Poluição do trânsito pode causar 47% mais mortes no Brasil até 2050
Relatório do ICCT aponta que a combinação entre envelhecimento da população e crescimento da frota pode aumentar as mortes prematuras relacionadas à poluição do transporte rodoviário, mas indica que a eletrificação acelerada pode reverter esse cenário.

O envelhecimento da população brasileira, aliado ao crescimento da frota de veículos, pode ampliar significativamente os impactos da poluição do ar na saúde pública nas próximas décadas. Um estudo inédito do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) projeta que, sem mudanças mais rápidas na composição da frota, o número de mortes prematuras relacionadas à poluição gerada pelo transporte rodoviário deverá aumentar 47% no Brasil até 2050.
Conforme o relatório Health Benefits of Zero-Emission Transport Through 2050, o avanço da expectativa de vida faz com que uma parcela maior da população fique mais vulnerável aos efeitos da exposição contínua aos poluentes emitidos pelos veículos, especialmente aqueles movidos a combustíveis fósseis.
Os pesquisadores defendem que acelerar a adoção de veículos de emissão zero pode reduzir esse impacto e evitar milhares de mortes nas próximas décadas.
População mais idosa aumenta a vulnerabilidade aos poluentes
De acordo com Jonathan Benoit, desenvolvedor de modelos do ICCT e coautor do estudo, o envelhecimento populacional é um fator decisivo para o crescimento das mortes associadas à poluição do ar.
“À medida que a população envelhece, ela se torna biologicamente mais suscetível a mortes prematuras causadas pela poluição do ar. A combinação do crescimento populacional, do envelhecimento e do aumento no uso de veículos — especialmente em regiões com normas menos rigorosas — explica por que projetamos um aumento na mortalidade mesmo com reduções modestas em algumas emissões. O ganho de uma frota gradualmente mais limpa acaba sendo engolido pelo aumento do número de veículos rodando e pela maior vulnerabilidade da população”, argumenta.
O estudo aponta ainda que, atualmente, a poluição provocada pelo transporte rodoviário é responsável por uma morte a cada 45 segundos no mundo e por um novo caso de asma infantil a cada dois minutos.
Brasil registra milhares de mortes relacionadas à poluição do trânsito
Segundo o levantamento, o transporte rodoviário foi responsável por cerca de 8 mil mortes prematuras no Brasil em 2024, colocando o país na 17ª posição no ranking mundial de óbitos atribuídos a essa fonte de poluição.
Além disso, o Brasil ocupou o 10º lugar no mundo em novos casos de asma pediátrica relacionados às emissões do trânsito, com aproximadamente 9.200 diagnósticos registrados entre crianças e adolescentes em um único ano.
Os pesquisadores destacam que a exposição contínua a poluentes como material particulado fino, dióxido de nitrogênio e ozônio está associada ao surgimento e agravamento de diversas doenças.
Entre elas estão:
- acidente vascular cerebral (AVC);
- infarto do miocárdio;
- doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC);
- câncer de pulmão;
- diabetes tipo 2;
- infecções respiratórias graves em adultos;
- asma em crianças.
País avançou, mas ritmo ainda é considerado insuficiente
O estudo reconhece que o Brasil vem adotando medidas para reduzir as emissões veiculares. Entre elas estão as fases P-8 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (PROCONVE), voltada aos veículos pesados, e L-8, aplicada aos veículos leves.
O relatório também destaca que, no segundo trimestre de 2026, os veículos leves eletrificados representaram 15% das vendas nacionais, sendo 8% de modelos totalmente elétricos e 7% de híbridos plug-in.
Apesar desse avanço, os pesquisadores avaliam que a velocidade da transição ainda não é suficiente para compensar o crescimento da frota.
No transporte de cargas, por exemplo, os caminhões de emissão zero representam menos de 0,5% das vendas.
Para André Cieplinski, pesquisador sênior do ICCT, serão necessárias medidas adicionais para acelerar essa mudança.
“Apesar da recente aceleração nas vendas de veículos elétricos leves, o Brasil ainda não está alinhado ao cenário necessário para cortar mortes prematuras. As novas metas do programa MOVER oferecem incentivos pontuais, como a redução de 2% no IPI em relação aos veículos flex, mas não são suficientemente ambiciosas para impulsionar a migração em massa. Serão necessários incentivos adicionais e uma redução nos custos dos veículos de zero emissão para que o país alcance uma virada real na saúde pública”, diz.
Cenário mais ambicioso pode evitar mais de 65 mil mortes
O relatório comparou dois cenários para as próximas décadas: a manutenção das políticas atuais e uma transição acelerada para veículos de emissão zero.
Nesse cenário considerado mais ambicioso, o Brasil deveria atingir 61% das vendas de veículos leves elétricos até 2035 e 100% até 2045. Para os veículos pesados, a meta seria alcançar 54% das vendas até 2035 e também 100% até 2045.
Segundo os pesquisadores, apenas essa trajetória permitiria reverter o aumento das mortes relacionadas à poluição veicular.
A estimativa é que esse cenário resulte em uma redução de 35% nas mortes prematuras anuais até 2050. Entre 2024 e 2050, aproximadamente 65.200 mortes prematuras e 18.600 novos casos de asma infantil poderiam ser evitados no Brasil.
Jonathan Benoit ressalta que o crescimento da frota torna essa transição ainda mais necessária. “Para reverter a tendência de aumento nos óbitos, o ritmo de incorporação de novos veículos de emissão zero à frota precisa mais do que compensar o aumento da frota a combustão decorrente do crescimento das vendas. Projetamos que a frota total de veículos cresça cerca de 30% no Brasil até 2050. Se não acelerarmos a entrada de modelos limpos, o aumento de veículos em circulação continuará ampliando o impacto na saúde da população, conclui.
Especialistas defendem ações complementares
Além da eletrificação da frota, o ICCT aponta outras medidas capazes de reduzir a poluição causada pelo transporte rodoviário.
Entre elas estão programas de renovação da frota antiga, implantação de Zonas de Baixa Emissão (LEZs) em áreas urbanas e fiscalização mais rigorosa das emissões em condições reais de circulação.
Segundo o relatório, testes realizados na Região Metropolitana de São Paulo pela iniciativa TRUE mostraram que veículos em circulação frequentemente ultrapassam os limites previstos pelo PROCONVE, inclusive caminhões novos certificados na fase P8.
Para Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil, a eletrificação representa um caminho importante para reduzir os impactos da poluição na saúde.
“O Brasil começa a dar sinais positivos em direção à eletrificação, e iniciativas como o TRUE demonstram o quanto essa tecnologia é necessária. Quando observamos os poluentes locais e seus impactos diretos na saúde humana, os benefícios de acelerar essa transição tornam-se incontestáveis”.
O estudo também chama atenção para o cenário mundial. Sem novas medidas, as mortes prematuras causadas pela poluição do transporte rodoviário poderão crescer 74% até 2050, chegando a 1,2 milhão de vítimas por ano. Segundo Josh Miller, diretor sênior do ICCT e coautor da pesquisa, uma transição mais rápida para veículos de emissão zero pode evitar quase 9 milhões de mortes prematuras em todo o mundo até meados do século.
