26 de agosto de 2026

Brasil tem cinco vezes mais mortes no trânsito que os EUA pela mesma distância percorrida

Estados Unidos reduziram em 6,7% as mortes no trânsito em 2025 e alcançaram a segunda menor taxa de mortalidade viária de sua série histórica. Comparação feita pelo professor David Duarte Lima ajuda a dimensionar a diferença para a realidade brasileira.


Por Mariana Czerwonka Publicado 25/08/2026 às 08h15
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Brasil mortes no trânsito
Comparação da mortalidade pela distância percorrida revela diferença significativa entre Brasil e Estados Unidos. Em 2025, os EUA reduziram em 6,7% as mortes no trânsito. Foto: joasouza para Depositphotos

Os Estados Unidos registraram uma queda expressiva nas mortes no trânsito em 2025. Foram estimadas 36.640 vítimas fatais, 6,7% a menos que no ano anterior. O resultado ganha outra dimensão quando comparado à realidade brasileira: considerando a distância percorrida pelos veículos, morrem proporcionalmente cerca de cinco vezes mais pessoas no trânsito do Brasil.

A comparação é do professor e especialista em segurança viária David Duarte Lima. Conforme ele, ao converter os indicadores para uma mesma unidade, os Estados Unidos apresentam uma taxa de 6,84 mortes por bilhão de quilômetros percorridos, enquanto a brasileira estaria em aproximadamente 34.

“Dito de outra forma, no Brasil morre-se cinco vezes mais no trânsito pela mesma distância percorrida”, afirma.

O contraste chama atenção justamente no momento em que a Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário dos Estados Unidos (NHTSA, na sigla em inglês) divulga indicadores que apontam uma melhora consistente na segurança viária norte-americana.

Taxa de mortes nos EUA é a segunda menor já registrada

Além da redução de 6,7% no número estimado de mortes, os Estados Unidos chegaram em 2025 a 1,10 morte para cada 100 milhões de milhas percorridas por veículos.

De acordo com o NHTSA, essa é a segunda menor taxa de mortalidade no trânsito já registrada na série histórica do país.

A melhora pode ser percebida também na comparação com os números consolidados de 2024. Naquele ano, 39.254 pessoas morreram em sinistros de trânsito nos Estados Unidos e a taxa de mortalidade ficou em 1,19 por 100 milhões de milhas percorridas.

Isso representa uma redução estimada de mais de 2,6 mil mortes de um ano para outro.

Outro dado mostra que a queda não ficou concentrada em poucas regiões. O NHTSA estima que as mortes diminuíram em 39 estados norte-americanos, além do Distrito de Columbia e de Porto Rico, durante 2025.

Veículos circularam mais e, ainda assim, houve menos mortes

Um dos indicadores mais relevantes divulgados pelo NHTSA é justamente aquele que relaciona mortalidade e exposição ao trânsito.

Dados preliminares da Administração Federal de Rodovias dos Estados Unidos apontam que a distância total percorrida pelos veículos aumentou aproximadamente 29,8 bilhões de milhas em 2025, crescimento de cerca de 0,9%.

Isso significa que os veículos circularam mais pelas vias norte-americanas. E, mesmo assim, houve redução tanto no número absoluto de mortes quanto na taxa de mortalidade por distância percorrida.

É justamente esse tipo de indicador que permite uma comparação mais qualificada entre diferentes realidades.

Apenas confrontar o total de mortes de Brasil e Estados Unidos não considera diferenças de população, tamanho da frota e volume de deslocamentos. Quando se observa quantas pessoas morrem em relação à distância efetivamente percorrida, passa-se a considerar também a exposição ao risco.

É nesse ponto que David Duarte Lima chama atenção para a distância entre os dois países. “Se considerarmos a taxa por bilhão de km percorridos, a taxa dos EUA é de 6,84; a do Brasil aproximadamente 34”, compara.

Ou seja, segundo o cálculo apresentado pelo especialista, para uma mesma quantidade de quilômetros percorridos, a mortalidade brasileira seria aproximadamente cinco vezes maior.

Fiscalização e comportamentos de risco estão entre as estratégias

Ao divulgar os resultados, o Departamento de Transportes dos Estados Unidos relacionou parte da melhora ao reforço das ações de fiscalização e prevenção de comportamentos considerados de alto risco.

Entre as frentes mencionadas estão o combate à direção sob efeito de álcool, à distração ao volante e à falta do uso do cinto de segurança.

Também foram destacadas ações relacionadas à fiscalização da qualificação de motoristas profissionais de veículos pesados e iniciativas para ampliar o acesso da população a veículos mais novos e equipados com recursos de segurança.

Os dados divulgados pelo NHTSA, entretanto, não permitem atribuir a redução das mortes a uma única ação específica. O que o resultado mostra é uma evolução dos indicadores em um cenário no qual diferentes estratégias de segurança viária vêm sendo aplicadas simultaneamente.

Distração ao volante permanece como preocupação

A própria ocasião escolhida para divulgar os dados ajuda a mostrar que a melhora não significa que os principais fatores de risco estejam superados.

O anúncio ocorreu durante um evento que marcou abril como o mês nacional de conscientização sobre a direção distraída nos Estados Unidos.

Segundo o NHTSA, 18 pessoas ficam feridas a cada meia hora em sinistros relacionados à distração ao volante no país. Além disso, aproximadamente uma pessoa morre a cada duas horas e meia em ocorrências associadas a esse comportamento.

Entre 6 e 13 de abril, o órgão realizou a campanha Put the Phone Away or Pay — em tradução livre, “Guarde o celular ou pague”. O objetivo foi alertar sobre as consequências financeiras, legais e, principalmente, fatais da distração ao dirigir.

Durante esse período, as forças policiais intensificaram ações para identificar e abordar motoristas dirigindo de maneira distraída.

A estratégia mostra que, mesmo diante da redução geral das mortes, o país mantém ações específicas sobre comportamentos que continuam produzindo vítimas.

O que a comparação revela sobre o Brasil

Não se deve interpretar os números dos Estados Unidos como uma fórmula que possa simplesmente se reproduzir no Brasil.

Os dois países têm características distintas de infraestrutura, composição da frota, participação de motocicletas e outros modos de transporte, fiscalização, legislação e padrões de deslocamento.

Ainda assim, comparar a mortalidade considerando a exposição ao trânsito permite dimensionar melhor o desafio brasileiro.

Se a estimativa apresentada por David Duarte Lima for considerada, são aproximadamente 34 mortes por bilhão de quilômetros percorridos no Brasil contra 6,84 nos Estados Unidos.

Mais do que a diferença numérica, o resultado norte-americano mostra que é possível reduzir simultaneamente o número absoluto de vítimas e o risco de morte associado aos deslocamentos.

Para David, os dados indicam “uma melhora importante da segurança viária nos Estados Unidos, tanto em números absolutos de mortes quanto no risco por distância percorrida”.

No Brasil, a diferença de aproximadamente cinco vezes reforça a necessidade de tratar a redução das mortes no trânsito como uma política permanente. Fiscalização dos comportamentos de risco, educação, infraestrutura segura, veículos mais seguros e decisões orientadas por dados precisam fazer parte de uma estratégia contínua para reduzir uma mortalidade que permanece muito elevada quando considerada a exposição ao trânsito.

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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