02 de fevereiro de 2026

O preço de aprender a dirigir sem autoescola pode ser muito maior do que você imagina


Por Mariana Czerwonka Publicado 26/08/2025 às 08h15
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dirigir sem autoescola
Para os especialistas, qualquer mudança deve ser baseada em evidências concretas e não apenas em promessas de economia. Foto: Félix Carneiro/Detran-TO

A proposta do governo federal de tornar facultativas as aulas em Centros de Formação de Condutores (CFCs) para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) reacendeu o debate sobre custo e qualidade na formação de condutores no Brasil. A medida é apresentada como forma de reduzir o preço da habilitação — atualmente em torno de R$ 3 mil — em até 80%. Especialistas e entidades do setor, porém, alertam: baratear o processo abrindo mão da educação formal pode ser um retrocesso perigoso para a segurança viária.

Conforme informações divulgadas, a ideia teria como base um estudo técnico do Ministério dos Transportes. No entanto, o próprio documento reconhece “ausência de significância estatística” nos dados — ou seja, não há comprovação científica de que a obrigatoriedade das aulas práticas em autoescolas não tenha impacto na redução de mortes no trânsito.

De acordo com a Associação Brasileira das Autoescolas (ABRAUTO), essa fragilidade estatística é preocupante diante de uma possível mudança tão drástica.

“Quase metade do valor da CNH é composta por taxas obrigatórias do Detran, exames médicos e psicológicos — custos que continuariam existindo mesmo sem as aulas em CFC. Além disso, quem optasse por um ensino informal teria gastos adicionais, como combustível, manutenção e desgaste do próprio veículo”, destaca a entidade.

A estrutura das autoescolas, lembram representantes do setor, também oferece segurança: carros equipados com duplo comando e instrutores preparados para agir em situações de emergência. No caso das motocicletas, os riscos de aprendizado sem supervisão técnica seriam ainda maiores.

Educação vai além de “ensinar a dirigir”

A especialista em educação para o trânsito Anna Maria Prediger reforça que a formação em CFC não se resume à operação do veículo.

“É na autoescola que o aluno desenvolve percepção de risco, consciência ética e respeito às regras — aspectos que dificilmente serão abordados de forma sistemática por um amigo ou parente”, afirma.

Ela lembra ainda o impacto econômico e humano dos acidentes no país: mais de 30 mil mortes por ano e cerca de 50 mil pessoas com sequelas permanentes, muitas delas jovens. O custo social, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), supera R$ 50 bilhões anuais. “A autoescola não é o problema, é parte da solução”, resume Prediger.

O especialista Celso Alves Mariano compartilha dessa visão. Ele ressalta que a obrigatoriedade de aulas formais foi um dos fatores que ajudaram a reduzir a taxa de mortes no trânsito brasileiro. Dados mostram que, entre o fim dos anos 1980 e 2018, o índice de mortalidade caiu de quase 33 para cerca de 15,5 mortes por 100 mil habitantes, mesmo com o aumento expressivo da frota.

Experiências internacionais e lições do passado

Para o especialista David Duarte Lima, o caminho não é eliminar a formação formal, mas aprimorá-la. Ele cita o exemplo da Espanha, onde investimentos na qualificação dos condutores resultaram em queda expressiva da mortalidade no trânsito. No Brasil, a implantação do Código de Trânsito Brasileiro, em 1998, e a consolidação dos CFCs obrigatórios também coincidiram com avanços importantes na segurança viária.

Melhorar, não eliminar

Entre as melhorias sugeridas estão a revisão de taxas para tornar o processo mais acessível, maior transparência nos custos, atualização pedagógica e fiscalização rigorosa para garantir a qualidade dos cursos.

“A discussão sobre preço é legítima, mas segurança não pode ser moeda de troca”, enfatiza Mariano.

A ABRAUTO informou que mantém diálogo com o governo e recebeu sinalização, por parte da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, de que a proposta não partiu diretamente da Presidência e será discutida com o setor. No Congresso, já há mobilização de uma frente parlamentar em defesa da educação para o trânsito.

Segurança coletiva em primeiro plano

O debate sobre o custo da CNH e a segurança nas ruas ainda está em aberto. Para os especialistas, no entanto, qualquer mudança deve se basear em evidências concretas e não apenas em promessas de economia.

“Se a formação estruturada for retirada, quem vai garantir que novos motoristas tenham, além da habilidade técnica, a consciência e o respeito necessários para um trânsito mais seguro?”, questiona Prediger.

Enquanto isso, permanece o desafio: como tornar o acesso à habilitação mais justo e acessível, sem abrir mão da segurança de todos nas vias? A resposta que mais ecoa entre os especialistas é clara — aprimorar o que já existe, e não desmontar um sistema que, apesar das falhas, cumpre um papel essencial na preservação de vidas.

Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

1 comentário

  • Roberto Carlos Maia de Oliveira
    01/09/2025 às 01:20

    Assim como o governo passado que tirou o seguro obrigatório e radares que alguns governos estaduais aderiram, esse governo vê a forma de economizar pra uma classe mas não adota mudança no aprendizado e mais rigor nos exames médicos e psicotécnico onde se consegue diagnóstico físicos, comportamentais, deficiências periféricas, ópticas que devido negligências e conveniências de acordo com seus interesses os profissionais não diagnosticam e muito menos recomendam tratamento ou limitações no ato de dirigir. O problema maior stá na corrupção em todos os setores. Começa quando se indica quem não tem competência nos setores, até os coniventes que não fiscalizam, não punem e blindam a quem é de interesse.

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