Por que motoristas aceleram? Estudo revela como as ruas influenciam a escolha da velocidade
Pesquisa com 1.540 condutores brasileiros mostra como a sinalização, as características das vias e as percepções individuais estão associadas às decisões sobre velocidade, mesmo entre quem declara intenção de respeitar os limites.

A intenção de respeitar os limites de velocidade não depende apenas do conhecimento das regras de trânsito. As características das ruas, a presença de sinalização, a percepção de segurança e até situações cotidianas, como pressa ou emergências, estão associadas à maneira como os motoristas decidem dirigir. É o que aponta um estudo de 2026 desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em parceria com a Fundación Mapfre e apoio institucional da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).
A pesquisa, que reuniu respostas de 1.540 condutores, identificou uma disposição amplamente favorável ao respeito aos limites regulamentares. Entretanto, também mostrou que essa intenção pode variar conforme as circunstâncias e as informações transmitidas pelo ambiente viário.
Um dos resultados que mais chamam a atenção aparece na análise de situações hipotéticas de trânsito. Ao observar uma via local sem estacionamento e sem indicação do limite de velocidade, os participantes declararam que conduziriam, em média, a aproximadamente 47 km/h. Em um cenário correspondente com sinalização do limite regulamentar, a velocidade média escolhida caiu para cerca de 36 km/h.
A diferença de aproximadamente 11 km/h não representa uma redução efetivamente medida nas ruas, mas demonstra como a informação disponível ao condutor pode estar associada à sua decisão sobre a velocidade.
O resultado acrescenta uma dimensão importante ao debate sobre segurança viária no Brasil: além de estabelecer limites e fiscalizar seu cumprimento, é necessário compreender como as próprias cidades influenciam o comportamento de quem dirige.
Por que a intenção de dirigir com segurança nem sempre é suficiente?
Intitulado “Velocidade em áreas urbanas e segurança viária: evidências sobre comportamentos, percepções e atitudes”, o relatório investigou os fatores associados à disposição dos condutores para respeitar os limites de velocidade.
Para isso, os pesquisadores utilizaram um questionário estruturado, com perguntas sobre características socioeconômicas, atitudes, influências sociais, percepção de controle e decisões de velocidade diante de diferentes configurações urbanas.
A investigação foi fundamentada na chamada Teoria do Comportamento Planejado, abordagem que considera a relação entre as avaliações individuais, as influências sociais e a percepção de capacidade para realizar determinado comportamento.
Na prática, isso significa investigar não apenas se o motorista considera importante respeitar uma regra, mas também o que pensa sobre ela, como percebe a opinião das pessoas ao seu redor e em quais circunstâncias acredita conseguir cumpri-la.
Os resultados mostraram que esses três componentes apresentaram associação positiva e estatisticamente significativa com a intenção de respeitar os limites.
Quando analisados conjuntamente, explicaram 56,1% da variação da intenção declarada pelos participantes. Entre eles, as atitudes individuais apresentaram a associação mais forte, seguidas pela percepção de controle sobre o próprio comportamento e pelas normas sociais.
Esse percentual não significa que 56,1% dos motoristas respeitem os limites de velocidade, nem que o modelo consiga prever diretamente a velocidade praticada nas ruas. Trata-se de uma medida estatística sobre a relação entre as variáveis psicológicas investigadas e a intenção declarada de dirigir dentro dos limites.
A descoberta é relevante porque demonstra que a escolha da velocidade envolve diferentes dimensões, que não se resumem ao conhecimento da legislação ou ao receio de receber uma multa.
Pressa, emergências e sensação de insegurança interferem na percepção dos condutores
Outro aspecto identificado pelo levantamento diz respeito às situações que podem enfraquecer uma disposição inicialmente favorável à condução segura.
De maneira geral, os participantes demonstraram elevada concordância com afirmações relacionadas à preservação da vida, à responsabilidade e à capacidade de respeitar os limites regulamentares.
Essa percepção também apareceu em situações específicas, como a presença de pedestres, a existência de radares e a disponibilidade de sinalização clara.
Entretanto, as respostas foram menos uniformes quando os participantes precisaram avaliar circunstâncias excepcionais, especialmente emergências e situações associadas ao receio de violência.
A pesquisa também examinou fatores como estar atrasado, dirigir em pistas vazias, utilizar um veículo potente ou enfrentar condições meteorológicas adversas.
Os resultados indicam que o respeito à velocidade pode ser influenciado pela maneira como cada motorista interpreta o contexto e estabelece prioridades durante a condução.
Isso ajuda a compreender um comportamento relativamente comum no trânsito: reconhecer a importância de determinada regra não significa, necessariamente, manter a mesma disposição para cumpri-la em todas as circunstâncias.
O estudo, porém, não permite afirmar que essas situações tenham provocado infrações efetivas entre os entrevistados. Os resultados dizem respeito às crenças e percepções declaradas pelos participantes.
A mesma rua pode transmitir mensagens diferentes sobre a velocidade
Uma das etapas mais interessantes da pesquisa procurou compreender como os motoristas escolhem a velocidade diante de diferentes configurações viárias.
Os participantes visualizaram imagens de ambientes urbanos com características variadas, incluindo vias arteriais, ruas locais e interseções. Os cenários consideraram elementos como estacionamento, circulação de pedestres, características dos cruzamentos e presença ou ausência de indicação do limite regulamentar.
Cada respondente avaliou oito imagens e informou a velocidade que escolheria para circular nas condições apresentadas.
As diferenças mais expressivas apareceram principalmente nas vias locais e nas interseções.
Na interseção elevada, por exemplo, a velocidade média declarada passou de aproximadamente 41 km/h para 32 km/h entre as condições analisadas.
Já em uma via local com estacionamento dos dois lados, a diferença foi de cerca de 38 km/h para 33 km/h.
Esses resultados indicam que a informação sobre o limite pode funcionar como uma referência adicional para a escolha da velocidade, sobretudo em ambientes nos quais existem diferentes possibilidades de conflito entre os usuários da via.
Há, entretanto, uma ressalva importante: o levantamento utilizou imagens e respostas declaradas, não medições realizadas com veículos em circulação. Portanto, as diferenças encontradas não devem ser interpretadas como uma previsão direta do efeito da instalação de placas em determinada rua.
Como a sinalização influencia a velocidade escolhida
Comparação das velocidades médias declaradas pelos participantes em cenários hipotéticos, com e sem indicação do limite regulamentar.

Nas avenidas, apenas informar o limite pode não ser suficiente
A pesquisa também identificou um comportamento distinto nos cenários de vias arteriais, normalmente utilizadas para conectar diferentes regiões das cidades e acomodar volumes mais elevados de circulação.
Nesses ambientes, as diferenças entre as velocidades declaradas com e sem indicação do limite foram menores e menos uniformes.
Em uma via arterial com estacionamento e sem pedestres, por exemplo, a média passou de aproximadamente 49 km/h para 46 km/h.
Houve ainda um resultado em sentido contrário: no cenário de via arterial sem estacionamento e com pedestres, a velocidade média declarada aumentou de aproximadamente 43 km/h para 46 km/h na comparação entre as condições sem e com sinalização. A diferença apresentou significância estatística.
O resultado não significa que instalar uma placa faça os motoristas acelerarem. Ele reforça, sobretudo, que as escolhas declaradas não responderam de maneira uniforme à sinalização nos diferentes ambientes apresentados.
Uma das interpretações discutidas pelos pesquisadores é que características como o traçado, a largura e a quantidade de faixas, a continuidade do fluxo e a configuração geral da via podem interferir na maneira como o motorista interpreta a velocidade adequada.
A constatação tem implicações para o planejamento urbano.
Uma avenida ampla, com longos trechos retilíneos e características que favoreçam o desenvolvimento de velocidades mais elevadas, pode transmitir ao motorista uma percepção diferente daquela estabelecida pela regulamentação.
Por isso, a gestão da velocidade não deve ser compreendida como uma intervenção exclusivamente baseada em placas. Ela precisa considerar a compatibilidade entre o limite estabelecido, a função da via, sua infraestrutura e os diferentes usuários que compartilham aquele espaço.
Pedestres e cruzamentos exigem atenção especial
A discussão ganha ainda mais importância quando envolve os usuários mais vulneráveis do trânsito.
Diferentemente dos ocupantes de automóveis, pedestres e ciclistas não contam com a proteção oferecida pela estrutura de um veículo. Em situações de atropelamento ou colisão, a velocidade interfere diretamente na energia transferida durante o impacto e, consequentemente, na possibilidade de lesões graves ou fatais.
A revisão científica apresentada no relatório reforça essa relação e reúne evidências sobre os benefícios de políticas de gestão da velocidade em ambientes urbanos.
Nos cenários avaliados pela pesquisa brasileira, a sinalização esteve associada a diferenças particularmente relevantes em determinados cruzamentos.
Em uma rotatória com presença de pedestres, por exemplo, a velocidade média escolhida passou de aproximadamente 33 km/h para 28 km/h entre as condições sem e com indicação do limite.
Em outro cenário, envolvendo uma interseção controlada pela sinalização de parada obrigatória e presença de pedestres, a média declarada na aproximação caiu de cerca de 35 km/h para 30 km/h.
É importante destacar que esses valores correspondem à velocidade escolhida para a aproximação do cruzamento, e não autorizam desconsiderar a obrigação de parada imposta pela sinalização.
Os resultados reforçam a importância de considerar a interação entre veículos e demais usuários no planejamento das intervenções viárias.
Em áreas residenciais, regiões comerciais, proximidades de escolas e locais com circulação frequente de pedestres, o gerenciamento da velocidade precisa levar em conta não apenas a movimentação dos automóveis, mas também as condições de travessia e a exposição das pessoas ao risco.
O desafio também está nas cidades fora das capitais
Embora a pesquisa tenha abrangência nas cinco macrorregiões brasileiras, um aspecto importante de sua metodologia foi a escolha de dois grupos de municípios: aqueles com mais de 1 milhão de habitantes e os que possuem entre 150 mil e 300 mil moradores.
A proposta permitiu investigar as percepções dos condutores em realidades urbanas de portes distintos, sem concentrar a análise exclusivamente nas grandes metrópoles.
Os resultados mostraram que as diferenças associadas à sinalização de velocidade se concentraram principalmente em vias locais e interseções, tanto nos municípios maiores quanto nos menores.
Nas vias arteriais, por outro lado, as respostas foram mais heterogêneas.
Para o debate nacional, esse recorte é particularmente relevante porque a segurança viária também representa um desafio para cidades médias, onde o desenvolvimento urbano, a circulação de veículos e a convivência entre diferentes modalidades de transporte exigem atenção permanente do poder público.
Os achados sugerem que a discussão sobre velocidade deve considerar as características de cada município, evitando soluções baseadas exclusivamente na reprodução de medidas adotadas em grandes capitais.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores alertam que nem todas as diferenças territoriais encontradas podem ser generalizadas, devido à distribuição dos participantes na amostra.
O que o estudo acrescenta às políticas de segurança viária?
No Brasil, a definição dos limites de velocidade integra um conjunto mais amplo de medidas de regulamentação e gestão do trânsito.
O artigo 61 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece que a velocidade máxima permitida deve ser indicada por meio de sinalização, observadas as características técnicas e as condições de trânsito da via.
Na ausência de sinalização regulamentadora, o próprio Código estabelece limites conforme a classificação viária: 80 km/h nas vias de trânsito rápido, 60 km/h nas arteriais, 40 km/h nas coletoras e 30 km/h nas locais.
A autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via também pode regulamentar velocidades superiores ou inferiores às previstas, por meio de sinalização, respeitados os critérios técnicos aplicáveis.
A contribuição da nova pesquisa está em acrescentar elementos comportamentais a essa discussão.
Os resultados mostram que a maneira como os condutores interpretam as regras, percebem sua própria capacidade de cumpri-las e avaliam as condições da rua está associada à intenção de respeitar a velocidade regulamentar.
Isso dialoga com a abordagem dos Sistemas Seguros, que reconhece a possibilidade de erro humano e defende que a infraestrutura, a regulamentação, a fiscalização e os demais componentes do sistema viário sejam planejados para reduzir a ocorrência de mortes e lesões graves.
Na prática, a pesquisa oferece subsídios para que os municípios considerem a gestão da velocidade de maneira integrada, associando sinalização, características físicas das ruas, comunicação com a população e medidas de fiscalização e moderação do tráfego.
O levantamento não avaliou diretamente a redução de sinistros após a implantação dessas intervenções. Seu principal resultado está em demonstrar como diferentes fatores se relacionam com as decisões declaradas dos condutores.
Respeitar a velocidade precisa ser uma escolha compreensível e viável
A pesquisa aponta que existe, entre os participantes, uma disposição amplamente favorável à condução dentro dos limites regulamentares. Entretanto, também evidencia que não se deve analisar essa intenção isoladamente das circunstâncias em que as pessoas dirigem.
Para os gestores públicos, os resultados acrescentam uma questão importante ao planejamento das cidades: além de informar qual velocidade é permitida, é necessário avaliar se as características do ambiente viário são coerentes com o comportamento esperado dos motoristas.
Isso não elimina a responsabilidade individual pelo cumprimento das regras. Amplia, porém, a compreensão sobre os elementos que precisam ser considerados para tornar o trânsito mais seguro.
A principal contribuição do estudo está justamente nessa relação entre comportamento humano e ambiente urbano. Reduzir a exposição ao risco exige compreender não apenas por que os condutores escolhem determinada velocidade, mas também quais condições podem favorecer decisões compatíveis com a proteção da vida.
