Exame da CNH mudou, trânsito não: deixou de ser obrigatório, mas deixou de ser importante?
Mudanças no exame da CNH retiraram exigências formais, mas habilidades essenciais seguem indispensáveis para a segurança no trânsito.

Nos últimos meses, o processo de habilitação para novos condutores no Brasil passou por mudanças relevantes. Com a retirada da obrigatoriedade de algumas etapas formais da formação — como a mediação integral do Centro de Formação de Condutores (CFC) e a padronização de determinadas manobras no exame prático —, ganhou força a interpretação de que a CNH teria se tornado “mais fácil”. Mas a pergunta central permanece: o que deixou de ser obrigatório também deixou de ser importante?
A resposta exige cautela. Embora o caminho até a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) esteja mais flexível, a responsabilidade de dirigir com segurança segue exatamente a mesma. As regras de circulação, as penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro e as consequências de uma condução inadequada não mudaram.
O que mudou no processo de habilitação
Com as novas diretrizes, o candidato passou a ter mais autonomia sobre como se preparar. O curso teórico presencial, nos moldes tradicionais, deixou de ser obrigatório, e o exame prático passou por ajustes, priorizando a condução em contexto mais amplo. Em alguns estados, manobras específicas deixaram de ser exigidas da forma clássica.
Isso não significa, porém, o fim da avaliação. As provas teórica e prática continuam existindo e seguem sendo eliminatórias. O que mudou foi o percurso até o exame — não o fato de que o candidato precisa demonstrar conhecimento, habilidade e comportamento compatíveis com a condução segura.
O que continua sendo exigido
Mesmo com menos imposições formais, o condutor permanece submetido às mesmas normas. Multas, pontos, suspensão e cassação da CNH continuam valendo. Na prática, o Estado flexibilizou o acesso, mas não reduziu o peso da responsabilidade individual.
É nesse ponto que surge uma leitura equivocada: a ideia de que, se algo deixou de ser obrigatório, tornou-se dispensável. No trânsito, essa lógica não se sustenta. Dirigir exige competências técnicas, cognitivas e comportamentais que não surgem espontaneamente — e que não se resumem a “passar na prova”.
Formação não é sinônimo de exame
A aprovação no exame prático não garante, por si só, preparo para enfrentar o trânsito real. Tomada de decisão sob pressão, leitura de risco, convivência com motociclistas, ciclistas e pedestres e respeito à coletividade são habilidades que demandam orientação e prática estruturada.
Para o especialista em trânsito Celso Mariano, a formação sempre teve papel central na segurança viária. “O trânsito é um ambiente social complexo. Quando se reduz a formação a um treinamento para o exame, perde-se a oportunidade de preparar o condutor para situações reais do dia a dia”, avalia. Segundo ele, dirigir vai além do domínio do veículo: envolve percepção, responsabilidade e comportamento.
Onde entra a tecnologia nesse novo modelo
A flexibilização também reacendeu o debate sobre o uso da tecnologia na formação. Plataformas digitais, ensino remoto e conteúdos on-line passaram a ser vistos como alternativas rápidas para a preparação aos exames. O alerta de especialistas, porém, é claro: tecnologia, sozinha, não forma condutores.
“Ferramentas tecnológicas podem ser grandes aliadas, desde que façam parte de um método pedagógico consistente, com acompanhamento e orientação qualificada”, explica Celso Mariano. Sem isso, o risco é transformar a formação em um processo fragmentado, focado apenas na memorização de regras.
Aprender a dirigir envolve interpretar cenários, antecipar riscos e construir atitudes seguras — competências que exigem feedback, mediação humana e prática contextualizada.
O que não é exigido na prova, mas é essencial no dia a dia
Aqui vale um alerta importante: o fato de não se exigir mais uma habilidade no exame prático não significa que ela deixou de ser necessária. Pelo contrário.
Manobras como a baliza seguem sendo essenciais no cotidiano. Entrar e sair de vagas de estacionamento pode gerar danos materiais, conflitos com outros veículos e até risco a pedestres quando feito de forma inadequada. O mesmo vale para situações que nunca foram cobradas diretamente no exame prático, como realizar ultrapassagens seguras em rodovias — uma manobra que exige leitura correta da via, cálculo de tempo e distância e respeito às regras de segurança.
No caso das motocicletas, uma mudança que chama atenção é a retirada da tradicional arrancada em rampa do exame prático. Ainda que não se cobre mais essa manobra, ela continua sendo uma habilidade fundamental para o dia a dia do motociclista. Controlar a moto em aclives, especialmente em vias urbanas, é decisivo para evitar quedas, colisões e perdas de equilíbrio. Não será exigido na prova, mas precisa ser aprendido — sobretudo por uma questão de segurança.
Esses exemplos deixam claro que o exame avalia apenas parte das competências necessárias para conduzir um veículo. A realidade do trânsito exige preparo muito mais amplo, que não pode ser limitado ao que é cobrado formalmente.
O risco da “CNH sem formação”
Outro aspecto pouco discutido é o impacto dessas mudanças no médio e longo prazo. Um sistema que facilita o acesso, mas não estimula a formação adequada, tende a transferir o custo para o trânsito como um todo. Condutores mal preparados aumentam conflitos entre modais, comprometem a fluidez e contribuem para estatísticas de sinistros que o país ainda tenta reduzir.
Como reforça Celso Mariano, “dirigir não é um direito absoluto, mas uma concessão condicionada à capacidade de conviver em um espaço compartilhado”. Nesse contexto, a formação deixa de ser um requisito burocrático e passa a ser entendida como investimento em segurança coletiva.
As mudanças no processo de habilitação redesenharam o caminho, mas não alteraram a realidade do trânsito brasileiro. A retirada de obrigatoriedades formais não elimina a necessidade de preparo — apenas desloca a responsabilidade da imposição legal para a escolha consciente do candidato. Em um sistema mais flexível, a formação não perde importância; ela se torna ainda mais decisiva. Afinal, o trânsito não flexibiliza consequências. E a segurança viária continua dependendo, essencialmente, de quem está atrás do volante.

Tenho licença de condução à 45 anos portuguesa, As provas de condução feitas são em trânsito real. Só tem uma diferença são mais educados e esperam que estacionem, e nas passadeira todos param vendo um pedestre, aqui ninguém respeita pois se respeita sem não estaria com medo das novas regras de aprendizagem
Se fazer baliza fosse realmente importante, não deveria se usar cones para a manobra, afinal onde estariam esses “cones” na vida real?
Manobra esta que no fim das contas só beneficiava os Detrans e auto escolas pilantras com as reprovações! Mas concordo que as mudanças atuais não vão resolver os problemas no nosso trânsito. Nosso problema é mesmo falta de educação, e não só para o trânsito!
As mudança que eram oara reduzir valores, ainda não está em vigor, ou os CFCs estão com valores abusivos para compensar e não sentir nenhuma perda da rentabilidade. Estão cobrando até 240 por 2 aulas obrigatórias qdo a aula individual era 70,00. Aí da tem a taxa do curso teórico e não consta orçamento nem orientação da opção do curso teórico EAD.