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O aguardado 2021 

O aguardado 2021
Foto: Pixabay.com

O especialista J. Pedro Correa avalia o novo normal do trânsito em 2021. É possível acreditar em melhorias sensíveis? Leia e comente!

J. Pedro Correa*

Foto: Pixabay.com

Ansiosamente aguardado, eis que o ano de 2021 chegou. Verdade seja dita, ninguém mais suportava o infindável 2020, marcado pela terrível pandemia do Coronavírus. Até a virada do ano, o vírus já havia matado quase duzentos mil brasileiros, destruiu a família de outros tantos e assustou a maior parte da população do país e de todo o mundo.

Durante este período, uma questão recorrente era “como será o novo normal” da vida brasileira?

No imaginário popular era como se o fim do Covid-19 fosse trazer uma nova atmosfera de alegria, de felicidade, com as pessoas esquecendo as agruras que atravessamos em 2020 e partissem para uma vida nova. Afinal, quem vivenciou os apertos do ano passado e as dificuldades provocadas em todas as áreas pelo vírus bem que merecia momentos melhores. Quem pensou assim, errou nas expectativas. A pandemia não só não acabou ainda como continua a nos impor um estado de atenção como jamais imaginamos. Pior: não sabemos quando poderemos considerar terminado este pesadelo.

Veja outros artigos do autor:

Artigo: Ano novo na estrada 

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A pergunta recorrente sobre como será o novo normal, no entanto, está sendo respondida aos poucos, apesar de não ter sido bem assimilada por boa parte da sociedade.

Ele será o que estamos vivendo agora com um pouco mais ou um pouco menos de dificuldades, dependendo do grau de preparo de cada um. Algumas atividades se acomodarão dentro desta nova realidade e cada um de nós tentará encontrar uma forma de se ajeitar neste “novo normal”. Dentro deste contexto maior, quero explorar aqui o novo normal do trânsito e da mobilidade, dois pilares vitais da vida nacional.

Definitivamente não sou um pessimista de carteirinha, mas tampouco um otimista contumaz, gratuito.

Sou daqueles otimistas que acredita nas coisas boas, mas desde que façamos por merecê-las. Em outras palavras: colheremos o que plantamos. Neste sentido, minha pergunta, talvez desconfortável, seria: o que fizemos, de efetivo, para termos um novo normal no trânsito melhor do que aquele que tínhamos antes? Que tipos de ação, de providências de envergadura, foram tomadas durante a pandemia que poderiam resultar num sistema de segurança e de mobilidade mais seguro? Até onde consigo enxergar, nada de especial.

Ora, não é inteligente fazer as coisas do mesmo jeito e esperar resultados diferentes.

Antes de pretender notas boas na escola da vida, precisamos fazer corretamente os deveres de casa. E, salvo engano e com poucas exceções, isto ainda está por fazer. Aqui ou ali temos visto ações esparsas, com governos locais trabalhando de forma organizada para melhorar o trânsito e a segurança nas cidades, com alguma taxa de sucesso. Nas estradas, do mesmo jeito, pode-se ver ações isoladas melhorando as rodovias e buscando moldar o comportamento dos usuários, mas não se pode dizer que seja um plano nacional.

O que lamento é a ausência de um programa realmente nacional de redução de vítimas de acidentes de trânsito, que tenha uma proposta clara de envolvimento de todos os estados e em todos os setores da sociedade.

Precisamos de um Pnatrans efetivo, com um comando firme e que mostre com clareza onde quer chegar. O programa apresentado em 2018 pelo Denatran ainda precisa mostrar a que veio pois até agora parece ser um conjunto de boas intenções.

Um eficiente programa de ações de segurança no trânsito depende de dois pilares sólidos para se sustentar: um plano de ação, consistente, detalhado, mostrando onde e como pretende envolver os vários segmentos da sociedade e as ações concretas no campo.

Isto é fundamental para mobilizar a sociedade que, assim, de um lado, vê as promessas do governo e de outro constata as ações de campo, tipo São Tomé: ver para crer. Por exemplo: como acreditar que o Brasil fará efetivamente um esforço nacional para reduzir 50% de mortes e ferimentos graves até 2030 como preconiza a 2ª Década Mundial de Ações de Trânsito, da ONU/OMS?

Até onde consigo ver, faltam ao Denatran as condições básicas para assumir este papel de coordenação efetiva.

Falta equipe para fazer o Pnatrans sair do papel e faltam recursos orçamentários que permitam executar um amplo programa de comunicação. Vale dizer, de propaganda massiva que leve a sociedade a apoiá-lo com vigor. Este não é um problema do Denatran atual, tem sido assim desde o sempre. O Denatran de hoje é certamente um órgão mais fortalecido do que os anteriores, conta com grande apoio do Ministério da Infraestrutura, o que é importantíssimo. Tem feito grandes esforços para somar forças com os Detrans, o que já ajuda, mas é insuficiente.

O Minfra, por sinal, pode ter um papel vital no combate ao insuportável índice de acidentes se conseguir cumprir as metas sinalizadas que fez ano passado para melhorar as rodovias e na capacitação de gestores de trânsito. Este é um verdadeiro calcanhar de Aquiles do nosso sistema nacional de trânsito que carece de bons gerentes nas áreas de comando. Agora, quando as prefeituras municipais iniciam um novo ciclo de administração, é decisivo capacitar nossos dirigentes na direção de resultados promissores tanto na gestão do fluxo como da segurança no trânsito e na mobilidade urbana. Resultados positivos nesta área podem levar o Brasil a obter resultados melhores dentro do quadro a 2ª Década Mundial de Trânsito. E, enfim, entrar no rol dos países sérios e que dão uma nova dimensão ao valor da vida.

Por enquanto, 2021 com suas dúvidas nas áreas econômica e social, é uma grande incógnita, mas todos sabemos que se nossos dirigentes se esforçarem desde já identificando os pontos onde o Brasil precisa melhorar no trânsito, poderemos ter uma temporada auspiciosa como raramente tivemos na história deste país. Até agora tem faltado vontade política mas sobram oportunidades de ação.

*J. Pedro Correa é Consultor em Programas de Trânsito


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