Anuário da PRF revela mais de 6 mil mortes em rodovias federais em 2025
Levantamento mostra alta letalidade em pistas simples, crescimento gradual das mortes e concentração de sinistros em grandes corredores rodoviários do país.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulgou, neste mês, seu mais recente Anuário Estatístico que traça um retrato preocupante das rodovias federais brasileiras em 2025. Mesmo distante dos piores momentos da série histórica, o país ainda registrou 72.529 sinistros, 83.550 pessoas feridas e 6.043 mortes nas BRs federais ao longo do último ano.
Os dados mostram que, após uma forte queda observada até 2020, os índices de violência no trânsito voltaram a crescer gradualmente nos últimos anos. O cenário reforça o desafio brasileiro de reduzir de forma consistente a mortalidade nas estradas, apesar do aumento da fiscalização, da tecnologia embarcada nos veículos e das campanhas de conscientização.
Além dos números absolutos, o anuário chama atenção para fatores estruturais e comportamentais que seguem influenciando diretamente a gravidade dos sinistros, como pistas simples, excesso de velocidade, falhas de percepção dos condutores e colisões frontais.
Série histórica mostra queda em relação ao passado, mas tendência preocupa
A análise histórica apresentada pela PRF mostra que o Brasil atingiu seu pico de violência nas rodovias federais entre 2010 e 2012. Em 2011, por exemplo, foram registrados:
- 192.322 sinistros;
- 106.827 feridos;
- 8.675 mortes.
Em 2020, durante a pandemia e com menor circulação nas estradas, o país chegou ao menor patamar da série histórica, com 5.292 mortes. Já em 2025, o número voltou a ultrapassar 6 mil óbitos.
Embora os indicadores atuais estejam abaixo dos registrados há mais de uma década, especialistas alertam que o crescimento gradual observado após 2020 merece atenção.
Para Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, o país parece enfrentar uma espécie de estagnação na segurança viária. “O Brasil conseguiu reduzir significativamente os números ao longo dos últimos anos, mas agora enfrenta dificuldade para avançar além disso. Isso mostra que fiscalização e campanhas são importantes, mas talvez já não sejam suficientes sozinhas”, avalia.
Minas Gerais, Paraná e Bahia lideram número de mortes
O anuário mostra que Minas Gerais continua concentrando os piores indicadores de sinistralidade do país. O estado liderou o número de mortes em rodovias federais em 2025, com 765 óbitos registrados.
Na sequência aparecem:
- Paraná: 593 mortes;
- Bahia: 583;
- Santa Catarina: 434;
- Pernambuco: 336.
Os dados refletem não apenas o tamanho territorial dos estados, mas também a intensidade do fluxo rodoviário, a presença de corredores logísticos e a concentração de veículos pesados.
No caso do Paraná e de Santa Catarina, por exemplo, rodovias federais convivem diariamente com tráfego intenso de cargas, turismo e deslocamentos urbanos.
BR-101 e BR-116 continuam entre as mais críticas
As BRs 101 e 116 seguem concentrando o maior volume de sinistros do país. Segundo a PRF, essas rodovias continuam sendo os principais corredores de ocorrências em nível nacional.
O trecho da BR-101 em Santa Catarina aparece como o segmento com maior número de sinistros do Brasil, com 4.222 registros em 2025. Já a BR-381, em Minas Gerais, foi apontada como a mais letal, contabilizando 158 mortes no período.
A combinação entre tráfego intenso, circulação de caminhões, áreas urbanizadas e alto fluxo diário ajuda a explicar os índices elevados.
Pistas simples seguem muito mais letais
Um dos dados que mais chamam atenção no levantamento da PRF envolve o tipo de pista. Embora o número de sinistros em pistas simples e duplas seja relativamente próximo, a diferença no número de mortes é expressiva:
- pistas duplas: 30.782 sinistros e 1.603 mortes;
- pistas simples: 34.733 sinistros e 4.143 mortes.
Na prática, isso significa que a chance de um sinistro resultar em morte é muito maior em rodovias sem separação física entre os fluxos.
O dado amplia o debate sobre infraestrutura viária e segurança no trânsito brasileiro.
“Quando uma falha acontece em pista simples, normalmente o impacto é muito mais severo. O sistema viário precisa ser pensado para reduzir as consequências do erro humano”, explica Celso Mariano.
Colisão frontal continua sendo a mais fatal
A colisão traseira aparece como o tipo de sinistro mais frequente nas rodovias federais, com 14.360 registros em 2025.
No entanto, a colisão frontal continua sendo disparadamente a mais letal. Mesmo ocupando apenas o quinto lugar em frequência, ela provocou 1.863 mortes ao longo do ano.
Os atropelamentos de pedestres também preocupam. Foram 919 mortes para um total de 3.057 ocorrências.
De acordo com especialistas, esses dados reforçam como determinados tipos de sinistros possuem potencial destrutivo muito maior, especialmente em ambientes rodoviários de alta velocidade.
Falhas humanas lideram causas dos sinistros
O anuário mostra que fatores ligados ao comportamento e à percepção dos condutores continuam predominando entre as principais causas de sinistros.
A “ausência de reação do condutor” liderou o ranking, com 11.469 ocorrências e 855 mortes. Já a “reação tardia ou ineficiente” apareceu em 10.799 sinistros.
Outro dado que chama atenção é o número de mortes relacionadas a veículos transitando na contramão. Embora menos frequente, essa conduta foi responsável por 961 mortes em 2025, tornando-se a causa mais letal proporcionalmente.
Velocidade incompatível e ingestão de álcool também seguem entre os fatores críticos apontados pela PRF.
Educação e prevenção seguem como desafio
Além da fiscalização, o anuário destaca programas educativos desenvolvidos pela PRF, como o Cinema Rodoviário, o Educar PRF e o Festival de Teatro para o Trânsito (FETRAN).
As iniciativas buscam promover mudança de comportamento e conscientização sobre riscos no trânsito, especialmente entre crianças, adolescentes e motoristas profissionais.
Para Mariano, porém, os números mostram que o Brasil ainda precisa aprender a transformar estatísticas em políticas permanentes de prevenção.
“Fiscalização é importante, mas ela precisa caminhar junto com investimentos em infraestrutura, educação para o trânsito e planejamento viário para que as mortes nas rodovias realmente diminuam de forma consistente”, afirma Celso Mariano.
