Uso do celular ao volante reduz percepção do outro e ajuda a explicar milhares de acidentes no Brasil
Hábito cada vez mais comum compromete atenção, tempo de reação e capacidade de perceber pedestres, motociclistas e riscos imediatos nas vias.

Olhar uma mensagem “rapidinho”, atender uma ligação no viva-voz, responder no semáforo ou conferir a rota no aplicativo são atitudes normalizadas por muitos condutores. No entanto, por trás dessa aparente rotina inofensiva, está um dos comportamentos mais perigosos do trânsito contemporâneo: o uso do celular ao volante.
O tema do Maio Amarelo 2026 — “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas” — encontra no celular um obstáculo direto. Quando o motorista transfere parte da atenção para a tela, ele deixa de perceber o entorno com a qualidade necessária para dirigir com segurança. E isso significa enxergar menos quem está mais vulnerável: pedestres, ciclistas, motociclistas e até outros motoristas.
Não se trata apenas de desviar os olhos da pista. O celular reduz a capacidade mental de processar riscos, tomar decisões rápidas e antecipar movimentos inesperados.
Celular ao volante: infração comum e risco subestimado
Mesmo com campanhas educativas e previsão legal no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o uso do celular ao dirigir ainda é tratado por parte da população como infração menor.
Na prática, segurar ou manusear o aparelho enquanto dirige é infração gravíssima, sujeita a multa e pontuação na CNH. Mas o problema vai além da penalidade: trata-se de comportamento diretamente associado a colisões evitáveis.
O motorista que usa o celular tende a:
- reagir mais lentamente;
- frear depois do necessário;
- sair da faixa sem perceber;
- ignorar sinalização;
- avançar travessias;
- não notar motos em aproximação;
- reduzir atenção em cruzamentos.
Em ambiente urbano, onde tudo muda em segundos, essa perda de percepção pode ser decisiva.
O cérebro não faz duas tarefas complexas ao mesmo tempo
Uma das crenças mais comuns entre condutores é: “eu consigo olhar e dirigir ao mesmo tempo”. Especialistas em comportamento no trânsito alertam que isso é uma ilusão.
Ao alternar atenção entre a via e a tela, o cérebro não executa plenamente as duas tarefas. Ele muda de foco rapidamente, perdendo qualidade em ambas.
O uso do celular gera três tipos principais de distração:
Distração visual
Quando os olhos saem da via para ler ou digitar.
Distração manual
Quando uma das mãos deixa o volante.
Distração cognitiva
Quando a mente se concentra na conversa, áudio ou mensagem, mesmo que os olhos estejam à frente.
De acordo com Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, esse terceiro fator costuma ser o mais ignorado.
“Muita gente acredita que basta manter os olhos na pista. Mas se a mente está em uma conversa ou mensagem, a percepção de risco já foi comprometida”, explica.
Quem paga o preço da distração
O uso do celular ao volante não ameaça apenas quem dirige. Muitas vezes, as principais vítimas estão fora do veículo.
Pedestres
Um pedestre que inicia travessia pode não ser percebido a tempo.
Motociclistas
Pelo tamanho menor do veículo, motos já exigem atenção ampliada. Com distração, ficam ainda mais vulneráveis.
Ciclistas
Mudanças de direção e ultrapassagens exigem leitura precisa do espaço lateral.
Passageiros e demais motoristas
Frenagens tardias e colisões traseiras afetam todos ao redor.
“Só no semáforo” também oferece risco
Outro hábito comum é usar o celular apenas parado no sinal vermelho. O problema é que muitos condutores permanecem distraídos na retomada do movimento, atrasam reação, arrancam sem observar travessias ou seguem olhando a tela após a abertura do semáforo.
Além disso, em grandes cidades, cruzamentos concentram pedestres, motos, ônibus e mudanças rápidas de fluxo — exatamente onde a atenção deveria ser máxima.
Como abandonar esse hábito
Mudar esse comportamento exige estratégia prática, não apenas boa intenção.
Antes de sair:
- programe GPS e rota;
- responda mensagens urgentes;
- ative modo silencioso ou foco.
Durante o trajeto:
- mantenha o aparelho fora do alcance imediato;
- ignore notificações;
- se precisar usar, pare em local seguro e permitido.
No dia a dia:
- reconheça que ninguém dirige melhor distraído;
- transforme o celular desligado em rotina de segurança.
Maio Amarelo 2026: enxergar o outro começa por largar a tela
O trânsito exige leitura constante do ambiente, empatia e reação rápida. Toda vez que o motorista escolhe a tela em vez da via, ele reduz sua capacidade de enxergar pessoas reais ao redor.
“No Maio Amarelo 2026, a mensagem é direta: salvar vidas pode começar com um gesto simples — guardar o celular antes de ligar o carro”, incentiva Mariano.
