Faixa azul para motos: nova estratégia para organizar o tráfego urbano
Iniciativa em expansão no país busca disciplinar a circulação de motocicletas e reduzir conflitos entre veículos. Especialistas destacam a importância de associar o projeto à educação e fiscalização.

A circulação de motocicletas nas cidades brasileiras cresce de forma acelerada, impulsionada pelo aumento das entregas e pelo uso do veículo como meio de transporte diário. Nesse cenário, surge uma nova proposta de engenharia viária: a faixa azul, um espaço pintado no asfalto que orienta o deslocamento preferencial das motos entre as faixas de rolamento.
Criada inicialmente pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo em 2022, a iniciativa busca organizar o fluxo de motocicletas e aumentar a previsibilidade entre os condutores, reduzindo o risco de colisões laterais.
O projeto já despertou o interesse de várias capitais, como Fortaleza, Belo Horizonte e Curitiba, que receberam autorização da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) para desenvolver experiências locais.
Como funciona a faixa azul
A faixa azul é uma delimitação preferencial, e não exclusiva, para o tráfego de motocicletas. Normalmente, é posicionada entre as faixas da esquerda e do meio e tem largura entre 1,10 m e 1,20 m, conforme o limite de velocidade da via.
A ideia é que o motociclista a utilize principalmente em situações de lentidão ou congestionamento, quando o deslocamento entre veículos se torna mais previsível e seguro.
Segundo os princípios adotados no projeto, a iniciativa segue conceitos internacionais de segurança viária, como o Sistema Seguro, que reconhece a possibilidade de erros humanos e busca projetar o trânsito de modo a evitar que esses erros resultem em lesões graves ou mortes.
Resultados e percepções iniciais
Os primeiros testes indicaram redução em alguns índices de sinistros em determinadas avenidas de São Paulo, mas os órgãos técnicos alertam que ainda é cedo para conclusões definitivas.
A Senatran acompanha os resultados das cidades-piloto assim como deve avaliar os dados até 2026, antes de considerar a expansão em larga escala.
Em Fortaleza, por exemplo, a aplicação do modelo ocorrerá em quatro avenidas de grande fluxo e monitorado quanto ao comportamento dos condutores, à velocidade média e à quantidade de ocorrências registradas.
A importância da educação e da fiscalização
Para especialistas em trânsito, não se deve ver a faixa azul como solução isolada, mas como parte de um conjunto de medidas integradas.
O educador e especialista em segurança viária Celso Mariano, diretor do Portal do Trânsito e do grupo Tecnodata, lembra que “infraestrutura é apenas um dos pilares do sistema seguro — o comportamento dos condutores é o que determina o verdadeiro impacto de qualquer intervenção”.
Segundo Mariano, a faixa azul pode contribuir para a organização e convivência mais harmônica entre veículos, desde que tenha acompanhamento de educação contínua, fiscalização adequada e comunicação clara sobre seu uso.
“O sucesso da medida depende de como ela será compreendida e utilizada no dia a dia”, reforça o especialista.
Adaptação local e próximos passos
A Senatran incentiva que cada município adapte o projeto à sua realidade — considerando volume de motos, tipo de via, comportamento dos condutores e capacidade de fiscalização.
Com o crescimento da frota de motocicletas em todo o país, o desafio das gestões públicas é equilibrar mobilidade, segurança e sustentabilidade urbana.
A expectativa é de que as experiências em andamento sirvam como base para uma futura regulamentação nacional, capaz de garantir segurança tanto para motociclistas quanto para os demais usuários das vias.
Um passo em direção à convivência mais segura
O aumento da frota de motos reflete transformações sociais e econômicas no Brasil. A faixa azul surge, portanto, como uma tentativa de resposta técnica a essa nova realidade.
Mais do que uma pintura no asfalto, ela representa um laboratório urbano para repensar a convivência entre modais e fortalecer a cultura da segurança no trânsito.
Se bem planejada e acompanhada, a faixa azul pode se tornar um instrumento de gestão eficiente e de preservação de vidas nas vias brasileiras.
