Drones, IA e ultrassom criam novas funções no transporte metroferroviário
Tecnologia muda a manutenção e a operação de sistemas sobre trilhos e cria funções ligadas a drones, análise de dados, ultrassom e equipamentos automatizados.

Quando se pensa nas profissões necessárias para manter trens e metrôs em funcionamento, operadores, mecânicos, eletricistas e equipes de manutenção provavelmente estão entre as primeiras lembranças. A transformação tecnológica do setor, entretanto, está acrescentando novas funções a esse universo — algumas delas pouco associadas ao transporte sobre trilhos até poucos anos atrás.
Operadores de drones, ultrassonografistas de trilhos, operadores de carros-controle e profissionais responsáveis pela análise de dados coletados por sistemas automatizados já fazem parte das equipes das linhas 4-Amarela, 5-Lilás, 8-Diamante e 9-Esmeralda, em São Paulo.
As novas atividades acompanham uma mudança na própria manutenção dos sistemas.
Equipamentos capazes de inspecionar estruturas, coletar dados e identificar possíveis anomalias permitem que determinadas verificações sejam realizadas de maneira mais rápida e direcionada.
Parte das novas funções está sendo preenchida por profissionais que já trabalhavam nas concessionárias e passaram por capacitação específica.
“Essa demanda por profissionais de tecnologia no setor é recente, mas tem avançado muito rápido. Para algumas funções, por exemplo, é necessário que haja uma integração entre a área técnica e a de tecnologia, e o conhecimento prévio da operação e do negócio faz toda a diferença”, explica Ilsa Carla da Silva, gerente-executiva de pessoas da Motiva.
Conforme ela, a estratégia tem sido recrutar e capacitar internamente profissionais interessados nas novas atividades.
Drones ajudam a inspecionar vias e estruturas
Uma das tecnologias que passou a fazer parte da rotina metroferroviária são os drones.
Nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, operadas pela ViaMobilidade, seis profissionais foram recentemente capacitados para trabalhar com os equipamentos. Eles já atuavam como agentes de atendimento e segurança (AAS) e passaram por seleção interna e cinco dias de formação.
Com os novos operadores, a equipe chegou a dez profissionais dedicados aos voos realizados ao longo das vias e estações.
Os drones são utilizados tanto em atividades relacionadas à segurança quanto no apoio à manutenção. “Toda a capacitação foi construída a partir das necessidades que temos no dia a dia das operações. Essa equipe é responsável pelo mapeamento das vias e circulação de trens. Então eles têm interface tanto com o nosso time de segurança quanto com a manutenção”, explica Everton Trindade, diretor da ViaMobilidade – Linhas 8 e 9.
De acordo com ele, os equipamentos permitem cobrir áreas extensas em menor tempo e podem auxiliar desde a identificação de acessos à via para furto de cabos até a localização de possíveis anomalias estruturais.
De agente de atendimento ao núcleo de inteligência
A utilização de novas tecnologias também está criando possibilidades de mudança de carreira dentro do próprio sistema.
Andressa Oliveira, por exemplo, ingressou como agente de atendimento e segurança e atualmente é Agente Líder do Núcleo de Inteligência das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.
Entre suas atribuições está a coordenação dos operadores de drones, incluindo definição de itinerários e escalas de voos, além da integração com outras áreas. “Nosso principal foco hoje é atuar na prevenção e combate a furtos, vandalismo e outras situações que possam comprometer o bom funcionamento do sistema. Também apoiamos os times de manutenção em inspeções e monitoramentos que precisam ser realizados tanto durante a circulação dos trens quanto nas janelas em que atuam”, explica.
Nas linhas 4-Amarela e 5-Lilás, outros dez profissionais — cinco de cada linha — também passaram por capacitação para operar drones.
Nesse caso, eles já integravam as equipes de manutenção de equipamentos fixos e manutenção civil. Os equipamentos podem ser utilizados em inspeções de fachadas, para-raios, subestações de energia e outras estruturas.
Trilhos também passam por “ultrassom”
Entre as novas profissões, uma das que mais chama atenção pelo nome é a de ultrassonografista de via. Não se trata, evidentemente, do exame utilizado na medicina. O princípio tecnológico é aplicado à inspeção dos trilhos.
Um equipamento de ultrassom realiza uma varredura da estrutura para identificar indícios de anomalias, como pequenas trincas, corrugações e outras deformações que possam exigir intervenção.
A identificação antecipada desses problemas é relevante porque alterações na estrutura podem demandar manutenção ou até restrições operacionais de velocidade.
Segundo a Motiva, esse tipo de inspeção já é utilizado no setor ferroviário. A mudança adotada pela empresa foi adquirir equipamento próprio e contar com um profissional dedicado à análise dos resultados.
Com isso, a intenção é reduzir o intervalo entre a inspeção, a identificação de uma possível anomalia e o encaminhamento do serviço para as equipes responsáveis pela manutenção.
Um caminhão que anda sobre os trilhos e é controlado por joystick
Outra função ligada à modernização da manutenção é a de operador de carro-controle.
Apesar do nome, o equipamento é um caminhão adaptado para circular sobre os trilhos. Sua operação é realizada por meio de um joystick.
O veículo pode transportar diferentes equipamentos destinados à inspeção das estruturas metálicas e da rede aérea.
Durante o percurso, essas ferramentas coletam informações sobre as condições dos componentes. Os dados podem então ajudar as equipes a direcionar as atividades de manutenção para os pontos que exigem maior atenção.
Isso ganha importância diante do tempo disponível para determinadas intervenções. Segundo a concessionária, as janelas diárias de manutenção têm aproximadamente três horas e meia.
Quanto mais precisas forem as informações sobre a localização de uma possível falha, mais direcionado pode ser o trabalho realizado nesse intervalo.
IA também entra na manutenção dos trens
A inteligência artificial aparece em outra frente da transformação tecnológica. Ferramentas embarcadas nos trens podem coletar dados durante a operação, que posteriormente precisam ser analisados e interpretados por profissionais.
O objetivo é utilizar essas informações para apoiar uma manutenção cada vez mais orientada pelas condições dos equipamentos, identificando sinais que indiquem a necessidade de uma intervenção.
A tecnologia, portanto, não elimina necessariamente a participação humana. Em muitos casos, muda o tipo de conhecimento exigido do profissional, combinando experiência técnica tradicional com capacidade de operar equipamentos e interpretar informações produzidas por sistemas digitais.
“Nosso setor metroferroviário passa por uma revolução importante, mas também silenciosa. Hoje, as operações exigem tanto conhecimento técnico clássico quanto leitura de dados e tecnologia avançada”, afirma Antonio Marcio, diretor das Linhas 4-Amarela e 5-Lilás da Motiva.
Robôs já ajudam até na limpeza das estações
A automação chegou também às atividades de conservação.
A Linha 5-Lilás passou a utilizar robôs de limpeza nas estações. Embora os equipamentos consigam executar parte das tarefas de maneira autônoma, ainda há necessidade de profissionais para programação, operação, manutenção e mapeamento das áreas onde trabalharão.
Nesse caso, a concessionária recorreu a uma empresa especializada para dar suporte à utilização dos equipamentos.
O exemplo demonstra uma característica importante da automação no transporte: a introdução de máquinas capazes de realizar determinadas tarefas também pode gerar demanda por novas competências profissionais para configurar, acompanhar e manter esses sistemas.
Tecnologia muda o perfil de quem trabalha no transporte
A transformação observada no transporte sobre trilhos acompanha um desafio encontrado em outros setores.
Uma pesquisa “Mercado de Trabalho Tech: Raio-X e Tendências”, encomendada pela Ford e realizada pelo Datafolha em abril de 2026, aponta que 98% das empresas brasileiras pesquisadas relatam dificuldades para encontrar profissionais qualificados em tecnologia.
No setor metroferroviário, uma das respostas encontradas tem sido combinar recrutamento externo com capacitação de profissionais que já conhecem a operação.
A mudança ajuda a explicar por que algumas profissões tradicionais passam a conviver com funções que, até recentemente, dificilmente seriam associadas a uma ferrovia ou linha de metrô.
Drones sobrevoando vias, ultrassom procurando falhas dentro dos trilhos, veículos de inspeção controlados por joystick, inteligência artificial analisando informações e robôs circulando pelas estações mostram que a digitalização do transporte não acontece apenas nos equipamentos utilizados pelos passageiros.
Ela também está transformando os bastidores da operação — e, com eles, o perfil dos profissionais necessários para manter os sistemas funcionando.
