Pessoa idosa no trânsito: autonomia deve ser preservada, mas segurança precisa vir em primeiro lugar
Nova cartilha do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro reúne orientações para um envelhecimento saudável. Especialistas destacam que muitos dos cuidados também ajudam a tornar o trânsito mais seguro para quem tem 60 anos ou mais.

O Brasil está envelhecendo rapidamente e essa transformação também muda o perfil de quem utiliza as vias. Atualmente, milhões de pessoas com 60 anos ou mais continuam dirigindo, caminhando pelas cidades, utilizando o transporte coletivo e mantendo uma vida ativa. Nesse cenário, discutir segurança viária para esse público tornou-se uma necessidade.
A publicação da cartilha “Tecendo o Cuidar”, elaborada pela equipe de Serviço Social da 1ª Vara Especializada em Pessoas Idosas (VEPI), do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), reforça justamente essa preocupação. O material reúne orientações sobre direitos, saúde, autonomia, convivência familiar e cuidados cotidianos que contribuem para um envelhecimento saudável. Embora não seja voltada especificamente ao trânsito, diversas recomendações dialogam diretamente com a mobilidade e a prevenção de sinistros.
Para o juiz auxiliar da 1ª Vara Especializada em Pessoas Idosas (VEPI), Carlos Eduardo Pimentel das Neves Reis, um dos objetivos da cartilha é justamente tornar essas informações acessíveis para toda a população.
“O material, de forma lúdica e a partir da utilização de ilustrações e de uma linguagem simples, permite uma maior compreensão para alcançar todas as pessoas que procuram a VEPI”, afirma o magistrado.
Conforme a cartilha, preservar a autonomia da pessoa idosa significa garantir qualidade de vida, sempre com respeito às suas capacidades e necessidades individuais. Esse princípio também deve orientar a participação desse público no trânsito.
Envelhecer não significa deixar de dirigir
Uma ideia equivocada ainda bastante comum é associar idade à incapacidade para dirigir. Na prática, não existe uma idade máxima para conduzir veículos no Brasil.
O Código de Trânsito Brasileiro exige apenas que os condutores sejam considerados aptos nos exames médicos realizados durante a renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A avaliação leva em consideração aspectos como visão, audição, capacidade motora e condições cognitivas, permitindo identificar se o motorista reúne condições para continuar dirigindo com segurança.
Para o especialista e diretor do Portal do Trânsito, Celso Mariano, nuca deve-se usar a idade, isoladamente, como critério.
“Há pessoas de 80 anos plenamente aptas para dirigir e pessoas bem mais jovens que não apresentam condições seguras. O importante é que o motorista conheça seus próprios limites, mantenha os exames em dia e adapte sua condução às mudanças naturais do envelhecimento.”
De acordo com ele, preservar a autonomia da pessoa idosa também significa permitir que ela continue exercendo seu direito de ir e vir, desde que isso ocorra com responsabilidade.
O trânsito também precisa se adaptar
O envelhecimento da população exige mudanças que vão além do comportamento individual.
Calçadas acessíveis, faixas de pedestres bem sinalizadas, tempos semafóricos adequados para travessia, iluminação eficiente e respeito dos demais condutores fazem parte de uma mobilidade mais segura.
A própria cartilha lembra que garantir os direitos da pessoa idosa é responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e poder público. Esse compromisso também deve se refletir na forma como o trânsito é planejado e organizado.
Hábitos saudáveis também tornam o trânsito mais seguro
Entre as orientações apresentadas na cartilha estão práticas que ajudam a manter a autonomia e que também favorecem uma condução mais segura.
O material recomenda manter o cérebro ativo por meio de leitura, jogos de raciocínio, atividades culturais e convivência social, destacando que esses hábitos contribuem para preservar a memória e a autonomia.
Também são incentivadas atividades físicas regulares, como caminhadas, dança, hidroginástica, pilates e yoga, sempre respeitando as limitações individuais e com orientação médica quando necessário.
Outro ponto importante é a atenção à saúde mental. A cartilha orienta estimular a socialização, manter uma rotina adequada de sono e buscar apoio profissional diante de sinais como tristeza prolongada, confusão mental ou esquecimentos frequentes.
Todos esses fatores influenciam diretamente funções essenciais para uma condução segura, como atenção, tempo de reação, tomada de decisões e percepção do ambiente.
Dez cuidados para preservar a segurança da pessoa idosa no trânsito
Especialistas recomendam algumas medidas simples que podem fazer diferença no dia a dia:
- Faça exames periódicos de visão, audição e avaliação médica.
- Informe ao médico todos os medicamentos de uso contínuo e verifique se algum pode afetar a direção.
- Prefira dirigir durante o dia e em trajetos conhecidos.
- Evite conduzir veículos quando estiver cansado ou indisposto.
- Respeite seus próprios limites e não tenha receio de pedir ajuda quando necessário.
- Use sempre o cinto de segurança.
- Utilize calçados confortáveis e adequados para dirigir.
- Atravesse a via somente em locais seguros e sinalizados.
- Mantenha uma rotina de atividades físicas e estímulos cognitivos.
- Preserve sua autonomia, mas sempre priorizando a segurança.
Motoristas mais jovens também têm papel importante
A proteção da pessoa idosa no trânsito não depende apenas dela.
Quem dirige deve reduzir a velocidade em locais com grande circulação de idosos, respeitar o tempo de travessia nas faixas de pedestres, evitar ultrapassagens perigosas e agir com paciência em situações nas quais o deslocamento ocorra de forma mais lenta.
Pequenas atitudes de respeito podem evitar sinistros graves e contribuir para um ambiente mais seguro para todos.
Envelhecimento ativo também passa pela mobilidade
Ao lançar a cartilha “Tecendo o Cuidar”, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro reforça uma mensagem que vai além dos aspectos jurídicos: envelhecer com dignidade significa preservar a autonomia, os direitos e a participação social da pessoa idosa.
Além das orientações voltadas à saúde física e mental, a publicação também reúne informações sobre direitos da pessoa idosa e apresenta os serviços públicos que integram a rede de proteção. Conforme o juiz Carlos Eduardo Pimentel das Neves Reis, esse também é um dos objetivos do material.
“As pessoas idosas e seus familiares também podem obter informações sobre a rede de apoio fornecida pelo poder público, pelos órgãos municipais e estaduais. A cartilha fala sobre os Centros de Referência Especializados em Assistência Social (CREAS) e os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), Clínicas da Família, Centros Municipais de Saúde (CMS) e dos Centros de Atendimento de Atenção Psicossocial (CAPS). Além da própria Defensoria Pública e do Ministério Público, que ajuíza as medidas protetivas e as Ações Civis Públicas em prol das pessoas idosas”, destaca.
No trânsito, essa autonomia deve caminhar lado a lado com a segurança. Para especialistas, promover cidades mais acessíveis, incentivar hábitos saudáveis e respeitar as necessidades de quem envelhece são medidas fundamentais para garantir que a mobilidade continue sendo um instrumento de qualidade de vida e não um fator de risco.
