04 de fevereiro de 2026

Humanizar o trânsito: será realmente a solução?


Por Rodrigo Vargas de Souza Publicado 06/04/2018 às 03h00 Atualizado 02/11/2022 às 20h15
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Trânsito mais humanoFoto: Pixabay.com

No último dia 18 de março, um acidente envolvendo um carro autônomo da Uber levou a morte de uma mulher de 49 anos no Arizona. Esse é o primeiro atropelamento de pedestres por veículos autoguiados que se há registro. O ocorrido levou a empresa a cancelar temporariamente todos os testes utilizando carros autônomos no Canadá e nos Estados Unidos.

Entretanto, se observarmos as gravações de vídeo feitas a partir do veículo, assim como as declarações feitas pelas autoridades de polícia local, a pedestre atravessava a rua em local inapropriado para a travessia e em condições de baixa luminosidade, o que tornaria difícil de evitar o atropelamento mesmo que um ser humano conduzisse o veículo.

Há alguns dias lia um artigo que falava sobre a necessidade de humanizar o trânsito. Essa expressão, confesso, me deixou um tanto incomodado. Naquele contexto, humanizar significava fazer com que as pessoas cumpram as regras no trânsito. Algo que parece óbvio para a maioria das pessoas. Não todas…

Sendo assim, comecemos por buscar algumas definições desse complexo termo:

HUMANIZAR

verbo 

1. transitivo direto e pronominal

tornar(-se) humano, dar ou adquirir condição humana; humanar(-se).

“a fábula humaniza os animais”

 2. transitivo direto e pronominal

tornar(-se) benévolo, ameno, tolerável; humanar(-se).

“h. um trabalho”

 3. transitivo direto e pronominal

tornar(-se) mais sociável, mais tratável; civilizar(-se), socializar(-se).

“h. um selvagem”

 4. transitivo direto

CE amansar (animais); domar.

Dessa forma, a expressão “humanizar”, no contexto do trânsito, significaria torná-lo mais calmo, mais tranquilo, mais ameno. Um trânsito com mais tolerância, mais civilizado, como a maioria dos seres humanos. Não todos…

Cabe ressaltar, no entanto, como bem lembra o filósofo alemão Marc Jongen, a questão da humanidade é algo convencionado basicamente pela cultura de cada época e local. Um bom exemplo disso são as sociedades escravagistas, nas quais o status de ser humano era parcial ou completamente negado aos escravos. A definição biológica moderna de ser humano, em detrimento da acepção cultural, como sendo todo(a) aquele(a) que vem ao mundo com o código genético do Homo sapiens, foi uma grande conquista herdada do Iluminismo. Apesar dessa naturalização do que é ser humano ter possibilitado atribuir direitos em comum a todos aqueles da espécie Homo sapiens, nos levou até a atual situação antropocentrista da nossa sociedade.

Porém, diante dos avanços constantes das biotecnologias e da inteligência artificial, os questionamentos do homem acerca da sua “humanidade” – e mesmo de sua centralidade – passam a ser cada vez mais constantes. Quando há a possibilidade de que uma máquina se iguale ou até mesmo supere o desempenho de quem a criou, que o homem possa ser clonado ou mesmo ter seu código genético modificado, o sentido da “humanidade” tende a ser repensado. A partir do momento em que a existência humana puder ser confundida ou igualada à existência da máquina, o homem pode ser entendido como nada além de simples matéria. Matéria meramente programada como a máquina. Sem nenhuma transcendência ou qualquer característica que a eleve acima das outras.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman relembra, em sua obra Amor Líquido, uma breve citação de Hannah Arendt, filósofa política alemã, onde ela, profeticamente, diz que “o maior perigo para a humanidade era a abstrata nudez de não ser nada além de humana”. Segundo ela,

“o mundo nada descobriu de sagrado na abstrata nudez do ser humano”.

Assim como o filósofo alemão Friedrich Nietzsche que, já no final do século XIX, teve o mérito de reconhecer que o homem é algo que deve ser superado, criticando o fato de o ser humano ser demasiadamente humano. Ele afirma que a doença do homem seria sua própria humanidade. Bem ou mal, o ser humano, parafraseando o poeta Ferreira Gullar, ainda me parece a maior invenção de si mesmo.

Visto isso, será mesmo “humanizar” a melhor solução para a atual situação do nosso trânsito? Tornar(-se) benévolo, ameno, tolerável; tornar(-se) mais sociável, mais tratável; civilizar(-se), socializar(-se), ainda são (ou já foram algum dia) valores associados à humanidade? No presente serão esses mesmos os valores esperados que um ser humano tenha? Que valores têm os seres humanos? Que valores têm as máquinas? Que valor tem a vida humana que mereça distinção de qualquer outro tipo de vida?

A protagonista do filme O Exterminador do Futuro 2: O julgamento final, Sarah Connor, afirma, em uma emblemática frase imbuída de valores ligados à modernidade, no final do filme que “se uma máquina aprendeu o valor da vida humana, talvez os humanos também a compreendam”. Será? Questões que, por mais que a ciência e  a tecnologia avancem, parecem estar longe de serem respondidas.

Rodrigo Vargas de Souza

Sou formado em Psicologia pela Unisinos, atuo desde 2009 como Agente de Fiscalização de Trânsito e Transporte na EPTC, órgão Gestor do trânsito na cidade de Porto Alegre. Desde 2015, lotado na Coordenação de Educação para Mobilidade do mesmo órgão.Procuro nos meus textos colocar em discussão alguns dos processos envolvidos na relação do sujeito com o automóvel, percebendo a importância que o trânsito, espaço-tempo desse encontro, vem se tornando um problema de saúde pública. Tendo como objetivos, além de uma crítica às atuais contribuições (ou falta delas) da Psicologia para com a área do trânsito, a problematização da relação entre homem e máquina, os processos de subjetivação derivados dessa relação e suas consequências para o trânsito.Sendo assim, me parece urgente a pesquisa na área, de forma a se chegar a uma anuência metodológica e ética. Bem como a necessidade de a Psicologia do Trânsito posicionar-se de forma a abrir passagem para novas formas heterogêneas de atuação, que considerem as singularidades ao invés de servirem como mais um mecanismo de serialização das experiências humanas.

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