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Campanhas de Conscientização no Trânsito

Artigo – Sociedade e campanhas de trânsito 

Artigo – Sociedade e campanhas de trânsito
Foto: Arquivo Tecnodata.

J. Pedro Corrêa escreve sobre como envolver a sociedade em campanhas de segurança no trânsito e como podemos valorizar ainda mais movimentos como o Maio Amarelo.

*J. Pedro Corrêa

Campanhas de trânsito
Foto: Arquivo Tecnodata.

Um leitor do Nordeste me faz uma pergunta simples, mas recorrente. Diz que a instituição em que trabalha pretende lançar uma campanha de comunicação sobre segurança no trânsito e quer saber se deve “pegar leve ou pesado” na mensagem. Esta questão surge de vez em quando pois percebo que muitos ainda têm dúvidas se é melhor adotar a linha do humor, do horror ou do amor.

A resposta que dou nestas ocasiões é que depende do que se pretende como resultado da campanha.

Qual é o problema que se quer abordar? Qual é o público? E o meio de comunicação? Quais os recursos disponíveis e por aí vai. O essencial é que haja estudo sobre o tema da campanha e que os responsáveis por ela tenham absoluto domínio sobre o assunto e, então, façam um planejamento detalhado de todo o processo para conseguir o melhor resultado. Não é tão fácil, mas tampouco algo do outro mundo. Para ilustrar e discutir, conto a seguir a história de uma das melhores campanhas sobre trânsito que já conheci no Brasil.

Em 1998 a Prefeitura de Curitiba identificou como um dos grandes problemas na cidade as filas duplas e triplas de carros na frente das escolas nos horários de entrada e saída das aulas. Grande número de pais de alunos que iam levá-los às escolas não obedecia às filas organizadas, preferindo dar “só uma paradinha” em fila dupla ou tripla na frente do portão principal para que a criança saísse do carro. Isto, claro, causava congestionamentos e muita irritação por parte dos demais adultos que obedeciam às filas e tinham de esperar pela sua vez.

O Departamento de Trânsito de Curitiba encomendou à sua agência uma campanha de comunicação que chamou de “Cidadão em Trânsito”, com filmes, spots para rádios, anúncios em jornais, outdoors pela cidade, etc.

Foi um trabalho memorável que, além de render prêmios pela criatividade, acabou resolvendo o problema ou pelo menos reduzindo-o a um patamar aceitável. A ideia básica da campanha era zombar daqueles que cometiam essas falhas e ridicularizá-los perante a sociedade. Até hoje, tem gente que se lembra dos personagens criados pela campanha para ironizar os infratores: a Perua (que estacionava em fila dupla), o rato (que furava sinal vermelho) a anta (que parava no meio do cruzamento, atravancando o tráfego). Uma extensão da campanha, no ano seguinte, criou outros personagens.

Na oportunidade procurei o Paulo Vítola, da Múltipla Propaganda, autor da campanha, para discutir o ponto que me intrigou que era o de “insultar” o cidadão que comete falta leve como parar em fila dupla na frente da escola – longe de mim, defendê-lo. Me explicou que, ao desenvolver a campanha, a agência teve o cuidado de fazer uma avaliação qualitativa de conteúdo. Dessa forma, reuniu um grupo heterogêneo da sociedade para saber se ela aprovaria a ridicularização dos personagens e teve como resultado uma sonora aprovação.

Em 2011, quando veio ao Brasil para explanar em palestras como a Espanha havia conseguido baixar o seu alto número de sinistros no trânsito, o Dr. Pere Navarro, diretor da agência espanhola de trânsito, explicou que lá também havia usado o mesmo tipo de recurso de Curitiba, ridicularizando os infratores e contando com o aplauso da sociedade daquele país.

Estas histórias ilustram a importância de saber envolver a sociedade quando se planeja uma campanha de comunicação em que seu envolvimento é fundamental. Normalmente os setores de trânsito das prefeituras alegam falta de recursos para não fazer pesquisas de opinião. Na verdade, porém, muitas vezes não fazem sequer campanhas de informação, o que é lamentável.

Comprovando que trânsito não é realmente uma prioridade no nosso país, atualmente campanhas de propaganda sobre segurança não têm sido tão frequentes quanto já foram há alguns anos. A explicação é a falta de recursos. Mesmo o Denatran, que costumava ter uma verba anual para campanhas, parou de fazer. Restam as peças divulgadas nas mídias sociais por prefeituras, detrans, ONGs e mesmo empresas privadas veiculando mensagens de segurança sem que possam ser caracterizadas como campanhas e, muito menos temáticas. É pena porque, os esforços são válidos, mas isolados e dispersos. Porém, cada vez mais o país precisa unificar e solidificar o seu discurso de segurança no trânsito.

Órgãos responsáveis pelo trânsito têm se valido muito, ultimamente da chamada mídia espontânea. Isto é, a divulgação gratuita de suas informações distribuídas em seus press releases.

Voltando à pergunta do leitor do início deste comentário, acrescento que não existe muita literatura sobre o tema, mesmo no cenário internacional.

O melhor trabalho sobre planejamento, execução e avaliação de campanhas de segurança no trânsito que conheço é uma série de quatro publicações pela Comissão Europeia, em Bruxelas. Em 2009, ela sintetizou e analisou projetos desenvolvidos nos países europeus no começo do século. Dessa forma, seria muito bom se nossas cidades pudessem contar com um guia de como desenvolver campanhas de trânsito no Brasil. Ganharíamos em eficiência na transmissão das mensagens e certamente otimizaríamos os recursos na sua implementação.

Como exemplo do que pretendo dizer, cito a mobilização do Maio Amarelo que chegou ao fim, esta semana. O tema deste mês é “Respeito e Responsabilidade. Pratique no trânsito.” Sei que repercutiu muito bem pelo país afora e isto é muito importante. Lamento apenas que os organizadores da mobilização no nível municipal não tenham podido acrescentar ações de campo para dar maior sentido ainda ao Maio Amarelo. Como?

Se estamos pedindo respeito e responsabilidade é porque ambos estão em falta no cotidiano do nosso trânsito.

Por que, então não identificar áreas, bairros, ruas, cruzamentos da cidade onde um ou outro poderiam dar mais vida à mobilidade. Além disso, levar a sociedade a ver na prática um bom exemplo do que é essencial para a nossa convivência no trânsito? Não ficaríamos apenas na reflexão sugerida, mas acrescentaríamos dois elementos que necessitamos muito trabalhar no trânsito brasileiro. Creio que a ausência da aplicação desta ideia se deve em boa medida à falta de melhor cultura de segurança no trânsito que começa a ser incentivada e que precisa ser ampliada. Oxalá possamos praticá-la já em setembro próximo na Semana Nacional do Trânsito para que já estejamos melhores ainda no Maio Amarelo de 2022.

*J. Pedro Corrêa é Consultor em Programas de Segurança no Trânsito

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