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Eternos moradores de rua


Por Rodrigo Vargas de Souza Publicado 13/10/2022 às 21h00
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Rodrigo Vargas faz uma análise sobre a região central de Porto Alegre, seus desafios e o uso do espaço viário. Leia! 

Morando há aproximadamente um ano numa região mais central da cidade, como já mencionei em outro artigo, passamos a conviver com algumas realidades que em bairros mais periféricos não nos afetavam. Uma delas se deu pela existência de uma consolidada malha cicloviária, que nos impôs o costume de, ao atravessar as ruas, cuidar, além do fluxo de automóveis, também o de bicicletas.

Essa, porém, é uma realidade que nos afeta positivamente. No entanto, nem tudo são flores.

Dia desses, ao entrar no quarto da minha filha mais nova (então com nove anos), minha esposa se deparou com uma cena no mínimo inusitada: ela brincava no chão, sob uma barraca improvisada. Até aí, nada de inusitado, por ser essa uma brincadeira bem comum entre crianças dessa idade. Inusitada mesmo foi a resposta dela quando questionada pela mãe sobre o que ela fazia: “estou brincando de morador de rua”.

Conforme dados da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), existem atualmente na cidade cerca de 2.500 pessoas em situação de rua, a grande maioria na região central. Número esse que, segundo outras entidades que trabalham com essa causa, não são lá muito precisos. O que me parece não haver dúvidas é de que, durante a pandemia, esse número aumentou sensivelmente.

Recentemente, ouvia um episódio do podcast Perimetral. O entrevistado era Júlio Celso Borello Vargas, professor do Departamento de Urbanismo da UFRGS e doutor em Engenharia de Transportes. Na entrevista, falou-se sobre a tensa relação de Porto Alegre com as bicicletas e, fatalmente, mencionou-se outros temas, como transporte público, urbanismo tático assim como o uso racional do espaço viário.

Sobre isso, o professor Júlio fez uma analogia que me fez refletir profundamente.

Imagine que você, por um motivo qualquer, resolve, assim como a minha filha, brincar de morador de rua. Você monta uma barraca debaixo de uma marquise na calçada ou mesmo junto ao meio fio. É bem provável que a sua brincadeira não dure muito tempo. E, logo, a polícia militar ou mesmo a guarda municipal te convidem a “brincar” em outro lugar.

Agora imagine que, ao invés da sua barraca, você resolva deixar o seu veículo nesse local. É curioso pensar que, em se tratando de um local onde não seja proibido o estacionamento, seu carro possa, legalmente, ficar lá por meses até que seja recolhido por abandono. Mas não antes de que uma denúncia seja feita ao órgão gestor de trânsito, os agentes estejam no local e coloquem uma placa de aviso sobre a irregularidade. E, daí, voltem após mais de um mês para, só então, constatar-se que o veículo realmente está em condições de abandono e é possível recolhê-lo. 

De acordo com dados da GZH, nós últimos 10 anos, 6 mil carros foram abandonados nas ruas de Porto Alegre. Entre os anos de 2019 e 2021, por exemplo, das 2.551 ocorrências registradas pela EPTC, somente 123 resultaram em recolhimento ao depósito.

Isso me fez lembrar imediatamente um antigo pensamento meu, que diz:

“Vivemos em uma sociedade onde é mais comum pessoas passarem a noite na rua do que carros.”

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