22 de janeiro de 2026

Quando o Estado recua, o trânsito mata: o fim das defesas e o aumento das vítimas

Conforme Ygor Valença, a sociedade não percebeu o essencial: o que aconteceu, na prática, foi um retrocesso de quase 30 anos.


Por Artigo Publicado 22/01/2026 às 15h13
Ouvir: 00:00
trânsito mata
Foto: Tiago Ranieri / Ascom Detran-AL

Ygor Valença *

A formação de condutores no Brasil foi, por muitos anos, uma referência. Saímos do modelo de “autoescola” e evoluímos para Centros de Formação de Condutores (CFCs), com regras mais técnicas, mais responsabilidade e mais compromisso com a vida.

Foram quase três décadas de aprimoramento contínuo. O curso teórico deixou de ser apenas 30 aulas e passou a ser estruturado em 45 horas/aula. Foi exigida a contratação de diretor de ensino com formação superior, responsável por planejar conteúdos, elaborar planos de curso e garantir padrão pedagógico.

A carga prática evoluiu de 15 para 20 aulas, e depois para 25, com previsão de aulas noturnas. Mesmo quando essas aulas foram substituídas por simuladores, os CFCs se adaptaram, investiram, se qualificaram e profissionalizaram o processo, acompanhando a evolução das normas e das exigências da sociedade.

Além disso, é impossível ignorar o desmonte na qualificação de quem ensina.

Durante anos, nossos diretores e instrutores eram formados em cursos presenciais com mais de 270 horas/aula, somadas a 20 horas de estágio obrigatório supervisionado. Eram profissionais preparados, avaliados, e que ainda tinham a obrigação de realizar reciclagem a cada cinco anos, justamente para manter o padrão técnico e pedagógico que a formação de condutores exige.

Hoje, isso foi reduzido a um cenário absurdo: qualquer pessoa pode “virar instrutor” em um único dia, por meio de um curso EAD, sem o mesmo rigor, sem vivência prática e sem o mínimo controle de qualidade. Retiraram, inclusive, os exames psicopedagógicos que antes eram exigidos para atestar se o candidato tinha aptidão para atuar como educador no trânsito. E mais: antes, durante o curso, a própria banca avaliadora podia definir se aquele profissional estava apto para ser instrutor teórico, prático ou ambos.

Agora, em poucas horas, às vezes em menos de um dia, ele já sai “habilitado” para ensinar tudo.
Isso não é modernização. Isso é banalização da formação e um risco real para a segurança viária.

Agora, com uma simples canetada, por meio de uma resolução imposta de forma abrupta, todo esse setor foi jogado no caos. E não apenas os Centros de Formação: os próprios Detrans, que têm o dever legal de fiscalizar e organizar o processo, também foram colocados em uma situação de insegurança operacional e institucional.

O problema é que estamos diante de um discurso que, à primeira vista, parece “bonito” e popular: facilitar, baratear, ampliar o acesso.

Quem é contra isso? Só que a sociedade não percebeu o essencial: o que aconteceu, na prática, foi um retrocesso de quase 30 anos.

Nós não estamos modernizando a formação. Estamos desmontando. Estão acabando com a lógica de Centro de Formação de Condutores e empurrando o Brasil de volta ao modelo antigo de “autoescola”, sem o mesmo nível de exigência, controle e estrutura. Não é desburocratização responsável. É populismo.

E o preço do populismo no trânsito sempre é pago com sangue.

Primeiro, o país já vem pagando a conta com a explosão de sinistros envolvendo motocicletas, impulsionada por aplicativos de entrega e transporte de passageiros, muitas vezes sem regulamentação adequada e com pressão por produtividade. Agora, o risco é ampliado: instrutores mal formados, estruturas frágeis e um ambiente perfeito para fraude e improviso, ensinando pessoas que ainda estão aprendendo a conduzir em um trânsito que já não comporta mais imprudência.

O Brasil precisava de mais fiscalização, mais capacitação e mais seriedade. Mas colocaram no lugar disso a “facilidade”, a brecha, o atalho. E quando se cria atalho na formação de condutores, o resultado não é liberdade: é insegurança, que gera mais imprudência que é hoje responsável por mais de 90% das mostres no trânsito.

Quando juntamos imprudência, imperícia e negligência estamos falando em 98% dos sinistros de trânsito no Brasil.

E como se resolve isso? Imprimindo CNH e dando aos supostos 20 milhões de brasileiros que dirigem sem habilitação. Números do próprio governo.

Se hoje morrem mais de 7 pessoas vítimas de sinistros de moto por dia no Brasil, não seria por esse alto índice de condutores não habilitados? Mas aprender, multar e fiscalizar é impopular então a solução é banalizar a formação para formalizar esses informais ou melhor infratores.

As estatísticas não vão melhorar vão continuar a morrer 7 ou mais país de família por dia, mas agora eles estarão habilitados. Faz sentido isso para alguém?

A sociedade foi convencida por uma narrativa. Mas, tecnicamente, institucionalmente e humanamente, o que está acontecendo é um desmonte. E um país que retrocede 30 anos na formação de condutores não avança em mobilidade, ele aumenta o risco, a violência no trânsito e o custo social das tragédias que poderiam ser evitadas.

Fechemoa 2024 com o SUS gastando 449 milhões com vítimas de trânsito e com mais de 36 mil mortes no trânsito, reflitam:

  • 36 mil em 12 meses.
  • 3 mil por mês.
  • 100 por dia.
  • 4 por hora.
  • 2 a cada 30min.
  • 1 a cada 15min.

Isso mesmo em 15 minutos morre uma pessoa vítima da imprudência de um condutor sem preparo.

O que significa que ao acabar de ler essa matéria uma pessoa morreu, vamos rezar para nosso telefone não tocar e não ser um dos nossos. Pois estamos em guerra e as defesas foram todas retiradas. Agora é contar as vítimas e chorar os mortos.

Ygor Valença é ex-presidente da FENEAUTO, presidente do SindCFC-PE e coordenar da CPCFC Fecomércio-PE/CNC

Artigo

Artigo de especialista enviado aos canais do Portal do Trânsito.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *