A fúria que mata: tragédia em BH expõe a negligência da saúde mental no trânsito brasileiro
Morte de motorista por agressão em briga de rua mostra a realidade por trás do início do Maio Amarelo; especialistas alertam que o descontrole emocional é gatilho para 90% das falhas humanas nas vias.

A imagem de um soco que encerra uma vida em plena via pública de Belo Horizonte não é apenas o registro de um crime, mas também escancara o sintoma de uma crise comportamental que desafia a segurança viária. O episódio ocorre simultaneamente à abertura do Maio Amarelo, cujo tema deste ano pede que a sociedade desacelere. Para especialistas em psicologia do trânsito, o evento revela que o “jeitinho” e a impaciência escalaram para uma agressividade em que o veículo e as interações nas ruas tornaram-se válvulas de escape para conflitos internos. Segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, 90% dos sinistros são provocados por comportamento ou falha humana.
Para a psicóloga e presidente da ACTRANS-MG, Adalgisa Lopes, o país paga hoje o preço de tratar a saúde mental como um fator secundário. Ela pontua que, para a maioria, a única avaliação psicológica ocorre ao tirar a CNH, o que cria um cenário de “laudo vitalício” que ignora a natureza dinâmica das emoções humanas.
“A nossa saúde mental pode mudar de um momento para o outro. Se ela está prejudicada, o foco e a capacidade de julgamento de risco somem, dando lugar à agressividade e à desobediência. O que vimos em Belo Horizonte foi o colapso do controle inibitório, a função cerebral que deveria frear comportamentos impulsivos em situações de estresse. Sem avaliações periódicas, estamos permitindo que motoristas emocionalmente instáveis assumam o volante todos os dias”, afirma Lopes.
Pesquisa realizada pela plataforma Preply apontou que 73,6% dos brasileiros relataram ter presenciado ou participado de agressões verbais no trânsito.
Especialistas alertam que comportamentos agressivos, como ultrapassagens perigosas e brigas entre motoristas, aumentam significativamente o risco. O vice-presidente da entidade, Carlos Luiz Souza, destaca que a desatenção e a irritação, provocadas pela sobrecarga de tarefas e pelo tempo excessivo de deslocamento, transformam os motoristas em “bombas-relógio”. “O problema no trânsito é sempre ‘o outro’, mas a solução reside no autocontrole individual. A imprudência de terceiros é o maior motivo de irritação, mas reagir a provocações é o caminho mais curto para a tragédia. A recomendação técnica é clara: pratique a tolerância e a gentileza”, orienta Souza.
A diretora da ACTRANS-MG, Giovanna Varoni, reforça que o Maio Amarelo propõe uma mudança de ritmo que vai além da velocidade do velocímetro. Segundo ela, a mente sobrecarregada pelo excesso de informações e pela ansiedade, que aumenta em 20% as chances de acidentes, precisa aprender a se desconectar para preservar vidas.
“Desacelerar é um exercício de respeito à vida. Quando o condutor transforma o carro em uma extensão do próprio estado emocional para descarregar tensões, o risco de colisão ou de um conflito fatal é iminente. A segurança viária depende de políticas públicas que integrem o cuidado psicológico contínuo como pilar fundamental, e não apenas como um trâmite burocrático de uma única vez”, conclui Varoni.
A ciência do trânsito é enfática: fatores humanos são responsáveis por 90% dos sinistros no Brasil. Em um cenário em que a desatenção responde por parte do motivo de mortes, o monitoramento da saúde mental dos motoristas deixa de ser uma questão clínica para se tornar uma emergência de segurança pública.
