08 de junho de 2026

Metade das rodovias públicas brasileiras não “perdoa” erros e pode agravar acidentes, aponta CNT

Levantamento mostra que 50% das rodovias sob gestão pública têm baixa capacidade de reduzir a gravidade dos sinistros. Diferença em relação às rodovias concedidas reforça debate sobre infraestrutura e segurança viária.


Por Agência de Notícias Publicado 08/06/2026 às 08h15
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Foto Rodovia CNT
Pesquisa da CNT mostra que metade das rodovias públicas brasileiras possui baixa capacidade de reduzir a gravidade dos acidentes. Foto: Pesquisa CNT de Rodovias

O erro humano continua presente na maioria dos sinistros de trânsito, mas a infraestrutura viária tem papel decisivo para determinar se uma falha resultará apenas em um susto ou em uma tragédia. É o que mostra a terceira edição do Painel CNT de Rodovias que Perdoam, que revelou um dado preocupante: metade das rodovias públicas brasileiras avaliadas apresenta baixa capacidade de reduzir a gravidade das consequências dos acidentes.

O levantamento, atualizado com dados de 2025, utiliza o chamado Índice de Perdão, indicador desenvolvido pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) para avaliar o quanto as características físicas de uma rodovia ajudam a proteger os usuários quando um sinistro acontece.

Na prática, o conceito parte de uma premissa cada vez mais adotada pelas políticas modernas de segurança viária: pessoas cometem erros, mas a infraestrutura deve ser capaz de minimizar as consequências desses erros e evitar mortes e lesões graves.

Os dados do novo Anuário da Polícia Rodoviária Federal (PRF) também mostram que o erro humano continua existindo, mas a infraestrutura muitas vezes define o tamanho da tragédia. Em um sistema viário que ainda não é tolerante ao erro, falhas como distração, reação tardia ou ultrapassagens indevidas frequentemente terminam em colisões graves e mortes, aponta o Anuário.

O que são as chamadas “rodovias que perdoam”?

O conceito de “rodovias que perdoam” é utilizado internacionalmente para descrever estradas projetadas ou adaptadas para reduzir os danos causados por acidentes. A avaliação considera elementos como defensas metálicas, barreiras de concreto, acostamentos adequados, áreas livres de obstáculos, atenuadores de impacto e outros dispositivos de segurança passiva.

Quanto melhor a presença e a qualidade desses recursos, maior é a capacidade da rodovia de proteger os ocupantes dos veículos em situações críticas, como saídas de pista, colisões ou capotamentos.

De acordo com a CNT, o Índice de Perdão não mede a ocorrência de acidentes, mas sim o potencial da infraestrutura para evitar que eles tenham consequências mais graves.

Rodovias públicas apresentam os piores resultados

Entre os trechos administrados pelo poder público, 50% da extensão analisada — equivalente a 42.052 quilômetros — foi classificada com Baixo Índice de Perdão. Isso significa que essas vias possuem menor capacidade de proteger os usuários quando ocorre um sinistro.

O dado chama ainda mais atenção quando comparado aos trechos considerados mais seguros. Apenas 4,8% das rodovias públicas avaliadas alcançaram classificação de Alto Índice de Perdão.

Segundo a CNT, houve inclusive redução desse percentual em relação ao levantamento anterior, indicando um cenário de deterioração ou insuficiência de investimentos voltados à segurança passiva das rodovias públicas.

Concessões apresentam cenário oposto

O estudo também evidencia uma diferença significativa entre os modelos de gestão das rodovias brasileiras.

Enquanto metade da malha pública avaliada apresenta baixo potencial de proteção aos usuários, nas rodovias concedidas o cenário é praticamente inverso. Segundo a CNT, 62% dos trechos administrados pela iniciativa privada foram classificados com Alto Índice de Perdão. Apenas 2,4% receberam classificação de Baixo Perdão.

Embora o levantamento não atribua diretamente essa diferença ao modelo de gestão, os resultados reforçam uma constatação recorrente em estudos sobre infraestrutura rodoviária: investimentos contínuos em segurança viária costumam refletir diretamente na proteção dos usuários.

Infraestrutura também salva vidas

A divulgação do estudo ocorre em um momento em que o Brasil busca reduzir os índices de mortalidade no trânsito por meio de ações previstas na Política Nacional de Trânsito e em iniciativas alinhadas ao conceito de Sistema Seguro.

Essa abordagem reconhece que falhas humanas sempre existirão. Por isso, além da educação, fiscalização e melhorias nos veículos, a infraestrutura precisa atuar como uma camada adicional de proteção.

Quando uma rodovia possui acostamentos adequados, barreiras de contenção bem instaladas, sinalização eficiente e áreas de escape livres de obstáculos, aumenta a chance de que um erro de condução não termine em morte.

A lógica é simples: um motorista pode errar, mas a estrada não deveria transformar esse erro em uma sentença fatal.

Debate vai além da imprudência

Os dados divulgados pela CNT ajudam a ampliar uma discussão frequentemente limitada ao comportamento dos condutores. Embora fatores como excesso de velocidade, distração, ultrapassagens indevidas e consumo de álcool continuem entre as principais causas dos sinistros, especialistas em segurança viária defendem que deve-se analisar a infraestrutura como parte da solução.

O Painel CNT de Rodovias que Perdoam reforça justamente essa visão. Mais do que apontar falhas na malha rodoviária, o levantamento mostra que investir em infraestrutura segura não é apenas uma questão de mobilidade ou logística, mas uma estratégia de preservação da vida.

Em um país que ainda registra milhares de mortes no trânsito todos os anos, a capacidade das rodovias de reduzir a gravidade dos acidentes pode representar a diferença entre voltar para casa ou entrar para as estatísticas.

Com informações da Agência CNT Transporte Atual

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