25 de setembro de 2026

Mais de 37 mil vidas perdidas: o Dia Nacional do Trânsito deixa uma pergunta para o Brasil

Semana Nacional de Trânsito termina nesta sexta-feira (25), mas números de mortes mostram que o desafio está longe de acabar. Especialistas defendem que segurança viária seja prioridade durante todo o ano.


Por Mariana Czerwonka Publicado 25/09/2026 às 08h15
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Dia Nacional do Trânsito
O Dia Nacional do Trânsito encerra a SNT 2026, mas o desafio permanece: transformar segurança viária em prioridade durante os 365 dias do ano. Foto: joasouza para Depositphotos

Faixas serão retiradas. Campanhas terminarão. Palestras, blitzes educativas e atividades realizadas nos últimos dias chegarão ao fim.

Nesta sexta-feira, 25 de setembro, Dia Nacional do Trânsito, termina também a Semana Nacional de Trânsito 2026.

Mas amanhã, quando setembro caminhar para o fim e a mobilização nacional deixar de ocupar o centro das atenções, ruas e rodovias brasileiras continuarão enfrentando os mesmos desafios.

E os números ajudam a mostrar o tamanho deles.

Os últimos dados consolidados do Ministério da Saúde apontam que 37.150 pessoas morreram em decorrência de sinistros de trânsito no Brasil em 2024.

São, em média, mais de 100 vidas perdidas todos os dias.

Diante dessa realidade, talvez a pergunta mais importante deste Dia Nacional do Trânsito seja simples: o que precisa acontecer para que segurança viária deixe de ser uma campanha e se transforme efetivamente em prioridade nacional?

Uma morte no trânsito a cada 14 minutos

Quando 37.150 mortes são distribuídas ao longo de um ano, o resultado é difícil de ignorar. Em média, uma pessoa morreu no trânsito brasileiro aproximadamente a cada 14 minutos em 2024.

Enquanto você lê esta matéria, milhares de pessoas estão se deslocando para trabalhar, estudar, encontrar familiares ou simplesmente voltar para casa.

É exatamente por isso que as mortes no trânsito não podem ser tratadas apenas como estatística.

Por trás de cada número existe um trajeto que não terminou como deveria.

De acordo com Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata Educacional, a dimensão do problema exige uma resposta proporcional.

“Nós nos acostumamos a ouvir números muito altos sobre o trânsito. Trinta mil, 35 mil, 37 mil mortes. E existe um enorme perigo quando uma sociedade começa a tratar isso como algo normal. Não é normal perder mais de 100 pessoas por dia em deslocamentos que fazem parte da nossa rotina”, afirma.

Quem está mais vulnerável continua pagando o preço mais alto

Entre as 37.150 vítimas fatais registradas em 2024, 15.459 eram motociclistas. Eles representaram 41,6% de todas as mortes.

Também morreram 5.682 pedestres e 1.549 ciclistas.

Somados, motociclistas, pedestres e ciclistas corresponderam a aproximadamente 61% das vítimas fatais.

Os números evidenciam uma característica importante da violência no trânsito brasileiro: uma parcela significativa das mortes está concentrada entre usuários com menor proteção física.

Isso exige políticas específicas.

Infraestrutura adequada, fiscalização, formação, controle da velocidade, proteção aos pedestres e ciclistas, segurança dos motociclistas e melhoria do transporte coletivo fazem parte de um conjunto de medidas que não pode depender apenas de campanhas pontuais.

Não existe uma solução única

Quando ocorre um sinistro grave, é comum buscar imediatamente um responsável. O motorista estava rápido? O motociclista fez uma manobra arriscada? O pedestre atravessou fora da faixa?

Identificar responsabilidades é necessário.

Mas reduzir mortes em escala nacional exige olhar além do comportamento de uma única pessoa.

Um trânsito seguro depende de vias seguras, veículos seguros, velocidades seguras, usuários preparados e atendimento eficiente depois que um sinistro acontece.

É essa combinação que está no centro da abordagem conhecida como Sistema Seguro. Ela parte de uma constatação aparentemente simples: seres humanos erram.

O objetivo, portanto, deve ser construir um sistema no qual esses erros não tenham como consequência inevitável a morte ou uma lesão grave. “Durante muito tempo nós colocamos quase toda a responsabilidade da segurança sobre o usuário: não erre, não se distraia, não faça isso, não faça aquilo. É evidente que comportamento importa muito. Mas um sistema realmente seguro precisa reconhecer que o ser humano vai cometer erros e criar mecanismos para que esses erros não sejam fatais”, explica Mariano.

Educação precisa continuar — mas não pode caminhar sozinha

A Semana Nacional de Trânsito tradicionalmente mobiliza escolas, empresas, órgãos públicos e entidades em torno da educação. Esse trabalho é essencial.

Conhecer as regras, compreender os riscos e desenvolver atitudes seguras fazem parte da formação de qualquer usuário das vias.

Mas esperar que a educação resolva sozinha um problema que envolve infraestrutura, fiscalização, veículos, legislação e políticas públicas seria insuficiente.

Celso Mariano chama atenção para a necessidade de continuidade.

“Para nós, a Semana Nacional de Trânsito acontece 52 vezes por ano. Assim como todos os meses são amarelos, não só o mês de maio. Trânsito faz parte da vida das pessoas todos os dias. Portanto, educação, fiscalização, engenharia e gestão da segurança também precisam estar presentes todos os dias”, diz.

O Brasil já assumiu uma meta

A redução das mortes e lesões no trânsito não é apenas uma aspiração. O Brasil possui o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que estabelece estratégias para reduzir a violência viária e está alinhado ao objetivo de diminuir significativamente mortes e lesões no trânsito até 2030.

Além disso, o próprio Código de Trânsito Brasileiro determina que os órgãos integrantes do Sistema Nacional de Trânsito devem priorizar a defesa da vida.

Ou seja, o país já possui princípios, metas, legislação e conhecimento técnico.

O desafio é transformar esses instrumentos em resultados percebidos nas ruas.

Mais fiscalização? Melhores vias? Educação? A resposta é: tudo isso

Não existe uma medida isolada capaz de resolver a violência no trânsito brasileiro. Reduzir mortes exige ações simultâneas.

  • Exige fiscalização eficiente de comportamentos de alto risco, como excesso de velocidade, álcool e direção e uso do celular.
  • Exige formação adequada dos condutores.
  • Exige vias projetadas para velocidades compatíveis com a presença de pedestres, ciclistas e motociclistas.
  • Exige veículos mais seguros.
  • Exige transporte coletivo de qualidade.
  • Exige atendimento rápido às vítimas.
  • E exige dados confiáveis para que se direcione políticas públicas aos locais e aos grupos onde os riscos são maiores.

“O trânsito seguro não será resultado de uma única grande ação. Ele será construído por muitas decisões coerentes tomadas todos os dias. E isso vale para o cidadão, mas principalmente para quem tem responsabilidade sobre políticas públicas, fiscalização, engenharia e educação”, avalia Mariano.

Quando a campanha termina, começa o verdadeiro teste

Durante oito dias, a Semana Nacional de Trânsito colocou a segurança viária em evidência.

Neste ano, a mensagem escolhida para as campanhas educativas foi “Desacelere. Seu bem maior é a vida.”

Ao longo desta série especial, o Portal do Trânsito mostrou que desacelerar significa muito mais do que reduzir alguns quilômetros por hora.

Significa compreender o efeito da velocidade sobre um impacto.

Perceber como a pressa muda comportamentos.

Enxergar motociclistas, pedestres e ciclistas.

Repensar a forma como se organizam as cidades.

Construir vias que favoreçam escolhas seguras.

E reconhecer que nenhuma pessoa deveria morrer simplesmente porque precisava se deslocar.

A pergunta que fica depois de 25 de setembro

No Dia Nacional do Trânsito, campanhas são importantes. Frases de conscientização também.

Mas o resultado que realmente importa não está na quantidade de ações realizadas durante uma semana.

Está na quantidade de vidas que deixarão de ser perdidas nos próximos anos.

Celso Mariano resume o desafio:

“Uma campanha de trânsito só faz sentido se conseguir sobreviver ao calendário. O verdadeiro resultado não aparece no número de palestras, cartazes ou publicações. Aparece quando conseguimos mudar comportamentos, melhorar o sistema e, principalmente, fazer com que mais pessoas voltem para casa em segurança.”

A Semana Nacional de Trânsito 2026 termina hoje. O compromisso que ela propõe não pode terminar junto.

Porque, diante de mais de 37 mil mortes em um único ano, talvez o Brasil já saiba muito sobre o que precisa fazer.

A pergunta agora é quanto estamos dispostos a transformar esse conhecimento em prioridade.

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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