Ipea alerta: mototáxi pode agravar crise de mortes com motociclistas no Brasil
Nota Técnica nº 57 do IPEA alerta que a ampliação do mototáxi pode agravar a epidemia de mortes de motociclistas no Brasil. Entenda os riscos e os dados.

A motocicleta se consolidou como um dos pilares da mobilidade brasileira — e, ao mesmo tempo, como o maior fator de risco no trânsito do país. Essa é a principal mensagem da Nota Técnica nº 57 da Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (Dirur) do IPEA, que analisou a evolução da frota, as estatísticas de mortalidade e o impacto da possível expansão dos serviços de mototáxi em todo o território nacional.
O documento, intitulado “Mortalidade e morbidade das motocicletas e os riscos da implantação do mototáxi no Brasil”, traz dados contundentes: a frota de motocicletas cresceu mais de 12 vezes entre 1998 e 2024, passando de 2,7 milhões para 34,5 milhões de unidades. No mesmo período, o número de mortes de motociclistas saltou 15 vezes — de 792 vítimas anuais para 13.521.
O IPEA aponta que as motocicletas já respondem por quase 40% de todas as mortes no trânsito terrestre. Com isso, ameaçam diretamente o cumprimento das metas brasileiras de redução da sinistralidade, previstas tanto em compromissos internacionais quanto nas próprias estratégias nacionais de segurança viária.
O perfil das vítimas e o impacto no SUS
A Nota Técnica mostra que a tragédia tem rosto, cor, idade e classe social. As vítimas são majoritariamente:
- homens (89% das mortes);
- jovens entre 20 e 29 anos;
- pessoas pardas;
- trabalhadores de baixa escolaridade e renda.
Ou seja: o país perde seus cidadãos em plena idade produtiva, com impactos profundos sobre famílias e comunidades.
O estudo também revela que o SUS opera sob pressão crescente. As internações de motociclistas aumentaram 11 vezes nas últimas duas décadas e hoje representam 60% de todas as hospitalizações por sinistros de trânsito, a um custo anual superior a R$ 273 milhões.
Esses gastos, ressalta o IPEA, são apenas a ponta do iceberg — não incluem sequelas permanentes, afastamentos do trabalho ou o impacto social prolongado.
Mototáxi: solução de mobilidade ou agravamento da crise?
Com metade dos municípios do país registrando algum grau de operação de mototáxi (dados de 2020), o debate sobre regulamentar ou não o serviço tem ganhado força, impulsionado, sobretudo, por pressões econômicas e pela expansão dos aplicativos digitais.
Mas a Nota Técnica nº 57 é taxativa: a motocicleta é um veículo intrinsecamente inseguro para transporte remunerado de passageiros e a regulamentação ampla do mototáxi tende a agravar a crise de mortalidade e desorganizar os sistemas de mobilidade urbana.
Os principais riscos apontados pelo IPEA incluem:
- Insegurança estrutural da motocicleta, sem proteção física contra impactos.
- Complexidade do equilíbrio com dois ocupantes, especialmente em curvas.
- Ausência de treinamento específico para passageiros, que podem desestabilizar o veículo.
- Equipamentos inadequados, já que passageiros raramente têm vestimenta de proteção.
- Compartilhamento de capacetes, que não se ajustam ao tamanho de cabeça do passageiro e ampliam riscos.
- Pressão dos aplicativos, que reduz a supervisão pública e incentiva condutas perigosas.
Além disso, cidades que liberam o mototáxi tendem a ver uma migração de passageiros do transporte público coletivo para o serviço mais rápido, porém mais inseguro. Isso compromete financeiramente os sistemas de ônibus, reduz oferta, aumenta tarifas e agrava a desigualdade.
A recomendação do IPEA: não regulamentar — salvo exceções muito específicas
A Nota Técnica conclui que a regulamentação generalizada do mototáxi é contraindicada como política pública. A motocicleta, segundo o IPEA, deve continuar sendo vista como um modal individual e de uso particular, não como veículo apropriado para atividades comerciais de transporte de pessoas.
A única brecha possível, segundo o órgão, seria permitir o serviço apenas em regiões isoladas, como comunidades em morros, favelas ou áreas rurais sem acesso a outros modais. Mesmo nesses casos, a operação deveria ser limitada geograficamente, supervisionada pelo poder público e tratada como solução complementar, não como política urbana central.
O que está em jogo para as cidades brasileiras
Para o IPEA, a expansão do mototáxi não é apenas um tema de mobilidade — é uma questão de saúde pública e de risco social massivo. Manter ou ampliar o serviço sem considerar sua letalidade estrutural representa, segundo o estudo, abrir mão de qualquer chance de reduzir as mortes no trânsito em médio prazo.
A Nota Técnica reforça que a saída passa por:
- investir em transporte público coletivo confiável e acessível;
- melhorar a formação de motociclistas;
- intensificar fiscalização de velocidade, capacete e CNH;
- criar fontes estáveis de financiamento, como um seguro obrigatório reestruturado para custear os impactos no SUS;
- oferecer alternativas seguras, como táxis e aplicativos em automóveis, especialmente para viagens curtas.
Em um cenário de epidemia silenciosa que ceifa milhares de vidas por ano, o país precisa decidir se o caminho da mobilidade será guiado pela urgência econômica ou pela preservação da vida. A Nota Técnica nº 57 deixa claro: ignorar esse dilema só reforçará uma crise já fora de controle.
