23 de outubro de 2026

As cidades brasileiras falharam em proteger os usuários mais vulneráveis do trânsito?

Dados do Atlas da Violência levantam questionamentos sobre infraestrutura, planejamento urbano e capacidade das cidades de acompanhar as mudanças na mobilidade.


Por Mariana Czerwonka Publicado 23/10/2026 às 08h15
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usuários vulneráveis
O Atlas mostra que o trânsito brasileiro vive uma transição importante. Foto: [email protected] para Depositphotos

As ruas e avenidas brasileiras mudaram rapidamente nos últimos anos. A presença crescente de motocicletas alterou a dinâmica da mobilidade urbana, transformou hábitos de deslocamento e redefiniu o perfil das vítimas da violência no trânsito. Mas será que as cidades acompanharam essa mudança e estão preparadas para proteger os usuários mais vulneráveis do trânsito?

Os dados do Atlas da Violência 2026 sugerem que não. O relatório do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que motociclistas estiveram envolvidos em 41,6% das 37.150 mortes registradas no trânsito brasileiro em 2024. Entre 2019 e 2024, os óbitos em sinistros com motos cresceram 38%, passando de 11.182 para 15.459 vítimas fatais.

Embora o documento não atribua diretamente essa realidade à falta de infraestrutura, os números levantam uma questão inevitável: o sistema viário brasileiro está preparado para proteger os usuários mais vulneráveis?

Uma nova mobilidade, velhos desafios

A motocicleta ganhou protagonismo nas cidades brasileiras impulsionada por fatores econômicos e sociais. Tornou-se alternativa de deslocamento, ferramenta de trabalho e solução para milhões de pessoas.

No entanto, a expansão do uso das motos ocorreu em um ambiente urbano que, muitas vezes, permaneceu praticamente inalterado.

Vias projetadas sob a lógica do automóvel, ausência de espaços seguros, conflitos entre diferentes modais e fiscalização limitada ajudam a compor um cenário desafiador para quem circula sobre duas rodas.

Em regiões Norte e Nordeste, onde a motocicleta assumiu papel ainda mais relevante, os impactos são mais evidentes. No Piauí, por exemplo, as motos estiveram presentes em 72,7% das mortes no trânsito registradas em 2024.

O sistema precisa proteger quem mais corre riscos

Para Celso Mariano, os dados do Atlas reforçam um princípio básico da segurança viária moderna: o sistema deve oferecer maior proteção justamente a quem está mais exposto.

“Quando uma mudança tão significativa acontece na forma como as pessoas se deslocam, as cidades precisam responder. Se a motocicleta ganhou protagonismo, mas a infraestrutura continua sendo planejada para outra realidade, o resultado acaba aparecendo nas estatísticas.”

Conforme ele, a responsabilidade pela segurança não pode recair exclusivamente sobre o indivíduo. “Esperar que apenas o comportamento humano resolva o problema é ignorar a complexidade do trânsito. O sistema precisa reconhecer que existem usuários mais vulneráveis e criar mecanismos para reduzir a gravidade dos sinistros.”

Essa lógica está alinhada aos princípios da Visão Zero. Essa é uma abordagem internacional que entende que erros humanos são inevitáveis e que o ambiente viário deve ser capaz de minimizar suas consequências.

Segurança viária exige planejamento

O Atlas mostra que o trânsito brasileiro vive uma transição importante. As motos ocupam papel central na mobilidade, mas as respostas institucionais ainda caminham em ritmo mais lento.

Para especialistas, enfrentar esse cenário exige ações integradas que envolvam diferentes áreas da administração pública.

Planejamento urbano, educação para o trânsito, fiscalização eficiente, melhoria da infraestrutura e fortalecimento das políticas de prevenção precisam atuar de forma complementar.

De acordo com Mariano, o desafio é abandonar soluções isoladas.

“Não existe resposta única para um problema tão complexo. Reduzir mortes exige continuidade nas políticas públicas e capacidade de adaptar as cidades às transformações da mobilidade.”

O que os números revelam

Ao dedicar um capítulo específico à violência no trânsito, o Atlas da Violência 2026 reforça que os sinistros viários não podem ser tratados como fatalidades inevitáveis.

Os dados mostram tendências, identificam vulnerabilidades e apontam a necessidade de repensar prioridades.

Mais do que registrar estatísticas, o relatório convida gestores públicos e a sociedade a refletirem sobre uma pergunta essencial: estamos construindo cidades capazes de proteger as pessoas que mais precisam?

Enquanto essa resposta permanece em aberto, milhares de brasileiros continuam pagando com a própria vida o preço de um sistema que ainda luta para acompanhar as mudanças da mobilidade contemporânea.

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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