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Com o trânsito lento, a solução é pedalar 

Com o trânsito lento, a solução é pedalar

Com o IPI reduzido, o número de carros nas ruas cresce e, com eles, o trânsito piora. Por isso, moradores da cidade que trabalham próximos às suas residências passaram a utilizar as bicicletas como meio de transporte. Pelas ruas, é possível notar a presença de inúmeros ciclistas, muitos deles trajando roupas sociais.

O GLOBO-Niterói Sábado conversou com alguns deles e relata, nesta edição, suas necessidades, suas reclamações e os benefícios de quem leva uma vida sobre duas rodas. Cleverson Nunes de Castro, de 48 anos, mora em Santa Rosa e trabalha como sommelier em Icaraí. Há cinco anos, ele sai de casa de manhã, deixa o filho de bicicleta no Unilasalle-RJ e segue para o trabalho.

– Não dá para deixar meu filho de carro no colégio e depois achar uma vaga perto do restaurante. E de ônibus, levamos até 35 minutos. Hoje, economizo uma média de R$ 100 por mês, além do ganho de tempo e saúde – diz.

Para o publicitário César Marques, de 46 anos, a bicicleta é utilizada tanto para ir ao trabalho quanto para visitar os clientes.

– Moro perto do estádio do Caio Martins, em Santa Rosa, e trabalho em Icaraí. Não vou de ônibus, pois, além de demorar mais, carrego na mochila notebook, celular e máquina fotográfica, o que me deixa inseguro. Ainda uso a bicicleta para visitar os clientes – diz Marques, que também faz uma queixa.

– Quando viajo, alugo as bicicletas e sou muito mais respeitado pelos americanos e europeus do que pelos motoristas niteroienses. Parece que estamos atrapalhando o trânsito! E o que é aquela ciclofaixa que fizeram na Estrada Fróes? Alguém vai acabar morrendo ali. É muito perigoso, principalmente para quem desce para Icaraí – diz.

O universitário Gabriel Lannes, de 23 anos, não tem dúvidas.

– Sou de Icaraí e estudo Direito na UFF, no Ingá. Na volta, enquanto os carros estão parados no trânsito, eu chego em dez minutos em casa. Além disso, comprei a bicicleta por R$ 150. Hoje, não preciso gastar dinheiro com passagem de ônibus nem com gasolina todo mês. Acabaria saindo mais caro do que o valor pago pela bicicleta – conclui.

Usuários relatam benefícios físicos e mentais

Aos 36 anos, Elisângela Paludo é chefe de cozinha e, já uniformizada, pega sua bicicleta para ir ao trabalho, em São Francisco, bairro onde também reside. A paisagem da região é um dos maiores atrativos para a profissional, que passou a ficar mais disposta no trabalho após a escolha.

– Quando eu saio de férias e fico sem ir ao trabalho de bicicleta, o meu corpo muda completamente e minha cabeça parece que fica menos ativa. Antes, quando eu ia de ônibus, dava sono no caminho. Agora, já chego a mil por hora – diz.

Enquanto a equipe de reportagem do GLOBO-Niterói Sábado conversava com a chefe de cozinha na ciclofaixa, um carro invadiu o espaço para cortar caminho e quase atropelou a equipe.

– Vocês presenciaram agora um problema recorrente. Eles não estão nem aí. Mesmo na ciclofaixa, ficamos expostos. Dia de semana, com trânsito, é como se a ciclofaixa não existisse para os motoristas. Tirando isso, só temos a ganhar pedalando – considera.

Mais atenção e investimento

Para o gerente de vendas Thiago Araújo Pessanha, de 36 anos, a cidade tem potencial para melhorar o trânsito e fazer com que as pessoas se locomovam mais de bicicleta.

– Há um ano utilizo esse meio de transporte para chegar ao trabalho. Saio do Fonseca e vou até Icaraí. É um investimento de vida – conta Pessanha, ressaltando que sente falta de espaços dedicados para guardar a bicicleta na ruas.

– Na primeira vez que fui de bicicleta para o trabalho, fui roubado. Deixei-a em um local e, na hora do almoço, ela não estava mais lá. Agora aprendi a lição. Guardo a minha bike dentro do prédio onde trabalho, em um espaço seguro. Considero a criação destas áreas de suma importância para a intensificação do hábito de pedalar – diz o gerente de vendas, que resolveu comprar uma bicicleta elétrica para não chegar suado ao trabalho.

Pessanha gasta atualmente 20 minutos para chegar ao trabalho. Mais do que resultados físicos, ele ressalta a melhoria da saúde mental.

– Eu gastava 30 minutos só para estacionar o carro, fora o tempo do percurso. Chegava estressado na empresa. Agora isso acabou. Além de chegar mais cedo, chego mais tranquilo – comenta.

Greve levou estudante a adotar hábito

Com Ian Araújo também não foi diferente. O designer, de 26 anos, já andava de bicicleta desde criança, mas resolveu adotar de vez o transporte após uma greve de ônibus na cidade, quando ainda era universitário.

– No primeiro dia da greve, eu esperei duas horas e peguei o ônibus lotado! No segundo dia, resolvi tirar a bicicleta da garagem e ir à faculdade pedalando. Nunca mais parei, pois vi que a vida de bicicleta é muito mais simples do que parece – garante Araújo.

O jovem considera que a cidade deveria estar mais organizada para os ciclistas. Ele ressalta que, assim como os carros, a atenção também deve estar voltada para os pedestres.

– As pessoas pensam que o maior inimigo do ciclista é o carro, mas também temos que nos preocupar com o pedestre, pois ele pode ficar no caminho sem perceber. Se o ciclista não estiver atento, vai atropelá-lo. – observa o designer, que critica o cruzamento da Rua São Lourenço com a Marquês do Paraná, no Centro.

– A calçada é muito estreita e, por isso, os pedestres acabam fazendo uso da ciclofaixa. Somos obrigados a desviar pela rua, e o espaço perde sua utilidade. É preciso instalar sinalizações pedindo para que as pessoas respeitem. Até porque, para quem vem de fora, é difícil adivinhar que aquela listra vermelha no chão significa um espaço para os ciclistas.

Estrada Fróes é alvo de críticas

Quem também aponta problemas nas vias da cidade é a turismóloga Inglid Santana. Ciclista urbana há seis anos, Inglid utiliza sua bicicleta para se locomover diariamente pela cidade, realizando todas as suas atividades sobre duas rodas. Com a experiência, aprendeu a identificar as dificuldades apresentadas no deslocamento pelas ruas de Niterói e não poupa críticas à ciclofaixa implementada na Estrada Fróes.

– Por ser uma subida cheia de curvas, fica impossível para o motorista ver quem está descendo. A sinalização no chão é pequena. Ela é perigosa e põe em risco a vida de quem pedala ou transita por aquele pista. Muitos motoristas da própria cidade não identificam aquilo como uma ciclofaixa. Precisamos, de fato, estruturar uma ciclovia segura para a cidade – comenta Inglid, salientando outro problema recentemente adquirido na cidade.

– Com a implementação dos corredores viários em locais como a Avenida Roberto Silveira e a Rua Gavião Peixoto, a atenção do ciclista com a própria segurança precisa ser redobrada.

Lei precisa se tornar realidade

Aprovado em maio de 2011, o Estatuto da Bicicleta é considerado um marco importante no incentivo ao uso deste meio de transporte em Niterói. Proposta em maio de 2009, ainda com o nome de Plano Municipal do Transporte Não Motorizado, pelo então vereador Felipe Peixoto, a ideia foi vetada pelo então prefeito Godofredo Pinto e pela Câmara dos Vereadores. Mas em outubro de 2009, o próprio Felipe reapresentou o projeto, com algumas modificações e com o nome de Estatuto da Bicicleta. Passado um ano e meio em vigor, a lei ainda não foi totalmente inserida na rotina da cidade.

– Acho que a cidade abraçou a ideia de se locomover de bicicleta. A aprovação do Estatuto da Bicicleta foi uma marco e um feito inédito no país. As leis precisam se tornar realidade – analisa o hoje deputado estadual Felipe Peixoto.

Apesar do ineditismo da criação do estatuto, usuários como Inglid Saldanha apontam falhas que são comuns na rotina dos ciclistas da cidade.

– Até hoje não vimos o sistema de aluguel de bicicletas sair do papel, assim como a construção de uma ciclovia – diz.

Na aprovação do texto, a Câmara não estipulou prazos para a criação de ciclovias ou ciclofaixas.

– Ainda há muito a ser realizado, como melhorar as ciclofaixas da Zona Sul e do Centro, mas acho que nem todas as responsabilidades precisam ser da NitTrans (Niterói Transportes e Trânsito). No que diz respeito a iniciativas como campanhas de conscientização, a sociedade pode e deve ajudar a implementar essas ideias – comenta Felipe.

– Não se muda o comportamento de uma cidade da noite para o dia. São atitudes e pensamentos de décadas. Apesar das críticas, Inglid também cita pontos positivos e avanços obtidos após a criação do estatuto.

– Houve um aumento de locais para estacionar, os chamados paraciclos, principalmente nas áreas de comércio, que percebeu que desta forma facilitaria a vida de quem usa bicicleta. Outro ponto importante foi o aumento no número dos ciclistas. Isso foi visível para quem, assim como eu, pedala há tanto tempo – observa a turismóloga.

Até o fechamento desta edição a NitTrans não se pronunciou sobre os questionamentos levantados pela reportagem. Avalie esta noticia! 

Fonte: Boa informação


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