14 de junho de 2026

Rodovias federais têm mais de 13 mil pontos de risco para exploração sexual, aponta Mapear

Em sua 11ª edição, levantamento da PRF e Childhood Brasil identifica uma queda de 22,2% na criticidade dos locais avaliados, reflexo do aprimoramento metodológico nos últimos anos.


Por Assessoria de Imprensa Publicado 14/06/2026 às 08h15
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fiscalização exploração sexual
PRF fiscaliza pontos vulneráveis mapeados pelo Projeto MAPEAR. Foto: Divulgação PRF

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Childhood Brasil, — organização sem fins lucrativos, pioneira no enfrentamento de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes — acabam de lançar a cartilha do Projeto Mapear 2025/2026, na Sede Nacional da PRF, em Brasília (DF). Em sua 11ª edição, foram mapeados 13.758 pontos vulneráveis em rodovias federais que podem representar riscos às crianças e adolescentes, uma queda de 22,2% quando comparado ao biênio anterior (com 17.687 indicações). O índice é reflexo de uma forma mais refinada de apuração, fruto do aprimoramento metodológico e do uso de georreferenciamento de precisão, o que permite um diagnóstico cada vez mais rigoroso da realidade em campo.

As estatísticas incluem, entre outros locais, estabelecimentos comerciais, hotéis, motéis e postos de combustíveis às margens das rodovias federais entre os pontos mapeados. A cartilha do Projeto Mapear reúne quatro níveis de risco à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (ESCA): baixo, médio, alto e crítico e aponta uma queda na criticidade dos locais avaliados. Os pontos críticos recuaram de 4,56% para 3,29%, e os de alto risco de 14,51% para 13,50%. A classificação não significa ocorrência comprovada do crime, mas a presença de fatores de risco associados.

Níveis de riscoPontos vulneráveis (2023/2024)   Pontos vulneráveis (2025/2026)
Baixo9.0777.135  (51,86%)
Médio5.23743,13 (31,35%)
Alto2.5661.858 (13,50%)
Crítico807452 (3,29%)

Entre as causas para a redução dos índices em comparação ao biênio anterior está a expansão digital.

Redes sociais e aplicativos facilitam o aliciamento e o consumo de conteúdos sexuais sob um suposto anonimato, alterando a dinâmica tradicional nas rodovias. Contudo, embora a presença explícita de vítimas à beira das rodovias tenha reduzido, o fenômeno da ESCA tornou-se mais complexo e fluido. A persistência de 452 pontos críticos confirma que a vulnerabilidade física permanece um desafio real, exigindo que a PRF mantenha uma presença constante e estratégias de inteligência cada vez mais sofisticadas. 

Em 2025, o mapeamento identificou 13.758 pontos de interesse do Projeto Mapear nas rodovias federais. Em números absolutos, a região Nordeste concentra o maior volume (5.944), seguida pelo Sudeste (3.393), Sul (1.822), Norte (1.455) e Centro-Oeste (1.144). Entre os estados, destacam-se em volume total o Piauí (2.533), Minas Gerais (2.170) e Santa Catarina (928). Em relação à distribuição por zonas ao longo da malha viária, foram mapeados 8.973 pontos em Área Urbana (65,2%) e 4.785 pontos em Área Rural (34,8%). 

A cartilha também identifica, em números absolutos, as unidades da federação que se destacam em termos de criticidade dos locais mapeados.

Somados os pontos críticos e de alto risco, Minas Gerais ocupa o primeiro lugar no ranking dos estados mais vulneráveis. 

Unidade da federação com maior vulnerabilidadePontos críticos + alto risco(2025/2026)
Minas Gerais283
Santa Catarina215
Bahia 192
Rio de Janeiro156
São Paulo136

O Projeto Mapear 2025/2026 destaca ainda o trabalho de Inteligência como eixo estratégico do mapeamento, interferindo positivamente nos cenários apresentados. O emprego de Inteligência no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes (ESCA) foca no “levantar para prevenir e enfrentar”. Assim, transformando dados brutos em conhecimento, que subsidia ações repressivas e preventivas com maior assertividade. A nova cartilha traz também um marco: a transição para o Mapear 2.0, cujo foco recai sobre o uso estratégico da tecnologia e de ferramentas de análise para aplicar recursos humanos em alvos prioritários, acompanhando as mudanças no modus operandi dos criminosos, inclusive no ambiente digital.  

Para Fernando Oliveira, diretor-geral da PRF, o Mapear consolidou-se como uma das experiências mais exitosas de policiamento preventivo no país. 

“A eficácia da atuação estatal reside na capacidade de antecipar riscos e, por isso, a PRF busca sempre inovar e ampliar esta rede de proteção. É preciso que esta ferramenta seja compartilhada com quem também tenha este olhar de proteção voltado às pessoas vulnerabilizadas, mas não só nas rodovias federais”, disse o gestor.   

A diretora de Operações da PRF, Nadia Zilotti, que esteve à frente da Diretoria de Inteligência da PRF durante todo 2025, reforça o impacto do trabalho orientado no combate à ESCA. “A Inteligência atua como o ‘catalisador’ por trás das estatísticas, permitindo que o Projeto evolua de um diagnóstico estático para uma ferramenta de análise preditiva, inclusive para o combate de crimes conexos, como o tráfico de pessoas”, explicou Zilotti.

A coordenadora-geral de Direitos Humanos da PRF, Fernanda Souza, fala sobre o futuro e o papel da instituição como guardiã da dignidade humana.

“A atuação integrada, que envolve Inteligência, operações e sociedade civil, é a via para transformar nossas BRs em caminhos de liberdade e segurança para as crianças e  adolescentes de hoje e das futuras gerações”, afirma. “Nosso desafio será sempre  converter a indignação institucional em eficiência técnica”, completa Fernanda. 

Projeto Mapear e o combate ao crime

A PRF utiliza o Projeto Mapear desde 2003 para definir diretrizes e ações no enfrentamento aos crimes sexuais contra menores de idade. Com as informações reunidas e disponibilizadas ao efetivo, a instituição atua na prevenção, por meio de campanhas educativas e de conscientização nos locais mapeados, e repressão, com a identificação de suspeitos e operações específicas, como a Domiduca, que resgata menores em situação de vulnerabilidade. 

O projeto é desenvolvido pela Diretoria-Executiva da PRF. Para o diretor-executivo da instituição, Alberto Raposo, o Mapear é uma ferramenta de sucesso para o enfrentamento ao crime de exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais. “A partir do momento em que o PRF, no trabalho operacional, identifica e registra o possível ponto de vulnerabilidade na rodovia, os demais policiais podem consultar as informações e atuar na prevenção. A PRF está à disposição das demais instituições de segurança pública para apoiar na implementação do projeto”, afirmou. 

Nos anos de 2024 e 2025, a PRF realizou 86 edições da Operação Domiduca em todo o país. As ações de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade fiscalizaram 16.592 pontos e possibilitaram o resgate de 111 crianças e adolescentes. No ano passado, cerca de 90 mil pessoas foram alcançadas em ações preventivas e educativas, trabalho que pode ter contribuído para a diminuição da vulnerabilidade imediata e, possivelmente, influenciado a redução de ocorrências e flagrantes nos pontos fiscalizados. 

PRF e Childhood Brasil

Desde 2009, a Childhood Brasil atua em parceria com a PRF na consolidação dos dados obtidos no mapeamento das rodovias federais. O objetivo é jogar luz na situação encontrada nas rodovias federais e, a partir daí, fazer atuações preventivas e repressivas mais eficazes.

De acordo com Eva Dengler, Superintendente de Programas da Childhood Brasil, o levantamento fornece subsídios importantes para a atuação das forças de segurança e para as estratégias sociais do Programa Na Mão Certa — mobilização do setor privado dedicada ao enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras. “Os relatórios produzidos pelo projeto são fundamentais para mapear os territórios de maior vulnerabilidade e orientar, de forma mais eficiente, a atuação de empresas e do poder público em regiões como áreas portuárias e grandes entroncamentos rodoviários”, destaca. 

Por meio do Pacto Empresarial, o programa engaja empresas de transporte e logística para transformar caminhoneiros em agentes de proteção, utilizando educação continuada e principalmente, o monitoramento de pontos vulneráveis realizado em parceria com a Polícia Rodoviária Federal por meio do Projeto Mapear. 

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