05 de outubro de 2026

9 em cada 10 mulheres entendem que mobilidade e segurança determinam oportunidades de trabalho, estudo e lazer

Pesquisa "O Direito de Ir, Vir e Viver" aponta que 89% das brasileiras relacionam mobilidade às oportunidades que conseguem acessar e revela como segurança, tempo, custo e território condicionam as escolhas do dia a dia.


Por Assessoria de Imprensa Publicado 05/10/2026 às 17h30
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Verônica Dudiman Indique – O Direito de Ir, Vir e Viver. Foto: Divulgação 99

Trabalhar, estudar, encontrar amigos ou simplesmente sair à noite depende, para muitas mulheres, de uma decisão anterior: é possível chegar e voltar? Para 89% das brasileiras ouvidas pela pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, a mobilidade influencia diretamente as oportunidades que conseguem acessar.

Realizado pela Indique, consultoria especializada em diversidade e inclusão racial, em parceria com Think Eva e 99, o estudo ouviu 564 mulheres de diferentes idades, classes sociais e regiões do país e aprofundou os resultados em uma etapa qualitativa com outras 49 participantes. A pesquisa mostra que a liberdade de circular pelas cidades é atravessada por quatro fatores principais: segurança, tempo, custo e território, e que as mulheres fazem escolhas e concessões entre elas todos os dias.

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Os efeitos aparecem no trabalho, na educação e na vida pessoal. 54% das entrevistadas afirmaram já ter evitado ou recusado um compromisso de trabalho por causa do deslocamento, enquanto 39% recusaram um emprego ou oportunidade e 21% desistiram de um curso ou faculdade por dificuldades no ir e vir. Fora da rotina profissional, 80% já deixaram de participar de compromissos, eventos ou atividades pelo mesmo motivo – entre elas, 69% deixaram de sair à noite, 33% evitaram atividade física ou lazer e 32% deixaram de visitar familiares ou amigos.

“Construir esse estudo me fez compreender a pluralidade do Brasil a partir da perspectiva dos deslocamentos. Ao escutar o relato de quase cinquenta mulheres de todas as partes do país, percebemos o quanto as necessidades de mobilidade mudam de uma região para outra e são atravessadas por inúmeros fatores, desigualdades raciais, sociais e territoriais, especialmente nas periferias e extremidades regionais. Pensar e construir estratégias de mobilidade é compreender que não existe uma solução única para todos, mas que investir em cidades mais acessíveis, seguras e conectadas beneficia toda a população, seja quem se desloca de carro, ônibus, bicicleta ou a pé. Quando ampliamos as possibilidades de circulação para todos, ampliamos também o acesso ao trabalho, à educação, ao lazer e, sobretudo, o direito de viver plenamente a cidade”, afirma Verônica Dudiman, cofundadora da Indique.

“Poder se locomover pela cidade onde vivem deveria ser um direito básico das mulheres, mas, infelizmente, ainda não é. Além de criarem mapas mentais e estratégias próprias para se proteger dos riscos, elas precisam estar constantemente pensando em como reagir a diferentes situações. Esta pesquisa reforça a sobrecarga e, mais do que isso, mostra que, além dos impactos físicos e mentais, as mulheres estão perdendo oportunidades de emprego, estudo e lazer. No limite, é um tempo de vida que não volta mais”, explica Maíra Liguori, diretora da consultoria Think Eva.

Segurança muda horários, rotas e destinos

A pesquisa mostra, porém, que a segurança não pode ser analisada isoladamente. Para se deslocar, as mulheres negociam continuamente tempo, custo, segurança e conforto. Dependendo da renda, do território, do horário, da companhia e da finalidade da viagem, uma variável pode precisar ser sacrificada para que outra seja atendida.

Entre os fatores que limitam a liberdade de ir e vir, a insegurança ou violência  é citada por 32% das mulheres, à frente da falta de dinheiro (22%), da falta de transporte público de qualidade (15%) e da distância dos lugares onde precisam ir (14%).

“Passei para a UFRJ no vestibular, mas não fui cursar porque não tinha como chegar às 7h. Já tinha sido assaltada várias vezes no ônibus, então só andava de metrô. No fim, a gente vai fazendo escolhas”, conta uma participante do Rio de Janeiro.

O relato ajuda a traduzir o que os números mostram: quando a locomoção  funciona, ela abre possibilidades de trabalho, estudo, lazer, relações, cultura e autonomia. Quando não funciona, essas possibilidades diminuem.

Essa percepção se transforma em comportamento: 87% evitam certos bairros ou regiões da cidade por questões de segurança, 73% planejam os horários de saída em função da própria segurança, 63% já evitaram algum meio de transporte por insegurança e 60% mudaram de rota pelo mesmo motivo.

O assédio também atravessa a experiência de circulação: 89% relatam ter sofrido assédio em pelo menos um modal. Os maiores índices aparecem no ônibus (68,8%), nos deslocamentos a pé (60,8%) e no metrô ou trem (50,2%). No carro por aplicativo, o percentual registrado é de 39,5%; na bicicleta, 6,6%; e na moto por aplicativo, 4,1%.

Uma “inteligência urbana” para conseguir circular

Essa negociação constante faz com que as mulheres desenvolvam estratégias próprias para circular. O estudo chama esse comportamento de “inteligência urbana”: antes e durante de sair de um lugar para outro , elas calculam horário, trajeto, iluminação, fluxo de pessoas, distância, modal, custo, possibilidade de assédio ou assalto, onde sentar, onde descer e quanto vale pagar a mais para chegar ao destino. “Gasto muita energia me preparando para uma situação que talvez nem aconteça – por exemplo, no ônibus eu fico pensando muito onde vou sentar. É como se eu arquitetasse os cenários para me sentir mais confortável e, se alguma coisa acontecer, conseguir fazer algo para sair daquela situação”, explica uma entrevistada de Recife.

Renda e território ampliam ou diminuem as possibilidades

As barreiras também não são iguais para todas. A pesquisa aponta que 68% das entrevistadas não possuem veículo próprio e 52% passam mais de uma hora por dia em deslocamento; ao mesmo tempo, 45% dizem que a mobilidade onde vivem é pior do que no centro da cidade e 33% avaliam o transporte público do bairro como ruim ou péssimo.

A renda também interfere diretamente nas opções disponíveis. 80,3% das mulheres de baixa renda usam ônibus regularmente, contra 52,1% entre as de alta renda. O carro próprio, por outro lado, é usado regularmente por 40,6% destas, contra apenas 8,3% das mulheres de baixa renda.

Periferias e áreas afastadas enfrentam menor oferta e frequência de transporte e infraestrutura mais precária. 67% das entrevistadas já pagaram mais caro em aplicativos por falta de opções no bairro.

Para quem cuida, a mobilidade ganha novas camadas

As responsabilidades de cuidado tornam os deslocamentos ainda mais complexos. 54% das entrevistadas afirmam que o trabalho de cuidado recai sobre elas, enquanto 38% dizem dividi-lo com outras pessoas. Além disso, 43% planejam sozinhas trajetos relacionados ao cuidado, como escola, saúde e compras, e 44% mudam o modal escolhido no cotidiano em função dessas responsabilidades: 53% pedem carro por aplicativo para levar dependentes, incluindo filhos, idosos e pessoas com deficiência.

Essas jornadas ajudam a explicar por que a mobilidade feminina nem sempre segue a lógica simples de um trajeto linear da casa ao trabalho e de volta. Escola, farmácia, mercado, consulta médica e trabalho podem fazer parte de um mesmo percurso.

Aplicativos ampliam possibilidades dentro de uma jornada multimodal

Entre o leque de opções disponíveis, 80% das entrevistadas dizem usar carro por aplicativo regularmente. Entre as razões que ajudam a explicar esse uso, 53% dizem recorrer aos aplicativos porque não confiam no transporte público à noite e 59% afirmam se sentir mais livres quando têm acesso a aplicativos de transporte.

“Para as  mulheres, mobilidade vai muito além de comparar o preço de uma corrida por aplicativo com uma passagem de ônibus, por exemplo. Entram nesse cálculo duas ou três conduções, baldeações, tempo de espera, cansaço e até quantas pessoas estão fazendo aquele trajeto. É nesse contexto que os aplicativos de transporte podem ser agentes na economia  de  tempo,  e complementando  o transporte público ao  ajudar a resolver o último trecho da viagem. O que a pesquisa mostra é que precisamos analisar  a mobilidade como um sistema, em que diferentes soluções se complementam para ampliar as possibilidades de escolha das mulheres”, afirma Rayane Lima, gerente sênior de Políticas de Segurança da 99.

Sobre “O Direito de Ir, Vir e Viver”

A pesquisa reúne levantamento quantitativo, grupos de aprofundamento e entrevistas com especialistas. A etapa quantitativa foi realizada entre 8 de junho e 9 de julho de 2026, com 564 mulheres entre 18 e 60 anos, de diferentes classes sociais, com foco em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém, além de outras 73 cidades brasileiras.

A etapa qualitativa ouviu 49 mulheres de diferentes perfis durante agosto de 2026. O estudo também contou com entrevistas com especialistas ligadas a temas como planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade feminina, desigualdades territoriais, periferias e mobilidade ativa.

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