Onda de calor transforma carro fechado em risco para crianças e animais
A temperatura dentro do veículo pode subir rapidamente mesmo à sombra e com os vidros parcialmente abertos; reconhecer os sinais de hipertermia e agir depressa pode salvar vidas.

Depois de uma sequência de temporais provocados pela atuação de um ciclone extratropical, o Sul do Brasil ainda sente os efeitos da entrada de uma massa de ar frio, que também alcançou áreas do Sudeste. O cenário, porém, é diferente no centro-norte do país, onde o tempo seco e as temperaturas elevadas já predominam. Com o afastamento do sistema e a previsão de calor acima da média em grande parte do território durante setembro — especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste —, cresce a preocupação com os riscos provocados pelas altas temperaturas, inclusive dentro de veículos fechados.
Crianças e animais são particularmente vulneráveis e nunca devem permanecer sozinhos no automóvel, mesmo por poucos minutos, isso porque não conseguem regular a temperatura corporal com a mesma eficiência de um adulto saudável. Além disso, podem não ter condições de sair do veículo, abrir uma porta ou pedir ajuda.
Por isso, a recomendação é absoluta: crianças e animais nunca devem permanecer sozinhos dentro de um carro, nem mesmo por pouco tempo.
A temperatura sobe rapidamente, mesmo à sombra
O carro fechado funciona como uma espécie de estufa. A radiação solar atravessa os vidros e aquece bancos, painel e outras superfícies. Esse calor fica retido dentro do veículo, provocando uma elevação rápida da temperatura interna.
Conforme a agência norte-americana de segurança viária NHTSA, a temperatura no interior de um automóvel pode aumentar cerca de 11°C nos primeiros dez minutos. Estacionar à sombra ou deixar uma pequena abertura nos vidros não é suficiente para evitar o superaquecimento.
Isso significa que uma parada aparentemente rápida em uma farmácia, padaria ou posto de combustível pode expor os ocupantes a um risco grave. O perigo também existe em dias considerados amenos, principalmente quando o veículo fica diretamente sob o sol.
Por que as crianças correm mais risco?
O corpo de uma criança pode aquecer de três a cinco vezes mais rapidamente do que o de um adulto, conforme alerta a NHTSA. Bebês e crianças pequenas também transpiram menos, têm uma proporção corporal diferente e dependem de um adulto para sair de situações de perigo.
A elevação excessiva da temperatura corporal pode causar desidratação, exaustão pelo calor e hipertermia. Nos casos mais graves, ocorre o chamado golpe de calor, uma emergência médica capaz de provocar danos ao cérebro e a outros órgãos.
O risco não está apenas nos casos em que o responsável decide deixar a criança dentro do automóvel. Esquecimentos podem ocorrer após mudanças na rotina, cansaço ou distração. Também existem situações nas quais a criança entra sozinha em um carro destrancado e não consegue sair.
Animais também podem sofrer hipertermia
Cães e gatos também enfrentam grande dificuldade para controlar a temperatura dentro de um carro quente. Os cães, por exemplo, eliminam boa parte do calor pela respiração ofegante e transpiram principalmente pelas patas, mecanismos que podem não ser suficientes diante do superaquecimento do veículo.
Animais filhotes, idosos, obesos, com problemas cardíacos ou respiratórios e cães de focinho curto, como pug, buldogue e shih-tzu, estão entre os mais vulneráveis.
Respiração muito acelerada, salivação excessiva, fraqueza, desorientação, vômitos, dificuldade para caminhar e perda de consciência são sinais de alerta. Nessas condições, o animal precisa de atendimento veterinário urgente.
Vidro aberto e ar-condicionado não eliminam o risco
Deixar os vidros parcialmente abertos produz pouca diferença na temperatura interna. Da mesma forma, não é seguro manter uma criança ou um animal sozinho com o motor e o ar-condicionado ligados.
O motor pode desligar, o sistema de climatização pode apresentar uma falha e a pessoa ou o animal pode acionar comandos do veículo acidentalmente. Também existem riscos de furto e, em ambientes fechados, de intoxicação por monóxido de carbono.
A única conduta segura é levar a criança ou o animal junto ao sair do automóvel.
Como prevenir esquecimentos
Algumas medidas simples ajudam a reduzir o risco:
- antes de trancar o carro, confira todos os bancos, inclusive a cadeirinha infantil;
- crie o hábito de olhar o banco traseiro sempre que estacionar;
- coloque no banco de trás um objeto que será necessário no destino, como uma bolsa ou crachá;
- combine com a escola ou creche que alguém entre em contato caso a criança não chegue no horário habitual;
- mantenha os veículos estacionados sempre trancados;
- guarde as chaves fora do alcance das crianças;
- ensine que o carro não é local para brincar;
- ao transportar animais, planeje paradas e leve água;
- nunca deixe a responsabilidade de vigiar uma criança pequena com outra criança.
Também é importante manter a atenção quando houver mudança na rotina, como quando outro familiar assume o transporte para a escola.
O que fazer ao encontrar uma criança em um carro fechado?
Ao perceber uma criança sozinha dentro de um veículo, observe rapidamente se ela responde a estímulos e se apresenta sinais de mal-estar. Tente localizar o responsável e peça que o estabelecimento faça um anúncio, mas não espere caso haja sinais de perigo.
Acione imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pelo número 192, o Corpo de Bombeiros pelo 193 ou a Polícia Militar pelo 190. Informe a localização exata, as condições da criança e as características do veículo.
Siga as orientações fornecidas pela equipe de emergência. Se a criança for retirada, leve-a para um local fresco e ventilado e procure resfriar o corpo gradualmente com panos molhados e ventilação. Uma pessoa inconsciente, confusa ou com convulsões não deve receber líquidos pela boca.
E quando houver um animal preso no veículo?
Se o animal estiver ofegante, desorientado ou sem reação, tente localizar o responsável rapidamente e acione o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar ou o serviço público responsável pela proteção animal no município.
Depois da retirada, o animal deve ser levado para um ambiente fresco. O corpo pode ser molhado gradualmente com água fresca, sem utilizar água extremamente gelada. Mesmo que demonstre melhora, é importante procurar atendimento veterinário, pois complicações internas podem aparecer posteriormente.
Quais são os sinais de golpe de calor?
O Ministério da Saúde aponta como sinais relacionados ao calor excessivo:
- transpiração intensa;
- fraqueza e tontura;
- dor de cabeça;
- náusea ou vômito;
- cãibras;
- confusão mental;
- pele muito quente;
- convulsões;
- perda de consciência.
Confusão, convulsões e desmaio indicam uma emergência. Nesses casos, o atendimento médico deve ser acionado imediatamente pelo telefone 192.
O calor também exige cuidados com o veículo
Temperaturas elevadas afetam pneus, bateria, mangueiras, sistema de arrefecimento e ar-condicionado. Antes de viajar, o motorista deve verificar o nível dos fluidos, as condições dos pneus e o funcionamento do sistema de climatização.
A calibragem dos pneus deve ser feita preferencialmente quando eles estiverem frios. Nunca se deve retirar o excesso de pressão de um pneu quente nem abrir a tampa do reservatório do sistema de arrefecimento enquanto o motor estiver aquecido.
Objetos sensíveis ao calor, como aerossóis, isqueiros, baterias e aparelhos eletrônicos, também não devem permanecer no interior do veículo. Antes de acomodar uma criança, é recomendável tocar na fivela da cadeirinha e em outras superfícies metálicas para verificar se estão muito quentes.
Nos períodos de onda de calor, acompanhar os avisos meteorológicos do Instituto Nacional de Meteorologia ajuda a planejar os deslocamentos. Mas, independentemente da temperatura prevista, a regra permanece a mesma: nenhuma criança ou animal deve ser deixado sozinho dentro de um automóvel.
