Nova regra obriga empresas a olhar para a saúde mental dos caminhoneiros
Atualização da Norma Regulamentadora nº 1 exige que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo fatores que podem afetar a segurança dos motoristas profissionais.

A saúde mental dos caminhoneiros passou a ganhar mais atenção nas discussões sobre segurança viária e condições de trabalho no transporte rodoviário de cargas. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), empresas do setor passaram a ter a obrigação de identificar e gerenciar riscos psicossociais que possam afetar os trabalhadores, ampliando o conceito de segurança ocupacional para além dos riscos físicos tradicionalmente observados.
A mudança torna obrigatória a inclusão desses riscos nos Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR), exigindo que empregadores mapeiem, avaliem e adotem medidas preventivas para situações capazes de comprometer o equilíbrio emocional dos profissionais.
Entre os fatores que devem ser observados estão a pressão excessiva por resultados, jornadas desgastantes, sobrecarga emocional, assédio e a ausência de suporte organizacional. A proposta é que as organizações acompanhem continuamente esses aspectos e adotem ações preventivas para reduzir o adoecimento relacionado ao trabalho.
Realidade das estradas preocupa
A nova exigência reforça uma preocupação que já faz parte da rotina do transporte rodoviário brasileiro. Dados citados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) mostram que 56% dos caminhoneiros permanecem entre nove e 16 horas por dia ao volante. Além disso, 43,7% trabalham sem uma carga horária definida.
O levantamento também aponta que quase 27% dos motoristas utilizam anfetaminas, conhecidas popularmente como “rebites”, com o objetivo de prolongar o tempo de direção.
Esse cenário evidencia desafios que vão além da infraestrutura das rodovias ou das condições mecânicas dos veículos. Questões relacionadas ao cansaço, ao estresse e à saúde emocional podem influenciar diretamente a atenção dos condutores e a segurança das viagens.
Segurança vai além da fiscalização
Para o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), entidade que reúne mais de 5 mil profissionais especializados no transporte de veículos zero quilômetro em todo o país, o debate precisa considerar a realidade enfrentada pelos motoristas nas estradas.
Conforme o presidente da entidade, José Ronaldo Marques da Silva, conhecido como Boizinho, a discussão sobre segurança no transporte deve incluir as condições de trabalho oferecidas aos profissionais.
“O transporte rodoviário depende diretamente das pessoas. Por isso, é fundamental que as empresas estejam atentas às condições em que os motoristas desempenham suas funções. Planejamento adequado, respeito aos períodos de descanso e valorização do trabalhador contribuem para operações mais eficientes e para a redução de riscos nas rodovias”, afirma.
Especialistas também alertam que fatores como fadiga, privação de sono e pressão constante por produtividade podem comprometer a capacidade de reação dos condutores e aumentar o risco de sinistros.
A situação pode se agravar por longos períodos longe da família, pela insegurança enfrentada em algumas rotas, assim como pela dificuldade de encontrar locais adequados para descanso durante as viagens.
Responsabilidade compartilhada
De acordo com o diretor regional do Sinaceg, Márcio Galdino, a construção de um ambiente mais seguro nas rodovias exige o envolvimento de diferentes atores.
“Existe, sim, uma parcela de responsabilidade individual em alguns casos, mas as empresas também precisam estar atentas às jornadas, às condições operacionais e às necessidades dos carreteiros. Quando o profissional trabalha sob pressão constante, sem planejamento adequado e sem o devido descanso, os riscos aumentam. Segurança no transporte é uma responsabilidade compartilhada entre empresas, trabalhadores e poder público”, afirma.
A avaliação reforça o entendimento de que a prevenção de ocorrências nas estradas depende não apenas do comportamento do motorista, mas também da organização do trabalho e das condições oferecidas para o exercício da atividade profissional.
O que muda com a atualização da NR-1
Na prática, a atualização da NR-1 determina que se monitore os riscos psicossociais de forma permanente dentro das empresas. Isso inclui a identificação de situações que possam provocar sofrimento emocional ou adoecimento, a implementação de medidas preventivas e a avaliação contínua dos resultados obtidos.
Para o setor de transporte, a medida representa um reconhecimento de que a segurança viária está diretamente relacionada ao bem-estar dos profissionais que passam grande parte da vida nas estradas.
A mudança também amplia o olhar sobre a prevenção de riscos. Dessa forma, considerando que fatores emocionais e psicológicos podem ter impacto significativo na tomada de decisões, na atenção e no desempenho dos motoristas durante a condução.
Ao incluir a saúde mental entre os elementos que devem ser gerenciados pelas empresas, a regulamentação reforça a importância de políticas voltadas à qualidade de vida dos caminhoneiros e reconhece que a segurança nas rodovias depende não apenas de veículos em boas condições e estradas adequadas, mas também de profissionais física e emocionalmente preparados para exercer suas atividades.
