Medicamentos podem comprometer a direção; falsificações ampliam os riscos para motoristas
Produtos adulterados podem conter substâncias desconhecidas e provocar reações inesperadas; especialistas alertam para cuidados antes de assumir o volante.

Tomar um medicamento e assumir a direção pode parecer uma atitude inofensiva, especialmente quando o produto faz parte de um tratamento habitual. Entretanto, determinadas substâncias podem provocar sonolência, tontura, alterações na percepção e redução dos reflexos, comprometendo a capacidade de conduzir um veículo com segurança. Quando o medicamento é falsificado ou adulterado, o risco se torna ainda mais imprevisível, já que o consumidor pode sequer saber o que está ingerindo.
O alerta ganha relevância diante da circulação de medicamentos falsificados no Brasil. A Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) chama a atenção para os perigos desses produtos, que podem apresentar composição diferente da original, substâncias tóxicas ou ausência do princípio ativo necessário ao tratamento.
Conforme informações reunidas na cartilha Falsificação de Medicamentos – Cartilha de Conscientização aos Consumidores, lançada em 2025 com apoio da Interfarma, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e o Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP), o problema representa uma ameaça à saúde pública.
O documento apresenta uma estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) segundo a qual um em cada dez medicamentos comercializados em países de baixa e média renda é falsificado ou de baixa qualidade. O indicador é internacional e não representa especificamente o mercado brasileiro.
Medicamentos falsificados: um risco que pode chegar ao trânsito
Para quem dirige, um dos aspectos preocupantes é a imprevisibilidade dos efeitos de um medicamento adulterado. Dependendo de sua composição, o produto pode provocar reações adversas, deixar de controlar uma condição de saúde ou expor o consumidor a substâncias não declaradas.
“Produtos ilegais imitam embalagens originais, mas não oferecem qualquer garantia de qualidade. Podem estar vencidos, adulterados ou conter substâncias tóxicas, e não produzem o efeito terapêutico esperado”, explica Renato Porto, presidente-executivo da Interfarma.
A entidade também alerta para medicamentos legítimos desviados para canais irregulares de comercialização. Mesmo quando autênticos, esses produtos podem perder suas garantias de qualidade caso sejam armazenados inadequadamente, comercializados fora das condições exigidas ou estejam vencidos.
No contexto da segurança viária, a preocupação não significa que todo medicamento falsificado provoque alterações na direção. O problema é justamente a impossibilidade de prever seus efeitos, especialmente quando não há garantia sobre a composição e a procedência do produto.
Mesmo medicamentos legítimos exigem atenção de quem dirige
O cuidado não deve se limitar aos produtos falsificados. Medicamentos regularmente comercializados também podem interferir na capacidade de condução, dependendo do princípio ativo, da dose utilizada, das características individuais e da interação com outras substâncias.
Alguns antialérgicos, tranquilizantes, medicamentos para dormir e determinados analgésicos, por exemplo, podem provocar sonolência ou reduzir o estado de alerta.
Por isso, antes de dirigir, é importante verificar as advertências presentes na bula e esclarecer com o médico ou farmacêutico se o tratamento pode comprometer a condução.
O cuidado deve ser redobrado no início de um tratamento, após mudanças de dosagem ou quando diferentes medicamentos são utilizados simultaneamente.
Também não é recomendável interromper um tratamento por conta própria para continuar dirigindo. Quando houver efeitos incompatíveis com a condução segura, o ideal é procurar orientação profissional para avaliar as alternativas.
Como identificar um medicamento suspeito?
A cartilha da Interfarma reúne orientações para ajudar os consumidores a reconhecer possíveis irregularidades nas embalagens e na comercialização dos medicamentos.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- Erros de ortografia ou impressão nas embalagens.
- Lacres rompidos ou selos de segurança violados.
- Preços muito abaixo dos praticados no mercado.
- Números de lote ilegíveis ou divergentes entre a caixa e a embalagem interna.
- Comercialização por redes sociais ou estabelecimentos não autorizados.
A Anvisa recomenda adquirir medicamentos exclusivamente em estabelecimentos regularizados, exigir nota fiscal e verificar as informações presentes na embalagem. O consumidor também pode consultar a situação do produto no Sistema de Consulta de Medicamentos da Anvisa
Em caso de suspeita de falsificação, a orientação é não utilizar o medicamento, procurar o fabricante para verificar sua autenticidade e comunicar o caso à vigilância sanitária.
Renato Porto reforça a importância da conscientização da população:
“Educar a população é essencial, mas também precisamos fortalecer as políticas públicas de controle e fiscalização. A falsificação de medicamentos não pode ser tratada como um crime menor; ela ameaça vidas todos os dias.”
O que diz a legislação de trânsito?
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu artigo 165, considera infração gravíssima dirigir sob influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência.
A penalidade prevista é multa multiplicada por dez e suspensão do direito de dirigir por 12 meses, além das medidas administrativas cabíveis.
Isso não significa que o simples uso de um medicamento configure automaticamente uma infração. É necessário observar as características da substância, seus efeitos e as condições previstas na legislação.
Para os motoristas, especialmente aqueles que passam muitas horas ao volante, o cuidado começa antes de iniciar a viagem. Conhecer os efeitos do tratamento, utilizar medicamentos de procedência confiável e respeitar as orientações dos profissionais de saúde são medidas que também contribuem para a segurança no trânsito.
Fonte complementar: Cartilha Falsificação de Medicamentos – Interfarma
