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Motoristas e passageiros movidos pelo estresse 

Por oito anos como motorista de ônibus, ele sentiu na pele o estresse provocado pela relação conturbada com passageiros. O enredo é sempre o mesmo: de um lado, a reclamação sobre o serviço prestado; do outro, justificativas que quase sempre apontam para o acúmulo de funções — dirigir e cobrar ao mesmo tempo — e a carga horária de trabalho dobrada. Decidido a mudar “da água para o vinho”, como ele mesmo diz, Júlio Cesar Mendes da Silva, de 32 anos, agora é caminhoneiro de uma indústria de bebidas. “Fiz essa mudança para não enlouquecer. Ser motorista de ônibus no Rio não é para qualquer um. Chega um momento que juntam o estresse e o cansaço, e não dá mais para continuar”, desabafa Júlio, que considera seu maior ganho ter mais tempo livre para o filho. “Além do domingo de folga, tenho outro descanso semanal. Isso nunca aconteceu comigo quando era motorista de ônibus”, completa. O assunto preocua o setor. Uma pesquisa feita com 1,3 mil motoristas, a pedido da Fetranspor, no ano passado, revelou que a relação conturbada com o passageiro é o segundo motivo mais citado para que um motorista desista da profissão. A resposta foi dada por 25% dos entrevistados. Em primeira posição, está o estresse psicológico associado ao trânsito — 40%. E em terceiro lugar, problemas com a própria empresa. Os passageiros também sofrem. Por imprudência de um motorista, a aposentada Célia Bonfim, de 58 anos, carrega até hoje sequelas no rosto e na perna, adquiridas num grave acidente há sete anos. Ela viajava no ônibus da linha 363 (Vila Valqueire-Praça 15) com outras 30 pessoas quando o condutor dormiu ao volante. “Os passageiros gritavam: ‘Acorda, motorista!’. Não sei se foi falta de experiência dele ou cansaço. Fiquei traumatizada”, contou Célia, que precisou passar por seis cirurgias. “Meu rosto bateu no ferro da frente e ficou desfigurado”. Canteiros de obras e mais carros na rua: combustíveis para as brigas Os canteiros de obras espalhados pela cidade podem ser um dos motivos para explicar o acirramento de brigas entre passageiros e motoristas. Afinal, eles dificultam o escoamento do tráfego. Consultor da Fetranspor para estudar a sociologia do trânsito, o antropólogo Roberto da Matta acredita que este é um aspecto novo, porém importante, para avaliar a rotina estressante dos motoristas de ônibus que circulam pelo Rio de Janeiro. Segundo ele, o aumento do número de automóveis andando pela cidade também põe mais pressão no trânsito. A implantação de sistemas como o BRS, por sua vez, demanda uma nova postura de motoristas e passageiros, diz. “O Rio está sendo remodelado por obras, mas, ao mesmo tempo, não há uma preparação da cidade para essas mudanças. Falta propaganda do governo para informar sobre as alterações, dizer que o caminho vai ficar mais longo, mais curto, que ônibus não vai parar mais naquele ponto. É possível, sim, fazer o cidadão internalizar regras. E o administrador público tem um papel fundamental nisso”, comenta Roberta da Matta, autor do livro ‘Fé em Deus e Pé na Tábua: Ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil’. Novas razões para largar a direção A pesquisa mostrou que o receio com episódios de violência, como assaltos, roubos e sequestro, reduziu drasticamente entre os motoristas. Se no levamento feito em 2010 o quesito aparecia em segundo lugar como motivo mais citado para o profissional deixar a carreira, em 2012 o assunto teve menos de 10% de citações entre os entrevistados. Para a diretora de Gestão de Pessoas da Fetranspor e da Universidade Corporativa do Transporte, Ana Rosa Bonilauri, uma das possíveis explicações é a implantação de políticas de segurança, com a instalação de UPPs, que teria provocado uma sensação maior de tranquilidade entre os profissionais. No itinerário, uma relação pra lá de complicada Para o analista de logística Augusto Zamith, de 29 anos, que circula de ônibus diariamente pela Zona Sul, o principal embate entre motorista e passageiro é a parada de ônibus. “Os motoristas vivem na pressa para cumprir horário. Passam direto do ponto de ônibus e, quando param, parece que estão fazendo um favor”, critica. O motorista de ônibus Cleiton Rodrigues, de 45 anos, admite que muitos colegas de profissão de fato não param em determinados pontos para não atrasar a viagem. “O problema maior é quando o ponto é perto do sinal de trânsito. Se tá verde e tem algum passageiro pedindo para parar, os motoristas preferem passar direto para não ficar presos no sinal vermelho”, comenta Cleiton. Quando o assunto é educação, há reclamação de ambos os lados. “Em nove horas de trabalho, recebi um ‘bom dia’ só de um passageiro”, lamenta o ex-rodoviário Júlio Cesar Mendes. “Eles (os motoristas) têm péssimo trato com as pessoas. Nem olham para a cara do passageiro”, retruca Augusto. Fonte: O dia

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