Segurança no trânsito: levantamento revela diferenças entre estados e expõe falhas nos dados
Estudo do Observatório Nacional de Segurança Viária, baseado em informações de 2024, avalia sete dimensões e aponta que apenas cinco estados apresentaram registros de sinistros suficientemente completos.

O Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Goiás aparecem nas primeiras posições da classificação geral de um levantamento sobre segurança viária no Brasil. Os resultados, entretanto, contam apenas parte da história. Além das diferenças entre as unidades da Federação, o estudo revela um problema que afeta o país inteiro: a dificuldade de reunir informações completas e confiáveis sobre os sinistros de trânsito.
Os dados fazem parte da edição 2026 do IRIS – Indicadores Rodoviários Integrados de Segurança, elaborado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), com informações referentes a 2024.
Na classificação geral, o Distrito Federal obteve quatro estrelas, seguido pelo Rio de Janeiro, com 3,9, e por Goiás, com 3,8. Na outra ponta, Amazonas registrou 1,9 estrela, enquanto Acre e Amapá ficaram com duas estrelas.
Não se deve interpretar a classificação, porém, como uma medida definitiva de qual estado possui o trânsito mais seguro. O próprio Observatório destaca que os resultados são relativos e servem para comparar indicadores, identificar diferenças e orientar melhorias na gestão da segurança viária.
O que o levantamento considera para avaliar a segurança no trânsito?
O IRIS reúne sete dimensões. Seis delas correspondem aos pilares previstos no Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans): gestão da segurança, vias seguras, segurança veicular, educação, atendimento às vítimas e normatização e fiscalização.
O estudo acrescenta um sétimo pilar, relacionado aos indicadores de mortalidade.
Essa estrutura permite analisar a segurança viária para além do número de mortes. A capacidade de fiscalizar, a qualidade das informações disponíveis e a organização dos órgãos responsáveis pelo trânsito também entram na avaliação.
Por isso, estados próximos geograficamente podem apresentar resultados diferentes. Segundo o levantamento, as diferenças estão relacionadas a condições institucionais, operacionais, tecnológicas e de gestão específicas de cada unidade da Federação.
Distrito Federal, Rio de Janeiro e Goiás aparecem nas primeiras posições
O Distrito Federal obteve a maior classificação geral do IRIS 2026, com quatro estrelas. Também alcançou nota 10 nos pilares de gestão da segurança viária e de normatização e fiscalização.
O Rio de Janeiro aparece na sequência, com 3,9 estrelas, e registrou nota 10 em educação para o trânsito.
Já Goiás alcançou 3,8 estrelas na classificação geral. No pilar de normatização e fiscalização, obteve nota 4,723, atrás do Distrito Federal.
Os resultados mostram que um mesmo estado pode apresentar desempenhos distintos entre os indicadores. Uma boa classificação geral, portanto, não significa que todas as áreas avaliadas estejam no mesmo nível.
Mais multas significam um trânsito menos seguro?
Um dos pontos mais importantes do levantamento é a necessidade de interpretar os dados de fiscalização com cuidado.
Goiás aparece entre as unidades com maiores registros proporcionais de infrações por excesso de velocidade. Distrito Federal e Roraima também se destacam nesse indicador.
Nos registros de uso de celular ao volante, Goiás, Distrito Federal e São Paulo apresentam as maiores taxas.
Isso não permite concluir, automaticamente, que os motoristas desses estados cometem mais infrações.
Uma quantidade elevada de autuações pode refletir tanto a ocorrência de comportamentos de risco quanto a existência de sistemas de fiscalização mais abrangentes e capazes de identificar essas condutas.
O contrário também exige atenção: poucos registros não comprovam, por si só, que os condutores respeitam mais as regras. Em alguns locais, os números podem ser influenciados por fiscalização insuficiente ou falhas de registro.
A distinção é importante porque o número de infrações registradas não corresponde necessariamente ao número de infrações efetivamente cometidas.
Para a segurança viária, é preciso analisar os dados em conjunto com outros indicadores, especialmente aqueles relacionados à exposição ao risco, aos sinistros e às vítimas.
Apenas cinco estados apresentaram dados de sinistros suficientemente completos
Embora a classificação geral chame atenção, uma das constatações mais relevantes do estudo está na qualidade das informações utilizadas para administrar a segurança viária.
Segundo o levantamento, apenas cinco estados apresentaram registros considerados suficientemente completos no Registro Nacional de Sinistros e Estatísticas de Trânsito (RENAEST).
Nos demais, foi identificada uma proporção elevada de campos indisponíveis. Essa deficiência tem consequências práticas.
Quando os registros são incompletos, torna-se mais difícil identificar onde ocorrem os sinistros, compreender seus fatores associados, estabelecer prioridades e avaliar se as ações adotadas estão produzindo resultados. A ausência de informações também compromete as comparações entre estados.
Não basta conhecer a quantidade de ocorrências. Para orientar medidas de prevenção, é necessário reunir dados consistentes sobre as circunstâncias dos sinistros e as características das vítimas, dos veículos e das vias.
Sem informação de qualidade, a gestão da segurança viária perde capacidade de agir com precisão.
Municípios ainda enfrentam dificuldades de integração ao Sistema Nacional de Trânsito
Outro problema identificado pelo IRIS é a integração dos municípios ao Sistema Nacional de Trânsito (SNT).
O levantamento aponta que uma parcela significativa dos municípios brasileiros ainda não está formalmente integrada ao sistema, mesmo após mais de 25 anos da criação do Código de Trânsito Brasileiro.
A integração é necessária para que os municípios exerçam plenamente atribuições relacionadas à engenharia de tráfego, educação para o trânsito e fiscalização.
Mato Grosso do Sul e Distrito Federal aparecem entre as unidades com maiores índices de integração municipal. Tocantins e Piauí, por outro lado, apresentam parcelas pequenas de municípios integrados.
A questão merece atenção porque a segurança viária também depende de decisões locais.
A organização da circulação, as condições das vias urbanas, a sinalização e as ações educativas e de fiscalização fazem parte da rotina dos municípios. Quando há limitações institucionais para executar essas atividades, a capacidade de prevenção também pode ser afetada.
Transparência dos Detrans também apresenta diferenças
O estudo identificou desigualdades na quantidade de informações disponibilizadas pelos portais dos Departamentos Estaduais de Trânsito.
Sergipe, São Paulo e Espírito Santo foram apontados entre os estados com maior nível de informações disponíveis. Já Roraima, Tocantins e Piauí apresentaram portais com ausência de informações básicas de gestão.
A transparência é relevante não apenas para pesquisadores e gestores públicos, mas também para a sociedade.
Dados acessíveis permitem acompanhar políticas de trânsito, identificar prioridades e cobrar resultados das ações desenvolvidas pelos órgãos responsáveis.
O que os resultados revelam para a Semana Nacional do Trânsito?
Divulgado durante a Semana Nacional do Trânsito, realizada de 18 a 25 de setembro, o levantamento reforça que reduzir mortes e lesões exige um conjunto de medidas.
Fiscalização, educação, infraestrutura, atendimento às vítimas e gestão precisam funcionar de maneira articulada.
Também é necessário melhorar a qualidade das informações que orientam essas ações. O IRIS não oferece um diagnóstico definitivo da segurança de cada estado. Suas notas são relativas: alcançar a maior pontuação em determinado indicador significa apresentar o maior resultado entre as unidades avaliadas, e não ter atingido uma condição ideal.
O levantamento, portanto, deve ser entendido como uma ferramenta para identificar diferenças e necessidades de melhoria.
Para o Brasil, a mensagem que fica vai além da classificação dos estados: reduzir a violência no trânsito depende também de conhecer melhor onde estão os problemas, registrar corretamente as ocorrências e transformar essas informações em ações de prevenção.
