17 de agosto de 2026

Rodízio de SP faz 30 anos, mas a frota e a mobilidade já não são as mesmas

Com cerca de 10 milhões de veículos e o avanço dos eletrificados, política criada em 1996 passa a conviver com uma realidade de deslocamentos muito diferente.


Por Assessoria de Imprensa Publicado 17/08/2026 às 17h30
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CLIMA / CHUVA
Em três décadas, o rodízio permaneceu enquanto a realidade ao seu redor se transformou. Foto: thenews2.com para Depositphotos

Trinta anos depois de sua criação, o rodízio de veículos de São Paulo continua restringindo a circulação de parte dos automóveis nos horários de maior movimento. A cidade, porém, já não é a mesma de 1996. A frota da capital chegou a cerca de 10 milhões de veículos, mais que o dobro daquela existente quando a medida foi criada, enquanto novas tecnologias e formas de deslocamento passaram a fazer parte da mobilidade paulistana.

Aplicativos de transporte, maior participação das motocicletas, mudanças nas formas de trabalho e, mais recentemente, o avanço dos veículos eletrificados modificaram a maneira como as pessoas circulam pela cidade.

Nesse contexto, os 30 anos do rodízio trazem uma discussão que vai além de avaliar se a medida funciona ou não. A questão passa a ser como uma política criada para uma determinada configuração urbana pode acompanhar uma mobilidade que se tornou mais diversificada ao longo de três décadas.

Motoristas também adaptaram a rotina ao rodízio

Ao longo dos anos, os próprios condutores encontraram diferentes maneiras de reorganizar seus deslocamentos diante da restrição.

Há quem tenha adquirido um segundo veículo com final de placa diferente, alterado os horários das viagens, migrado para motocicletas ou passado a utilizar serviços de transporte por aplicativo.

Isso significa que nem sempre a restrição impediu que determinado deslocamento fosse realizado. Em diferentes situações, a viagem apenas mudou de horário, de veículo ou de modalidade.

O rodízio continua retirando uma parcela dos carros das ruas nos períodos de maior movimento e, dessa forma, interfere no volume de tráfego. Ao mesmo tempo, passou a conviver com transformações que modificaram profundamente a dinâmica da cidade.

Por isso, uma discussão sobre seu futuro envolve atualmente não apenas congestionamentos, mas também transporte público, ocupação urbana, novas formas de deslocamento e mudanças na própria composição da frota.

Veículos eletrificados trazem uma nova variável

Entre essas transformações está o avanço da eletrificação. Veículos elétricos e híbridos contam com isenção do rodízio como parte das políticas de incentivo à utilização de automóveis menos poluentes. À medida que esses modelos aumentam sua presença nas ruas, porém, cresce também a quantidade de veículos que podem circular nos horários em que outros automóveis estão sujeitos à restrição.

Essa transformação já aparece entre os veículos utilizados no transporte por aplicativo. Levantamento da Machine, com dados de 2024 a 2026, aponta que os eletrificados passaram de pouco mais de 2% para mais de 6% das frotas de aplicativos. Quando considerados apenas os automóveis recém-incorporados pelos motoristas, a participação já supera 20%.

Os números indicam que a eletrificação começa a ganhar espaço justamente em uma atividade caracterizada pela circulação frequente de veículos pela cidade.

Isenção do rodízio e incentivo ambiental

O crescimento dos eletrificados acrescenta uma nova questão a uma política de circulação baseada no final da placa do veículo.

Quanto maior for a participação desses automóveis na frota, maior tende a ser também o grupo que pode circular independentemente do dia de restrição correspondente à placa.

Isso não elimina a justificativa ambiental para a existência do benefício. A isenção está relacionada ao incentivo à adoção de tecnologias menos poluentes. O que se transforma é a composição da frota submetida ao rodízio.

A questão tende a ganhar relevância à medida que os eletrificados deixem de representar uma parcela pequena dos veículos e avancem no processo de renovação da frota paulistana.

Nem todos os eletrificados funcionam da mesma maneira

Há ainda diferenças importantes entre as tecnologias reunidas sob a classificação de veículos eletrificados.

Um elétrico puro não apresenta emissão de poluentes pelo escapamento. O híbrido plug-in pode realizar parte dos deslocamentos utilizando exclusivamente a propulsão elétrica. Já o híbrido leve mantém o motor a combustão como principal fonte de propulsão, utilizando sistemas elétricos para auxiliar na redução do consumo e das emissões.

Apesar dessas diferenças tecnológicas, atualmente esses veículos estão submetidos à mesma regra de isenção do rodízio.

O crescimento desse mercado coloca, portanto, um novo elemento no debate sobre como conciliar políticas de incentivo ambiental e estratégias destinadas à gestão da circulação de veículos.

Eletrificação também muda a operação dos aplicativos

A transformação não se limita à circulação. Para quem utiliza o automóvel profissionalmente, a adoção de veículos eletrificados também envolve mudanças na forma de operar.

Segundo Júlia Camossa, estatística responsável pelo Data Machine, empresas e motoristas precisam considerar aspectos que vão além da aquisição do veículo.

“A aceleração da eletrificação exige que aplicativos e motoristas se adaptem não apenas à tecnologia, mas também a novos modelos de operação e custos, que envolvem manutenção, recarga e gestão de frota. A transformação, portanto, envolve tanto a oferta de veículos quanto a adaptação da operação e do mercado de trabalho associado”, afirma.

Uma política de 1996 diante da mobilidade de 2026

Em três décadas, portanto, o rodízio permaneceu enquanto a realidade ao seu redor se transformou.

A frota mais que dobrou, novas alternativas de deslocamento ganharam espaço, aplicativos passaram a integrar a rotina da cidade e tecnologias de eletrificação começaram a modificar os veículos que circulam pelas ruas.

O desafio colocado pelos 30 anos da medida não precisa se resumir à escolha entre manter ou acabar com o rodízio. O debate também pode envolver a maneira como políticas de circulação, transporte público e incentivos ambientais podem evoluir conjuntamente diante das mudanças na mobilidade urbana.

Afinal, se a cidade, os veículos e a maneira de se deslocar mudaram desde 1996, a discussão sobre o gerenciamento do trânsito também passa a lidar com uma realidade bastante diferente daquela existente quando o rodízio paulistano começou.

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