pedro Corrêa indaga sobre o que falta ao Brasil para realizar uma boa 2ª Década Mundial de Trânsito. Para ele, só nos falta um elemento essencial.

*J. Pedro Corrêa

O mundo assistiu dia 28 de outubro passado, pela Internet, o lançamento do Plano Global da 2ª Década Mundial de Trânsito, da ONU/OMS. Foi um pequeno desfile de discursos e promessas de líderes mundiais da segurança no trânsito reiterando os compromissos com as metas fixadas pelos organismos mundiais valendo para todos os países para o período 2021-2030.

Eventos como este se repetem ocasionalmente com o objetivo de tentar engrossar a fileira dos países que já deveriam estar perfilados entre aqueles que precisam realizar grandes esforços para baixar a sinistralidade no trânsito. São, na maioria, países de baixa renda, pouca ou nenhuma cultura de segurança. Além disso, com lideranças sem qualquer grau de comprometimento com a queda da violência no trânsito.

Na primeira década mundial, de 2011 a 2020, em muitos casos, os índices de fatalidades no trânsito nestes países em vez de diminuírem, aumentaram.

Já no andar de cima da lista, dos países desenvolvidos, em geral os números melhoraram mas em boa parte não foram os esperados.

No andar do meio, onde se encontra o Brasil, houve progressos mas grande parte deles serviram apenas para dizer “fizemos a nossa parte” mas não o suficiente para deixar a sociedade orgulhosa nem com o sentimento de segurança, pelo resultado.

Esta segunda década traz consigo a forte e oportuna mensagem de uma segunda chance para quem não aproveitou bem a primeira. Ela tem a vantagem de permitir uma boa reflexão sobre o que funcionou e o que não nos primeiros 10 anos. E, assim, fazer doravante apostas mais certeiras. As metas desta década estão claras, apoios são oferecidos, financiamentos disponíveis, agora só falta a vontade política para realizar. Parece que este continua sendo, nos países de média e baixa renda, o problema maior.

Creio que a grande dificuldade destes países – Brasil no meio – é que nas grandes salas da ONU em Nova Iorque e mesmo no ar refrigerado dos palácios de governos nacionais, diplomatas e altos representantes governamentais fazem promessas que o povo, aqui embaixo, nem sabe direito do que se trata.

Como nunca aprendeu nada de trânsito na escola e tampouco é educado para isto fora dela, estas sociedades acabam não dando muita bola para este tipo de conversa.

Ao descrever este quadro, poderia estar me referindo a um pobre país africano ou asiático mas, em boa medida, isto serve para o nosso Brasil também. Afinal, aqui não temos educação nem cultura de segurança à altura do que precisamos. Bem como nossos governos, não apenas o atual, nunca se interessaram muito pelo assunto. Exemplo: atravessamos a década passada sem um programa nacional de ações para reduzir mortes e ferimentos graves no trânsito.

Desde setembro passado o órgão máximo do trânsito brasileiro subiu ao nível de Secretaria Nacional, com promessas de ativar o Pnatrans, para combater a sinistralidade e colocar de pé um banco de dados estatísticos, o Renaest, para nos informar, enfim, qual é a realidade nacional. São duas alavancas indispensáveis para mover o país na direção de uma realidade promissora. Contudo, não esqueçamos, são promessas, não ainda realidade.

A 2ª Década parece ser uma expectativa auspiciosa apenas para um número restrito de cidades brasileiras, onde, na sua maioria, podem contar com o apoio de instituições internacionais que já deram boas contribuições a outras cidades na primeira década. Menos mal que seja assim pois estas cidades podem servir de exemplos para outras nos próprios estados.

Quais as chances de o Brasil chegar a 2030 com 50% de redução de vítimas fatais comparando com o final de 2020?

Creio, sinceramente que são razoáveis se passarmos a ter um governo federal mais interessado e apoiando adequadamente os estados e principalmente os municípios porque, afinal, é lá que o trânsito acontece.

Ano passado o Ministério da Infraestrutura assinou um acordo de cooperação com o governo da Suécia para importar a experiência do programa Visão Zero. Uma incrível base de conhecimento que pode servir para tropicalizar aqui ações desenvolvidas na Escandinávia já há mais de 20 anos. Mas, de volta, não esqueçamos, foi uma intenção.

Repito o que já disse várias vezes neste espaço: temos (quase) tudo neste país para desenvolver um bom programa de segurança no trânsito. Por exemplo, temos enorme necessidade de um programa desses, temos gente qualificada para trabalhar na área, temos recursos. Falta montar um bom plano de ação e colocar as mãos às obras! Ah, sim, precisamos, ou melhor, dependemos da tão sonhada vontade política brasileira!

 

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