20 de outubro de 2026

Dia do Instrutor de Trânsito: por que aprender a dirigir vai muito além de passar na prova

Em meio à flexibilização das regras da CNH, formação teórica e prática de qualidade continua essencial para preparar condutores seguros; atuação do instrutor pode fazer a diferença entre memorizar regras e compreender os riscos do trânsito.


Por Mariana Czerwonka Publicado 19/10/2026 às 10h30
Ouvir: 00:00
Dia do Instrutor de Trânsito
Mesmo com a flexibilização das regras para obter a CNH, a orientação de um instrutor qualificado pode fazer a diferença na formação de condutores mais seguros. Foto: reprodução/ilustrativa.

Tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ficou mais simples em diversos aspectos. As mudanças recentes no processo de formação de condutores reduziram exigências, ampliaram as possibilidades de aprendizagem e abriram espaço para novos modelos de ensino. Mas, em meio a tantas transformações, uma questão permanece: o que realmente significa estar preparado para dirigir?

A reflexão ganha relevância no contexto das comemorações do Dia do Instrutor de Trânsito, profissional que desempenha um papel fundamental na preparação de quem está começando a compartilhar as ruas e rodovias com outras pessoas.

Mais do que ensinar a controlar um veículo ou orientar o candidato para os exames, o instrutor pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades, atitudes e comportamentos que acompanharão o condutor por toda a vida.

E, em um cenário de maior liberdade para escolher como aprender, a qualidade dessa orientação pode fazer ainda mais diferença.

Menos exigências não significam menos necessidade de aprender

A Resolução Contran nº 1.020/2025 trouxe mudanças importantes ao processo de habilitação no Brasil. Entre elas estão a redução da carga horária mínima de aulas práticas de 20 para duas horas, a possibilidade de atuação de instrutores autônomos e a ampliação das alternativas para realizar a formação teórica.

As medidas buscam facilitar o acesso à CNH, especialmente para quem enfrentava dificuldades financeiras para concluir o processo.

Entretanto, a diminuição das exigências formais não altera a complexidade do trânsito nem os desafios enfrentados por quem assume a direção de um veículo.

Conforme Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata Educacional, é importante distinguir a simplificação do processo administrativo da preparação necessária para dirigir com segurança.

“Não podemos confundir a redução de exigências com a redução da necessidade de aprendizagem. O trânsito continua exigindo conhecimento, habilidade, percepção de riscos e responsabilidade. A formação precisa preparar o cidadão para essa realidade, e não apenas para a aprovação em um exame.”

A avaliação prática representa uma etapa importante para verificar determinadas competências do candidato. No entanto, situações como chuva intensa, baixa visibilidade, comportamento inesperado de outros condutores e convivência com usuários mais vulneráveis nem sempre podem ser reproduzidas durante o exame.

Por isso, a preparação para dirigir não deveria se limitar ao cumprimento da carga horária mínima prevista na legislação.

Formação teórica: entre o curso gratuito e a aprendizagem de verdade

Uma das principais novidades do novo modelo é a possibilidade de realizar gratuitamente o curso teórico oferecido pelo governo federal, na modalidade de educação a distância (EaD).

A iniciativa amplia o acesso ao conteúdo e permite que o candidato organize seus estudos com maior autonomia. Além disso, a regulamentação deixou de estabelecer uma carga horária mínima predeterminada para essa etapa.

Mas disponibilizar informações não significa, necessariamente, garantir que elas sejam compreendidas e incorporadas ao comportamento.

Aprender legislação de trânsito, por exemplo, vai muito além de memorizar placas, penalidades ou regras de circulação. É necessário compreender por que essas normas existem, quais riscos procuram prevenir e como aplicá-las em situações reais.

É justamente nesse ponto que a atuação de um bom instrutor teórico pode representar um diferencial.

Ao relacionar o conteúdo com exemplos do cotidiano, esclarecer dúvidas, estimular a participação e provocar reflexões, esse profissional pode transformar informações disponíveis em conhecimento efetivo.

“Existe uma diferença importante entre receber uma informação e aprender a utilizá-la. Um bom instrutor contextualiza, apresenta situações reais, esclarece dúvidas e ajuda o aluno a compreender as consequências de suas escolhas no trânsito. Esse trabalho pedagógico não perde importância com a tecnologia. Pelo contrário, pode se tornar ainda mais valioso”, avalia Mariano.

Isso não significa que o ensino a distância seja, por natureza, inferior ao presencial. Recursos digitais bem estruturados também podem favorecer uma aprendizagem consistente.

A diferença está na qualidade do processo educativo, na metodologia utilizada e na capacidade de promover compreensão, reflexão e aplicação prática dos conhecimentos.

A própria Resolução Contran nº 1.020/2025 determina que os cursos teóricos adotem estratégias pedagógicas ativas, estimulem o pensamento crítico e incentivem uma aprendizagem significativa.

Portanto, o desafio não está apenas em oferecer acesso ao conteúdo, mas em garantir que ele contribua efetivamente para a formação do futuro condutor.

O instrutor prático ensina muito mais do que estacionar

Na formação prática, a importância do acompanhamento profissional também ultrapassa o domínio dos comandos do veículo.

Aprender a arrancar, trocar marchas, fazer conversões ou estacionar representa apenas parte do processo.

Um condutor precisa desenvolver a capacidade de observar o ambiente, antecipar situações de risco, interpretar o comportamento de outros usuários da via e tomar decisões seguras, muitas vezes em poucos segundos.

É durante as aulas que o instrutor pode identificar dificuldades individuais, corrigir comportamentos inadequados e ajudar o candidato a desenvolver hábitos que dificilmente seriam adquiridos apenas pela repetição de manobras.

A atenção aos pontos cegos, o respeito à distância de segurança, a redução da velocidade diante de situações de risco e o cuidado com pedestres e ciclistas são exemplos de atitudes que precisam ser compreendidas e praticadas.

Nesse contexto, a redução da carga horária mínima obrigatória para duas horas não significa que esse período seja suficiente para todos os candidatos.

Cada pessoa apresenta experiências, dificuldades e ritmos de aprendizagem diferentes. Enquanto algumas podem desenvolver determinadas habilidades com mais facilidade, outras precisam de acompanhamento adicional. “Dirigir não é apenas executar movimentos corretamente. É interpretar o ambiente, reconhecer perigos e tomar decisões que preservem vidas. O instrutor tem a oportunidade de trabalhar essas competências desde o início, antes que comportamentos inadequados se transformem em hábitos difíceis de corrigir”, destaca Celso Mariano.

O novo cenário também exige valorização da qualidade profissional

A flexibilização das regras alterou o mercado de formação de condutores. Com a possibilidade de contratar instrutores autônomos e escolher diferentes modalidades de ensino, o candidato passou a ter mais alternativas.

Nesse cenário, a qualificação profissional, a experiência, a didática e a capacidade de acompanhar as necessidades individuais dos alunos podem ganhar ainda mais relevância.

A escolha de um instrutor não deveria considerar apenas o preço ou a quantidade mínima de aulas necessárias para cumprir as exigências legais.

É importante observar a qualidade das orientações, a clareza das explicações, o compromisso com a segurança e a capacidade de ensinar de maneira respeitosa e adequada ao nível de aprendizagem de cada candidato.

O mesmo vale para a formação teórica. Embora o conteúdo gratuito represente uma alternativa importante, aulas bem planejadas, com orientação pedagógica e espaço para dúvidas, podem agregar valor ao processo.

Isso também representa uma oportunidade para os profissionais e instituições que atuam na educação para o trânsito: demonstrar que seu trabalho oferece algo que vai além do simples cumprimento de uma etapa burocrática.

A aprovação é uma etapa. A formação é para a vida.

A discussão sobre as novas regras da CNH frequentemente se concentra em custos, prazos, quantidade de aulas e facilidade para obter o documento.

Esses aspectos são importantes, mas não deveriam deixar em segundo plano o principal objetivo da formação: preparar pessoas para circular com segurança em um ambiente compartilhado.

A habilitação autoriza legalmente a condução de veículos. Entretanto, dirigir com responsabilidade exige aprendizado contínuo, atualização de conhecimentos e disposição para reconhecer os próprios limites.

O papel do instrutor é especialmente relevante porque ele participa de um dos primeiros contatos do futuro condutor com as responsabilidades da direção.

É nesse momento que podem ser construídas referências importantes sobre respeito às regras, convivência, prudência e valorização da vida.

Para Celso Mariano, esse é um aspecto que precisa permanecer no centro do debate sobre a modernização do processo de habilitação.

“O verdadeiro resultado de uma boa formação não aparece apenas no índice de aprovação dos exames. Ele aparece nas decisões que o condutor toma quando está sozinho no trânsito, especialmente diante de situações de risco. O instrutor que consegue transmitir essa consciência contribui para algo muito maior do que a conquista da CNH: contribui para a segurança de todos.”

Em um país que ainda convive com elevados números de mortes e lesões no trânsito, a discussão sobre a qualidade da formação precisa acompanhar qualquer mudança nas regras de habilitação.

Afinal, tornar a CNH mais acessível é um objetivo importante. Mas garantir que os novos condutores estejam preparados para compartilhar as vias com responsabilidade é uma necessidade permanente.

E é justamente nesse compromisso com a aprendizagem e a preservação da vida que o trabalho dos instrutores de trânsito encontra seu maior significado.

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *