Maio Amarelo: qual a responsabilidade do engenheiro na segurança viária?
Esse profissional é responsável por projetar rodovias modernas, seguras e eficientes, que contribuam para a redução do número de acidentes e mortes no trânsito.Por João Carlos Almeida Júnior
Por João Carlos Almeida Júnior*

Em 2025, mais de seis mil pessoas perderam a vida nas rodovias federais brasileiras, uma média de 16 mortes por dia. Os dados são da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que registrou 72 mil acidentes, com 83 mil feridos ao longo do ano. Apesar da leve redução em relação ao ano anterior, a comparação com 2020 indica uma alta de 14% no número de acidentes e de 18,3% nas mortes. Os números são preocupantes e colocam o Brasil com uma das maiores taxas de mortalidade nas Américas.
A maior parte dos acidentes registrados nas rodovias federais brasileiras são as colisões, que representam mais de 60% do total de ocorrências. As saídas de pista e os tombamentos são muito frequentes em trechos de serra ou quando o motorista perde o controle do veículo devido ao excesso de velocidade. Outro tipo de acidente bastante comum é o atropelamento, especialmente crítico para pedestres, ciclistas e motociclistas, que somam quase 40% das vítimas fatais.
Ainda de acordo com dados da PRF, os acidentes nas rodovias federais brasileiras representam cerca de 20% do total de mortes no trânsito no país. As causas são variadas e envolvem desde fatores comportamentais – como desatenção, excesso de velocidade, ingestão de álcool, ultrapassagens indevidas, cansaço e sono – até problemas na infraestrutura.
Erros no projeto geométrico, curvas perigosas, sinalização precária, falta de acostamento e falhas na drenagem contribuem para a gravidade dos sinistros. Além disso, em rodovias com pista simples, quando os dois sentidos do tráfego são separados apenas por uma pintura no asfalto, as colisões frontais são mais frequentes, e também mais fatais.
Segurança no trânsito
Para tentar reduzir o número de acidentes e de mortes nas rodovias, surgiu o Maio Amarelo, um movimento internacional e apartidário de conscientização sobre a segurança no trânsito. No Brasil, ele foi criado oficialmente em 2014 pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) e, durante todo o mês, ocorrem blitzes, palestras, caminhadas e eventos para conscientizar condutores e pedestres. O objetivo principal é colocar o tema da segurança viária em pauta, mobilizando o poder público e a sociedade civil para discutir responsabilidades e adotar comportamentos mais seguros.
Para 2026, o tema oficial definido pelo ONSV é “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. A campanha chega em um momento em que o Brasil enfrenta um cenário crítico, especialmente pela alta vulnerabilidade dos motociclistas, que hoje representam uma parcela significativa dos usuários de rodovias. Neste ano, a iniciativa foca na empatia e na percepção dos elementos mais vulneráveis, reforçando que o cuidado humano é essencial para prevenir tragédias.
Engenheiros são essenciais para a segurança viária
Os engenheiros podem – e devem – fazer parte desse movimento para diminuir o número de ocorrências e de fatalidades nas rodovias. A responsabilidade desses profissionais na segurança viária é abrangente e técnica, englobando todas as fases de uma estrada, desde o planejamento até a manutenção. Sua atuação é fundamental para garantir estruturas seguras, duráveis e eficientes, com o objetivo de proteger vidas e reduzir acidentes. Através da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), eles respondem por projetos que moldam como os veículos e as pessoas interagem nas rodovias.
Uma das principais atribuições do engenheiro é desenvolver projetos geométricos (curvas, declives, faixas de rolamento) considerando a velocidade da via e o volume de tráfego, com o objetivo de preservar vidas e garantir a fluidez nas estradas.
É esse profissional quem define um traçado seguro para a rodovia, considerando alinhamentos horizontais e verticais, raios de curvatura e largura das faixas para minimizar o risco de colisões. Por exemplo, ele deve projetar curvas com raios adequados e garantir a distância de visibilidade necessária para que o motorista consiga reagir a um obstáculo a tempo.
Além da geometria da via, o engenheiro também é responsável por projetar e implantar a sinalização vertical e horizontal, garantindo que as placas sejam visíveis em qualquer condição climática e que as informações sejam claras para manter o fluxo organizado. Esse profissional analisa a necessidade de dispositivos de segurança (como defensas metálicas, barreiras flexíveis, atenuadores de impacto e áreas de escape) e medidas de moderação de tráfego (traffic calming) para aumentar a fluidez e a segurança. Ele também deve projetar ciclovias e travessias para pedestres que protejam os usuários mais vulneráveis do sistema viário.
Prevenção e correção de riscos
As atribuições do engenheiro não se limitam ao planejamento da rodovia, ele também atua na manutenção e conservação da estrutura. É responsabilidade desse profissional garantir que o pavimento tenha rugosidade suficiente para evitar derrapagens e que os sistemas de drenagem sejam eficazes para impedir a aquaplanagem em dias de chuva. Ele deve liderar ações de conservação do pavimento e dos dispositivos de drenagem para prevenir riscos, além de manter as faixas pintadas e os sistemas de sinalização funcionais.
Por fim, o engenheiro identifica pontos críticos e realiza diagnósticos técnicos de trechos com altos índices de acidentes para propor intervenções e implementar medidas corretivas que aumentem a segurança viária. Em caso de ocorrências graves, profissionais especializados atuam como peritos para reconstruir a dinâmica do acidente, ajudando a identificar falhas na via. Eles elaboram laudos técnicos e analisam se houve problemas na infraestrutura, como falta de sinalização ou panelas, que possam ter contribuído para o sinistro.
Os engenheiros são essenciais para atingir as metas de redução de mortes no trânsito propostas pelo Maio Amarelo, pois eles atuam na raiz do problema. O papel desses profissionais é transformar normas técnicas em soluções práticas que considerem o comportamento humano e os limites físicos dos usuários. Ele trabalha para que a infraestrutura rodoviária seja tolerante a erros, minimizando as consequências de falhas humanas dos condutores e contribuindo para a segurança nas rodovias.
*João Carlos Almeida Júnior é engenheiro civil, especialista na elaboração de projetos geométricos, drenagem e sinalização viária, com vasta experiência no Brasil e no exterior.
