10 de outubro de 2026

Da internet ao caminho da escola: proteger crianças também passa pela segurança no trânsito

Pesquisa mostra forte preocupação dos brasileiros com a segurança de crianças e adolescentes; nos deslocamentos, comportamento dos adultos também participa da construção de hábitos seguros.


Por Assessoria de Imprensa Publicado 09/10/2026 às 17h30
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crianças segurança
A proteção muda de forma conforme crianças e adolescentes crescem. Foto: pixelheadphoto para Depositphotos

Proteger crianças e adolescentes tornou-se uma tarefa que atravessa diferentes espaços da vida cotidiana. Dentro de casa, famílias precisam lidar com os riscos da internet e das redes sociais. Fora dela, à medida que os filhos conquistam autonomia, surgem outros desafios: atravessar ruas, caminhar até a escola, andar de bicicleta, utilizar o transporte coletivo e, mais tarde, realizar deslocamentos sem a companhia de um adulto.

Uma pesquisa realizada pelo Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável em parceria com a Quaest mostra o tamanho da preocupação dos brasileiros com a segurança das novas gerações. Para 89% dos entrevistados, crianças e adolescentes estão muito vulneráveis a crimes e violências na internet.

O levantamento não investigou especificamente a segurança no trânsito. Ainda assim, seus resultados ajudam a levantar uma discussão importante: se proteger crianças exige acompanhamento no ambiente digital, a construção de autonomia para circular pelas cidades também precisa ser acompanhada de orientação, aprendizado e exemplo.

Isso porque a educação para um deslocamento seguro não começa apenas quando o adolescente se aproxima da idade de dirigir. Ela se desenvolve muito antes, nas experiências cotidianas como pedestre, passageiro e ciclista.

Preocupação com a segurança começa cada vez mais cedo

A pesquisa ouviu presencialmente 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais, em 128 municípios, entre 29 de maio e 7 de junho de 2026. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Além dos 89% que consideram crianças e adolescentes muito vulneráveis às violências na internet, 96% dos entrevistados acreditam que pais ou responsáveis deveriam supervisionar o conteúdo acessado por esse público.

Na prática, o acompanhamento diminui conforme a idade avança. Entre crianças de zero a cinco anos que utilizam a internet, 94% têm o uso acompanhado. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, o percentual cai para 68%.

O resultado trata especificamente do ambiente digital, mas coincide com uma fase da vida em que muitos adolescentes também passam a realizar mais atividades e deslocamentos sem acompanhamento direto.

Isso torna relevante pensar a segurança de maneira mais ampla: a supervisão pode diminuir à medida que a autonomia cresce, mas a preparação para reconhecer situações de risco continua necessária.

Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, destaca que os resultados mostram a preocupação da população com essa preparação no universo digital.

“A pesquisa traz à luz a grande preocupação que os brasileiros têm em relação ao uso da internet por crianças e adolescentes, e aponta quais caminhos a população acredita que podem reduzir a vulnerabilidade dos jovens, como bloqueio de conteúdos perigosos e maior orientação para o uso seguro”, afirma.

No trânsito, a lógica da orientação também é fundamental: progressivamente, crianças e adolescentes precisam aprender a tomar decisões seguras sem depender permanentemente de um adulto ao lado.

Segurança da criança não termina no portão da escola

Outro resultado chama a atenção. Segundo o levantamento, 73% dos brasileiros consideram as escolas pouco ou nada seguras para crianças e adolescentes, enquanto 26% as consideram seguras.
É preciso fazer uma ressalva importante: o dado não se refere à segurança no trânsito nem ao entorno das escolas.

Entre os entrevistados que consideram as instituições pouco ou nada seguras, 70% apontam como motivo a violência entre os próprios alunos, 8% mencionam a violência praticada por professores ou outros profissionais e 18% citam as duas situações.

A pesquisa, portanto, não permite concluir que o trânsito seja responsável pela percepção de insegurança escolar.

A discussão sobre proteção, entretanto, pode ser ampliada para além dos limites físicos da instituição. A rotina escolar envolve diariamente deslocamentos a pé, de bicicleta, motocicleta, carro, van, ônibus e outros meios.

Nesse contexto, a segurança também passa pela maneira como crianças embarcam e desembarcam, atravessam ruas e aprendem a interpretar o ambiente viário.

Crianças aprendem trânsito observando os adultos

Há ainda um elemento fundamental quando se fala em educação para o trânsito: o comportamento observado dentro da própria família.

Antes mesmo de compreender as regras formais, a criança acompanha a maneira como os adultos se comportam.

Quando o responsável utiliza o cinto de segurança, transporta a criança no dispositivo adequado, aguarda uma condição segura para atravessar ou evita utilizar o celular enquanto dirige, essas práticas passam a fazer parte das referências cotidianas daquele passageiro ou pedestre em formação.

O contrário também ocorre. Atravessar de maneira arriscada, parar em local inadequado no entorno da escola ou utilizar o telefone enquanto conduz são comportamentos que podem ser observados e posteriormente reproduzidos.

Por isso, a educação para o trânsito não precisa esperar a adolescência ou o início do processo de habilitação. Ela começa nas primeiras experiências da criança com a rua e com os diferentes meios de transporte.

Autonomia exige preparação gradual

Conforme crianças e adolescentes crescem, é natural que aumente também a autonomia nos deslocamentos.

O trajeto que inicialmente é feito de mãos dadas com um adulto pode, em determinado momento, passar a ser realizado sozinho. O adolescente pode começar a utilizar ônibus sem acompanhamento, caminhar até atividades próximas ou pedalar por distâncias maiores.

A preparação para essa autonomia envolve ensinar a observar o ambiente, reconhecer locais apropriados para atravessar e compreender que diferentes situações exigem níveis diferentes de atenção.

Também significa evitar transmitir a ideia de que conhecer um caminho é suficiente para torná-lo automaticamente seguro. Condições de circulação podem mudar, assim como o fluxo de veículos e de pessoas.

A orientação precisa ser compatível com a idade e com a maturidade da criança ou adolescente, considerando as características concretas de cada deslocamento.

Celular conecta os dois universos

O smartphone é um ponto de encontro entre a preocupação retratada pela pesquisa e a segurança durante os deslocamentos.

O estudo mostra que 33% dos entrevistados conhecem alguma criança ou adolescente que já foi humilhado, xingado ou sofreu bullying ou constrangimento social na internet. Outros 25% conhecem alguém que recebeu mensagens de conteúdo sexual, enquanto 20% relatam conhecer crianças ou adolescentes que receberam convites para encontros presenciais com desconhecidos.
São dados relacionados aos riscos digitais, não ao trânsito.

Durante os deslocamentos, entretanto, o uso do aparelho acrescenta uma questão diferente: a necessidade de manter atenção ao ambiente. Para pedestres e ciclistas, perceber veículos, movimentos e mudanças ao redor é parte importante de uma circulação segura.

Assim, ensinar a usar a tecnologia com responsabilidade também pode incluir conversar sobre quando é necessário guardar o aparelho e concentrar a atenção no deslocamento.

Proteção envolve diferentes espaços da vida

Para Márcia Kalvon, diretora-executiva do Infinis, os resultados mostram a necessidade de uma atenção específica à infância e à adolescência diante das transformações provocadas pela exposição às telas.

“Os dados mostram que os riscos no ambiente digital são percebidos pela população e também aparecem em situações concretas vivenciadas por crianças e adolescentes. Nesse sentido, a sanção do ECA Digital representa um avanço importante diante dos desafios trazidos pela exposição cada vez mais precoce e intensa às telas e redes sociais. A infância e adolescência merece atenção especial, por ser um período de profundas transformações físicas, emocionais e identitárias e ainda pouco priorizado nas políticas públicas. Garantir um ambiente digital mais seguro nessa fase é fundamental não apenas para a saúde e o desenvolvimento das novas gerações, mas também para sua futura participação social e cidadania”, afirma.

A pesquisa mostra uma sociedade preocupada com os riscos que crianças e adolescentes encontram em diferentes ambientes. No trânsito, essa proteção ganha características próprias e acompanha uma transformação inevitável: quanto mais os filhos crescem, menos os responsáveis poderão tomar todas as decisões por eles.

Prepará-los para circular com segurança significa, portanto, mais do que ensinar regras. Envolve construir hábitos desde cedo, conversar sobre riscos, permitir autonomia de maneira gradual e, principalmente, lembrar que o comportamento dos adultos também ensina.

Da internet ao caminho da escola, a proteção muda de forma conforme crianças e adolescentes crescem. O objetivo, porém, permanece o mesmo: oferecer condições para que adquiram autonomia sem deixar a segurança em segundo plano.

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