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Aula teórica remota: instrutores fazem um balanço sobre os pontos positivos e negativos da modalidade de ensino 

Aula teórica remota: instrutores fazem um balanço sobre os pontos positivos e negativos da modalidade de ensino
A instrutora de trânsito Adriane Toledo, do Paraná, durante aula teórica remota. Foto: Arquivo Pessoal.

Há um ano e cinco meses o Contran liberou a aula teórica remota no curso de formação de condutores. Qual o balanço que os instrutores fazem desse período? Leia a matéria.

Nos últimos tempos, palavras como pandemia, coronavírus, lockdown e isolamento social, por exemplo, fizeram parte do cotidiano da maioria dos brasileiros. E essa foi uma situação atípica que pegou o mundo inteiro de surpresa.

Para os profissionais que atuam em Centros de Formação de Condutores (CFCs), também não tem sido um período fácil. Primeiro, veio a paralisação dos serviços, depois, a abertura com restrições e, agora, a busca pelo “novo” normal.

Dentro do processo de adaptação ao momento, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) autorizou, em caráter excepcional, no mês de abril de 2020, que aulas dentro do curso teórico-técnico fossem realizadas na modalidade remota. Conforme o órgão nacional, o objetivo foi dar continuidade ao processo de habilitação para que nem candidatos e nem Centros de Formação de Condutores (CFCs) saíssem prejudicados.

No Paraná, por exemplo, a modalidade foi regulamentada em maio do ano passado, assim como em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Já em São Paulo, as aulas teóricas remotas foram normatizadas em junho de 2020. Em setembro do mesmo ano, em alguns estados, abriu-se a possibilidade da volta dos cursos presenciais. Atualmente, na maioria dos estados as aulas estão acontecendo nas duas modalidades, tanto presencial, como remota.

Aula teórica remota

Por conta da pandemia, as aulas remotas viabilizaram ao aluno dar continuidade ao processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), sem que ele fosse prejudicado. Essa modalidade foi mantida mesmo durante o fechamento dos Detrans, em função das medidas sanitárias.

Diante dessas informações, fomos ouvir instrutores de trânsito para saber como se adaptaram e como estão funcionando as aulas, mais de um ano depois do início da pandemia.

O instrutor Enzo de Oliveira, que atua em Barrinha, São Paulo, contou-nos que, em sua percepção, as aulas remotas não tiveram a aceitação que se imaginava.

“Das cinco autoescolas que eu trabalho, uma ainda conta com o sistema de aula remota. As outras quatro apenas aulas presenciais”, relata.

 

Ainda segundo o instrutor, além de ter um maior custo, as aulas remotas afetaram a aprovação dos candidatos. “Caiu bastante a qualidade e o nível de aprovação. Aqui nós trabalhamos muito sobre o nível de aprovação do índice do Detran/SP e pudermos perceber que esse índice caiu muito. Inclusive percebemos reflexo disso nas aprovações no exame prático”, argumenta Enzo.

Gisele Almeida, que trabalha na capital paulista, conta que a aceitação pode variar de acordo com a faixa etária do aluno. “Os alunos mais jovens estão aceitando bem essa nova proposta da realidade virtual,  já os demais, preferem a modalidade presencial, por não serem tão autodidatas”, explica.

Mesmo assim, ela percebe problemas de adaptação ao ensino remoto dentro dos CFCs.

“Existe certa dificuldade de encontrar instrutores para ministrar aulas remotas. Os instrutores não foram receptivos a esse novo mundo”, diz.

Já no Paraná, segundo Adriane Toledo, que atua em Guarapuava, a aceitação está sendo boa por parte dos alunos. “Além de reduzir custos, como o do transporte, ainda diminui os riscos de contaminação pelo coronavírus”, explica.

A instrutora, porém, destaca um ponto de atenção.

“Percebo maior aceitação por parte dos alunos que têm uma maior velocidade de internet. Uma boa conexão é primordial para que o conteúdo programático explanado em sala de aula possa cumprir o seu papel entre o emissor e o receptor nesse processo de aprendizagem tecnológico virtual”, garante Toledo.

Didática

Mesmo com formatos diferentes e características peculiares, as duas modalidades de ensino, tanto presencial bem como a remota, exigem jogo de cintura do instrutor de trânsito para manter o engajamento do aluno durante todo o curso teórico-técnico. Some-se a isso que as aulas teóricas, que fazem parte do curso de formação de condutores, ainda são vistas por muitos alunos como uma “exigência burocrática”.

Por esse motivo, os instrutores de trânsito possuem receitas e técnicas que têm o objetivo não só de formar condutores, mas cidadãos capazes de compreender leis, regras e desenvolver um relacionamento interpessoal no trânsito.

Para Gisele, todo profissional tem o seu segredo.

“Eu tenho um ponto forte que é a persuasão e procuro usar a meu favor para que a aula se torne mais agradável. Salientando que com um plano de aula bem estruturado e utilização de materiais multimídia, a aula fica muito mais atrativa. Além disso, procuro chamar sempre os alunos pelo nome para que saibam que eu tenho a ciência da existência deles”, ressalta.

É possível usar outras estratégias para que o aluno saia do CFC com aproveitamento total das aulas e conteúdos repassados. Uma delas é o bom humor.

Apesar de ser um assunto muito sério, existem técnicas que permitem atrair a atenção do aluno. “Minhas aulas têm muitas brincadeiras, para não cair naquele marasmo. Isso ajuda tanto para mim, quanto para o futuro condutor. Nesse sentido, sou relativamente conhecido pela forma de dar aula, procurando facilitar a vida do aluno e deixando as aulas mais dinâmicas e divertidas, usando a criatividade”, relata Enzo.

A instrutora paranaense relata a importância do planejamento para a realização do trabalho com excelência, tanto na aula presencial quanto na online. “A utilização de métodos didáticos para os estilos de aprendizagem para percepção de informações, por exemplo: tanto visual, quanto auditivo ou cinestésico, que é aquele que se aproveita dos sentidos relacionados ao movimento para guardar informações. Cada indivíduo, em regra, tem predominância em um destes (predominância, e não totalidade). Vejo isso como uma mola propulsora para atrair a atenção de todos os alunos em uma sala de aula”, conta.

Aproveitamento X controle

Para garantir que os alunos estejam conectados e assistindo a aula, as plataformas, credenciadas pelos Detrans, fazem uma verificação facial no início, no intervalo e no final da aula. Além disso, em outros momentos, através de sorteios. Há relatos, porém, que mesmo assim muitos alunos burlam o sistema e não participam da aula inteira.

Um dos métodos utilizados para verificar se o aluno está atento e assistindo a aula, de acordo com Adriane Toledo, além da câmera aberta, é a participação pelo chat.

 “Eu queria muito que todos ficassem com a câmera aberta, pois daria para ter maior controle para avaliar a atenção de todos em sala de aula. Existem alunos que não abrem a câmera e o microfone, mas enviam mensagens e participam pelo chat. E com esses alunos eu consigo avaliar a participação e atenção durante a aula, inclusive eles também trocam informações por esse canal, em certos debates sobre o conteúdo explanado”, diz.

A instrutora conta, também, que o controle de interação de todos nas aulas remotas é bem diferente da sala de aula presencial. “Às vezes, até devido a a velocidade baixa da internet de alguns alunos, eles mesmos são prejudicados nesse processo de aprendizagem, por conta das intempéries durante o seu acesso à plataforma digital de ensino”.

Conforme a instrutora, o ideal seria que todos ficassem com a câmera aberta. “O que eu tenho feito é trazer assuntos dentro do conteúdo programático que possa instigar os alunos a participar, e, com isso, aqueles que tem boa conexão abrem a câmera e microfone ou respondem e interagem pelo chat.

Dica

Infelizmente, para muitos alunos o curso teórico para formação de condutores é apenas uma barreira a ser ultrapassada. De preferência, da maneira mais rápida possível. Nesse sentido, poucos enxergam a importância de aproveitar as 45 horas/aula de forma produtiva e que traga resultados perenes para o futuro condutor.

Nesse contexto, é inegável o papel desempenhado pelo instrutor de trânsito. Um profissional qualificado consegue despertar o aluno para esse momento de aprendizado.

Para isso, Gisele Almeida traz algumas dicas. “Um instrutor não pode ficar na zona de conforto. Tem que buscar conhecimento constantemente. Por exemplo, no trânsito abordamos vários assuntos de matérias distintas. Estudar e ler é essencial para uma aula de qualidade. Além disso, oriento que o instrutor deva conhecer bem a região onde está localizado o CFC, para trazer a realidade social daquele entorno para sala de aula. Bem como, o educador deve ser bom ouvinte e apostar na troca de conhecimento mútuo”, reforça.

Conforme o instrutor Enzo de Oliveira passar valores, como respeito ao próximo, educação, empatia e tantos outros que deveriam ter sido aprendidos em casa, torna o trânsito mais humanizado, com menos acidentes e tragédias.

“E isso só se pode obter com a troca que se promove, na convivência com outros seres humanos. Por isso, acredito que a aula presencial é insubstituível”, finaliza.

Para concluir, Adriane Toledo trata da missão do profissional dentro do CFC. “O papel dos professores/educadores é ajudar a formar alunos que saibam como aprender, utilizando com maestria as ferramentas tecnológicas e cognitivas à sua disposição. ”

Processo de habilitação

É importante lembrar que o prazo para conclusão do processo de habilitação está suspenso por tempo indeterminado, de acordo normas do Contran. Antes da pandemia, os candidatos tinham que concluir todas as etapas do processo em no máximo de 12 meses. No início da pandemia, este prazo foi dilatado para 18 meses, e agora não há mais a exigência de concluir o processo dentro de um prazo determinado.

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1 Comentário

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