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Artigo: Natal triste 

Artigo: Natal triste
Foto: Freeimages.com

Como você espera que a sociedade se comporte neste natal em relação ao Covid-19 e, principalmente no trânsito? Este é o tema do artigo de J. Pedro Correa. 

J. Pedro Correa*

À medida que entramos na semana do natal de 2020 tenho sido atacado por um sentimento de angústia e frustração. Percebo o estado de espírito da sociedade brasileira diante da pandemia e das imploradas recomendações de não fazer festa de natal e o quadro não é nada animador. Ora, depois de 10 meses sofrendo com o COVID-19, a população ainda será tolhida de festejar o natal com familiares e/ou amigos? Se valer o bom senso incentivado pelos especialistas é o que deveria acontecer, notadamente aqueles encontros de 10, 15, 20 pessoas. Minha suspeita, contudo, é que esta lei do bom senso não será muito respeitada.

Se isto pode acontecer com as festas em casa (nem imagino nos bares, restaurantes) o que acontecerá com o trânsito quando as pessoas “se esquecem” de que não devem tomar bebida alcoólica e depois dirigir?

Este é o meu temor! Como se já não bastasse a pandemia, que tem levado centenas de vidas todos os dias, agora temos o trânsito para piorar ainda mais o quadro natalino! Menos mal que parte da sociedade parece que vai obedecer as advertências das autoridades e outra parte não estaria disposta a pegar as estradas, mas ainda assim a preocupação com o restante da sociedade é justificável. Todos os anos são registradas centenas de mortes no trânsito neste período e o temor é que este ano não seja diferente.

É claro que dá para entender a aflição da sociedade diante do fim do Covid que não chega nunca, assim como se compreende a tentação de viajar neste período depois de um ano tão sacrificante como 2020. O problema é que o Covid não entende estas razões e, como tem mostrado, tampouco perdoa os que são infectados.

Ficando agora apenas no tema que mais me interessa discutir hoje, a questão dos acidentes, a eventual tragédia deste natal pode ser perfeitamente evitável pois depende fundamentalmente do nosso comportamento no trânsito.

Se precisarmos viajar ou se tivermos de nos deslocar para qualquer lugar, podemos fazê-lo com segurança, basta apenas respeitar as leis de trânsito. Além da indispensável decisão de não beber se for conduzir, ainda tem os demais cuidados imprescindíveis com o carro: revisão de segurança, pneus, freios, enfim, toda a série de itens que precisam ser checados para depois colocar o carro na estrada.

Vamos combinar que isto não é nem difícil e nem caro na medida em que ajuda a manter a segurança de todos, familiares ou amigos. A questão é que este hábito não é praticado por boa parte dos brasileiros e é por isto que falo em “sentimento de angústia e frustação”, no começo deste artigo.

Atacar este mal significa esboçar um grande esforço para mudar o comportamento da sociedade através de um longo e paciente programa de educação e cultura de trânsito. Ao contrário do que muitos pensam, não se trata de intensificar, apenas, o ensino de segurança no trânsito nas escolas ou só aos jovens. Não, temos de promover a discussão em todos os segmentos da sociedade pois cada um deles apreende e responde de forma diferente.

O grande campeão de fórmula 1, Jackie Stewart, me disse numa entrevista nos anos de 1970 que, para ele, educação para o trânsito era o que ele discutia com seu pai e sua mãe na hora do jantar sobre o seu caminho da escola na manhã seguinte.

Dito de outra forma, você fortalece a educação quando ela está presente no cotidiano da família, quando você a expande para o seu ambiente de trabalho ou convívio social. Educar as crianças é essencial, mas nunca devemos esquecer que os adultos, sobretudo pais e tutores são os melhores exemplos delas e por isso devem ser sempre os modelos corretos.

Falar mal do ensino nas escolas porque não avança ou mesmo criticar o Governo porque não consegue implantar um sistema escolar que ensine trânsito adequadamente, não contribui para acabar com a violência do trânsito de hoje. Assim, na ausência de programas governamentais consistentes, precisamos cuidar de nós mesmos, tomar as devidas precauções, evitar riscos bem como aquilo que chamamos de “acidentes”.

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Se zelar pela segurança dos menores e mais jovens é o papel de pais e tutores, esta também deve ser uma das principais tarefas das lideranças sejam elas políticas, empresariais, sociais, religiosas, quaisquer que sejam.

Cada empresa, não importa a área em que atue, deve ter um programa de segurança bem ativo para que instigue cada colaborador a ser um gerenciador de riscos e, assim, se torne uma pessoa segura. Por sua vez, cada entidade, não importa o setor que lidere, deveria incentivar seus afiliados a zelar pela segurança, capaz de oferecer à sociedade uma melhor qualidade de vida.

Isto não significaria apenas melhorar a autoestima da população, mas economizar bilhões de reais, de canalizar recursos enormes para outros investimentos sociais de fundamental importância como saúde, educação, habitação, enfim bem-estar de todos. É fácil fazer uma conta na ponta do lápis provando que, com 10% de redução de acidentes, o país teria recursos para construir hospitais, residências e escolas num número expressivo. Este cálculo foi feito há quase 30 anos, mas, agora, pode ser refeito provavelmente com muito mais qualidade e exatidão.

Assim, quando vejo de novo chegar o natal e, mais uma vez, sinto a falta de sintonia, a negligência de parte da sociedade e das lideranças para com as precauções de segurança, não há como não se sentir triste e angustiado. Oxalá desta vez estejamos mais seguros e mais atentos aos riscos e possamos, assim, enfrentar melhor os perigos do trânsito.

Que tenhamos todos um feliz natal, cheio de esperanças por dias melhores!

Comentários, críticas: [email protected]

*J. Pedro Correa é Consultor em Programas de Trânsito

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