Recarga de veículos elétricos: os riscos para crianças que muitos pais desconhecem
Cabos expostos, carregadores inadequados e instalações improvisadas podem provocar choques e incêndios; especialista explica como proteger crianças e outros moradores.

A presença de carros elétricos, bicicletas elétricas e patinetes nas residências brasileiras traz uma preocupação que nem sempre recebe a atenção necessária: a segurança das crianças durante a recarga desses equipamentos. Cabos espalhados, tomadas desprotegidas, instalações improvisadas e baterias carregadas em locais inadequados podem aumentar os riscos de choques elétricos e incêndios.
O alerta é do engenheiro eletricista Jones Poffo, CEO da P3 Engenharia, que chama a atenção principalmente para os veículos elétricos menores, como bicicletas e patinetes. Conforme ele, embora os carros elétricos também exijam cuidados, os improvisos são mais frequentes na recarga dos equipamentos de micromobilidade.
“Na minha visão, é nesses veículos menores que está hoje o maior risco, justamente pelo improviso na recarga”, afirma.
A preocupação é ainda maior quando há crianças em casa. Garagens residenciais e de condomínios, muitas vezes utilizadas como espaços de circulação e brincadeiras, podem reunir instalações elétricas, equipamentos de recarga e situações de risco.
Os perigos que podem passar despercebidos na garagem
De acordo com Poffo, a garagem costuma ser um dos ambientes menos observados quando o assunto é segurança elétrica doméstica.
Tomadas baixas sem proteção, quadros de energia destrancados, caixas de passagem abertas, extensões espalhadas pelo chão e luminárias com fiação exposta estão entre os problemas mais comuns.
A presença de umidade também merece atenção. Água da chuva, infiltrações ou pisos molhados podem agravar as consequências de um contato acidental com componentes energizados.
Outro fator é a ausência do dispositivo diferencial residual, conhecido como DR, que interrompe o fornecimento de energia ao identificar determinadas fugas de corrente elétrica, reduzindo o risco de choques graves.
Para o especialista, a combinação desses fatores com a presença de crianças exige medidas preventivas, principalmente porque muitas delas já utilizam bicicletas e patinetes elétricos.
Por que patinetes e bicicletas elétricas exigem atenção especial?
Embora a instalação de carregadores para carros elétricos costume envolver equipamentos específicos e profissionais habilitados, a recarga de patinetes e bicicletas elétricas frequentemente acontece em tomadas domésticas.
O problema surge quando são utilizados carregadores incompatíveis, extensões, adaptadores ou equipamentos de procedência duvidosa.
Poffo explica que os sistemas de recarga dos carros elétricos normalmente possuem mecanismos de comunicação entre o veículo e o carregador, que ajudam a impedir a energização do conector antes de uma conexão adequada.
Nos equipamentos menores, os sistemas de proteção podem ser diferentes. Além do risco de choque na instalação ou em componentes danificados, existe a preocupação com o superaquecimento das baterias.
“E nesses veículos o maior perigo nem é o choque, é o incêndio. Uma bateria de lítio danificada ou carregada de forma errada pode superaquecer e pegar fogo muito rápido, liberando fumaça tóxica”, alerta.
O engenheiro orienta que a recarga seja realizada em locais ventilados, afastados de materiais inflamáveis e de rotas de saída. Também recomenda não deixar os equipamentos carregando durante toda a noite ou quando não houver ninguém em casa.
Baterias que sofreram quedas, apresentam inchaço, aquecimento anormal ou tiveram contato com água devem passar por avaliação técnica antes de uma nova recarga.
Crianças podem levar choque ao tocar no carregador de um carro elétrico?
Em condições normais, os carregadores de parede de qualidade, corretamente instalados, contam com sistemas de segurança que reduzem significativamente a possibilidade de choque elétrico.
Entretanto, isso não significa que crianças possam manipular os equipamentos.
Segundo Poffo, os riscos aumentam quando existem cabos com isolamento danificado, conectores comprometidos, instalações sem aterramento adequado, ausência de dispositivos de proteção ou contato com água.
Nos carregadores de bicicletas e patinetes, também é necessário observar o estado dos fios, das tomadas e da fonte de alimentação.
A recomendação é manter carregadores e conectores fora do alcance das crianças, recolher os cabos após o uso e orientar que somente adultos realizem a recarga.
Instalação de carregadores em condomínios tem regras específicas
A instalação de pontos de recarga de veículos elétricos exige cuidados técnicos que vão além da escolha do equipamento.
Entre as referências estão a ABNT NBR 5410, sobre instalações elétricas de baixa tensão, e a ABNT NBR 17019:2022, que estabelece requisitos específicos para a alimentação de veículos elétricos.
Essas normas tratam de aspectos como dimensionamento dos circuitos, aterramento e dispositivos de proteção. A escolha do DR, por exemplo, deve considerar as características do sistema de recarga, inclusive a possibilidade de correntes residuais contínuas.
Também existem exigências estaduais relacionadas à prevenção de incêndios.
Em Santa Catarina, a Instrução Normativa nº 23 do Corpo de Bombeiros Militar entrou em vigor em 25 de junho de 2026, estabelecendo critérios de segurança para pontos de recarga em edificações.
Já em São Paulo, a Instrução Técnica nº 41 foi atualizada em 2026 para incluir requisitos específicos de segurança para sistemas de alimentação de veículos elétricos.
Por isso, antes de instalar um carregador, moradores e síndicos devem consultar profissionais habilitados e verificar as exigências aplicáveis ao imóvel e à localidade.
Os erros mais comuns na recarga de veículos elétricos
De acordo com o especialista, o principal problema é o improviso, tanto em residências quanto em condomínios.
Entre as práticas que se deve evitar estão:
- Ligar vários equipamentos em uma mesma extensão ou adaptador.
- Utilizar carregadores incompatíveis ou sem procedência confiável.
- Recarregar baterias próximas de botijões de gás ou materiais inflamáveis.
- Deixar bicicletas e patinetes carregando em corredores, halls e rotas de fuga.
- Manter equipamentos conectados durante toda a noite sem supervisão.
- Instalar carregadores de automóveis sem avaliação da capacidade elétrica e das proteções necessárias.
- Deixar cabos atravessando locais de circulação ou ao alcance de crianças.
Outro cuidado importante é a manutenção preventiva.
Mesmo instalações inicialmente adequadas podem apresentar desgaste com o passar dos anos. Tomadas frouxas, cabos danificados e dispositivos de proteção defeituosos devem ser avaliados por profissionais qualificados.
Como proteger crianças e outros moradores?
Para reduzir os riscos, Poffo recomenda que as famílias adotem medidas simples no cotidiano e procurem assistência técnica sempre que necessário.
Nos carros elétricos, a instalação do carregador deve ser realizada por profissional habilitado, com projeto e responsabilidade técnica compatíveis com o serviço.
Já para bicicletas, patinetes e motos elétricas, a orientação é utilizar carregadores originais ou certificados e compatíveis com o equipamento, respeitando as instruções do fabricante.
Também é importante manter quadros elétricos fechados, proteger tomadas acessíveis às crianças, recolher cabos após o uso e verificar periodicamente o funcionamento dos dispositivos de segurança, conforme as instruções do fabricante.
Nos condomínios, moradores devem respeitar as regras internas e as exigências dos órgãos responsáveis pela segurança contra incêndios.
O especialista destaca, ainda, a importância de conversar com as crianças sobre os perigos da eletricidade, especialmente quando elas próprias utilizam equipamentos elétricos de mobilidade.
“A mobilidade elétrica é segura e veio para ficar. O que coloca as famílias em risco é o improviso, e ele está muito mais presente na tomada do patinete do que no carregador do carro”, conclui.
A expansão da mobilidade elétrica precisa vir acompanhada de informação, instalações adequadas e hábitos seguros. Afinal, prevenir acidentes também faz parte de uma mobilidade comprometida com a preservação da vida.
