Mortes no trânsito avançam pelo quinto ano seguido no Brasil, aponta análise do ONSV
Estudo elaborado por pesquisadores da UFPR e do Observatório Nacional de Segurança Viária mostra que o Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024, com forte avanço entre motociclistas, crianças e idosos.

Em meio à Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas, realizada de 26 de julho a 1º de agosto, uma nova análise chama atenção para o agravamento da violência no trânsito brasileiro. O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024, o quinto aumento anual consecutivo e o maior crescimento percentual observado em 22 anos.
Os números fazem parte do estudo “Dados Consolidados de Óbitos no Trânsito Brasileiro – 2024”, divulgado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) com base nos dados atualizados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, disponibilizados pelo DATASUS, do Ministério da Saúde.
O trabalho foi realizado por Jorge Tiago Bastos, membro do Conselho Deliberativo do ONSV e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em conjunto com Ana Beatriz da Silva Marques, pesquisadora da universidade e do Observatório. Os pesquisadores atuaram na organização, avaliação e interpretação das informações que compõem o panorama inicial apresentado pela instituição.
A divulgação ocorre durante a Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas, instituída pela Lei nº 15.006/2024. A mobilização busca ampliar a conscientização e estimular ações voltadas à redução das mortes e lesões graves envolvendo motociclistas, grupo que novamente aparece como o mais atingido pela violência no trânsito.
Maior crescimento anual desde 2002
O total de mortes passou de 34.881, em 2023, para 37.150, em 2024, o que representa 2.269 vidas perdidas a mais em apenas um ano.
A elevação de 6,5% foi a maior registrada desde 2002, quando o crescimento havia chegado a 7,3%. O resultado também colocou o país no maior patamar de fatalidades no trânsito desde 2016.
A série histórica recente mostra que as mortes vêm aumentando sucessivamente:
- 2019: 31.945 mortes;
- 2020: 32.716 mortes;
- 2021: 33.813 mortes;
- 2022: 33.894 mortes;
- 2023: 34.881 mortes;
- 2024: 37.150 mortes.
De acordo com a análise do Observatório, o avanço rompe a tendência de estabilização registrada em alguns períodos anteriores e evidencia fragilidades estruturais e comportamentais do trânsito brasileiro.
Os resultados reforçam a necessidade de ampliar políticas públicas, fiscalização, educação para o trânsito e investimentos em infraestrutura capaz de proteger especialmente os usuários mais vulneráveis.
Motociclistas concentram o maior impacto
O crescimento mais expressivo em números absolutos ocorreu entre os ocupantes de motocicletas. Foram 15.459 mortes em 2024, contra 13.477 no ano anterior.
A diferença representa 1.982 mortes a mais e um crescimento de 14,7% em apenas um ano. Os motociclistas corresponderam a aproximadamente 42% de todas as vítimas fatais do trânsito brasileiro em 2024.
O recorte por sexo torna o cenário ainda mais preocupante. Somente os motociclistas do sexo masculino somaram 13.497 mortes, o equivalente a 37,1% de todos os óbitos no trânsito registrados no país.
O dado reforça a importância de ações específicas para esse público, especialmente diante da expansão do uso da motocicleta como meio de deslocamento e ferramenta de trabalho.
Mortes também avançaram entre ocupantes de caminhões e ônibus
Embora o maior impacto tenha ocorrido entre motociclistas, a análise identificou crescimentos percentuais elevados entre ocupantes de outros veículos.
As mortes de ocupantes de caminhões aumentaram 30,2%, enquanto os óbitos entre ocupantes de ônibus cresceram 28,3%.
Os resultados apontam desafios adicionais relacionados ao transporte de cargas e passageiros e indicam a necessidade de avaliar fatores como condições das vias, jornadas de trabalho, manutenção dos veículos, fiscalização e formação profissional.
Alta atingiu quase todo o país
O aumento das mortes foi observado na maior parte das Unidades da Federação. As exceções foram o Rio de Janeiro, que apresentou redução de 35%, e Roraima, com queda de 9,7%. O Distrito Federal manteve estabilidade.
Os maiores aumentos proporcionais foram registrados no:
- Acre: 52,7%;
- Amazonas: 28,5%;
- Alagoas: 22,8%;
- Sergipe: 20,4%.
Na divisão regional, o Norte apresentou o maior avanço, com crescimento de 15,7%. Em seguida aparecem o Nordeste, com 11,6%, o Sul, com 6%, e o Centro-Oeste, com 5,9%.
A Região Sudeste foi a única a registrar redução, ainda que pequena, de 0,8%.
As diferenças entre estados e regiões demonstram que a violência no trânsito não se distribui de forma uniforme pelo território nacional. Por isso, além de estratégias nacionais, o enfrentamento exige políticas adaptadas às características da frota, da infraestrutura e dos deslocamentos em cada localidade.
Crescimento entre crianças acende alerta
A mortalidade avançou em praticamente todas as faixas etárias. A única exceção foi o grupo de crianças entre 10 e 14 anos, que apresentou redução de 2,9%.
Entre os aumentos mais expressivos está o registrado entre crianças menores de 1 ano, com alta de 17%. Na faixa de 5 a 9 anos, o crescimento chegou a 11,5%.
Considerando o grupo de crianças de 0 a 9 anos, o avanço foi de 10,5%.
Os números reforçam a importância do uso correto dos dispositivos de retenção, do transporte seguro de crianças e da responsabilidade dos adultos, já que os menores dependem diretamente das decisões tomadas pelos condutores e responsáveis.
Mortes de idosos aumentaram 8,6%
Outro grupo vulnerável que apresentou crescimento foi o das pessoas com 60 anos ou mais. Entre os idosos, as mortes no trânsito avançaram 8,6%.
O envelhecimento da população brasileira amplia a necessidade de vias, calçadas, travessias e sistemas de transporte mais seguros e acessíveis.
Pessoas idosas podem apresentar maior fragilidade física em caso de atropelamentos e colisões. Além disso, fatores como tempo de travessia, visibilidade, iluminação e condições das calçadas podem aumentar sua exposição ao risco.
Dados devem orientar ações de prevenção
A análise apresentada pelo Observatório vai além da divulgação dos números oficiais. O estudo organiza e interpreta os dados do DATASUS para identificar tendências, grupos mais atingidos e regiões que exigem atenção prioritária.
Os resultados mostram que o crescimento das mortes no trânsito não está concentrado em um único grupo ou local. Motociclistas, crianças, idosos e ocupantes de veículos de transporte de carga e passageiros aparecem entre os públicos afetados pelo avanço da mortalidade.
No entanto, o peso dos motociclistas nas estatísticas torna esse grupo uma prioridade incontornável para qualquer estratégia nacional de segurança viária.
Durante a Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas, os dados reforçam que campanhas pontuais precisam estar acompanhadas de medidas permanentes, como fiscalização, formação adequada dos condutores, infraestrutura segura, atendimento rápido às vítimas e políticas públicas baseadas em evidências.
