Brasil terá centro nacional para investigar sinistros graves e prevenir mortes no trânsito
Nova estrutura do Ministério dos Transportes vai analisar ocorrências graves, identificar fatores de risco e apoiar políticas públicas de segurança viária.

O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024. Diante desse cenário, o Ministério dos Transportes anunciou a criação do Centro Nacional de Estudos de Sinistros de Trânsito (Cnest), uma estrutura voltada à análise técnica de ocorrências graves nas vias brasileiras com foco na prevenção de mortes e lesões.
A iniciativa foi oficializada nesta semana e será coordenada pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). A proposta é ampliar a capacidade do país de entender as causas dos sinistros de trânsito e transformar essas informações em medidas concretas de segurança viária.
O novo centro terá atuação técnico-científica e preventiva. Ou seja, o objetivo não será apontar culpados ou responsabilidades pelos sinistros, mas sim identificar fatores contribuintes, padrões de risco e circunstâncias que possam orientar políticas públicas e ações de prevenção.
Como funcionará o novo centro
De acordo com o Ministério dos Transportes, o Cnest será responsável por estudar sinistros de relevância nacional, especialmente aqueles com grande impacto social ou elevado número de vítimas. A ideia é utilizar metodologia semelhante à empregada na aviação civil, em estruturas como o Cenipa, que investiga acidentes aeronáuticos para prevenir novas ocorrências.
Os estudos deverão produzir diagnósticos, relatórios técnicos e recomendações voltadas à redução de mortes e lesões no trânsito brasileiro. O centro também poderá reunir especialistas, representantes de órgãos públicos e entidades da sociedade civil para contribuir com análises e pesquisas.
A criação do Cnest ocorre em um momento em que o país ainda enfrenta números elevados de violência no trânsito. Segundo os dados divulgados pelo governo federal, além das 37 mil mortes registradas em 2024, os sinistros geram impactos econômicos e sociais bilionários. Estimativas do Banco Mundial apontam que os custos relacionados às ocorrências chegam a R$ 310 bilhões por ano, o equivalente a cerca de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
Impacto na saúde pública
Os efeitos da violência viária também pressionam o sistema de saúde. Informações do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) indicam crescimento de 49% nas internações relacionadas a sinistros de trânsito entre 2012 e 2024.
Nesse contexto, a criação de um centro especializado em estudos de sinistros pode representar um avanço na produção de dados qualificados e na identificação de falhas estruturais, comportamentais e operacionais que contribuem para as ocorrências nas vias brasileiras.
Além disso, o projeto está alinhado às diretrizes do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que prevê reduzir em pelo menos 50% o índice nacional de mortes no trânsito até 2030.
Segurança viária baseada em dados
A proposta reforça uma tendência cada vez mais discutida na segurança viária: a necessidade de políticas públicas baseadas em evidências e análise técnica aprofundada dos sinistros.
Na prática, isso significa olhar além da infração isolada ou da responsabilização individual e compreender o conjunto de fatores envolvidos em uma ocorrência grave, como infraestrutura viária, sinalização, condições do veículo, comportamento humano e falhas sistêmicas.
O modelo também segue princípios internacionais como Visão Zero e Sistemas Seguros, estratégias que defendem que nenhuma morte no trânsito deve ser considerada aceitável.
Para especialistas da área, iniciativas desse tipo ajudam a transformar dados em ações concretas de prevenção, permitindo intervenções mais eficientes e direcionadas para reduzir a violência no trânsito brasileiro.
