05 de fevereiro de 2026

Sua categoria já foi vacinada?


Por Rodrigo Vargas de Souza Publicado 30/04/2020 às 03h00 Atualizado 02/11/2022 às 20h04
Ouvir: 00:00
Motofretista X pandemiaFoto: Divulgação autor.

Em regime de Home Office devido à atual pandemia do coronavírus, discutíamos de forma remota alguns colegas e eu a respeito de uma matéria publicada em um jornal local. A discussão girava em torno dos desafios, dificuldades e diferenças encontradas entre motofretistas e agentes de fiscalização de trânsito.

A reportagem denota realidades bastante semelhantes não só entre as duas categorias de profissionais, mas de todos aqueles que não têm a possibilidade de exercerem suas atividades da segurança e conforto de seus lares e, por esse motivo, estão expostos diariamente ao risco de contaminação.

No entanto, há um outro risco bem menos divulgado, mas tão nocivo quanto o da contaminação pelo coronavírus. O risco de sermos contaminados e/ou transmitirmos um outro vírus. Porém, esse não é transmitido apenas pelo contato, nem só pelo ar ou por outras formas tradicionais de contaminação. Esse vírus é transmitido pelas redes sociais, pelos veículos de comunicação e pelos mais diversos formadores de opinião. Mas não só isso, a transmissão também se dá através daquele papo no barzinho, no pátio do condomínio e naquele inocente grupo no Whatsapp.

Todos somos responsáveis pela disseminação desse vírus, quando, do alto de nosso individualismo egoísta, nos sentimos profundamente injustiçados, seja quando nossa pizza chega fria ou nosso remédio demora, seja quando somos autuados por ter estacionado “só um minutinho” em local proibido ou ter atendido ao celular “rapidinho”, só pra dizer que não podia atender porque estava dirigindo.

Recentemente perdemos tragicamente mais um colega por conta desse vírus, que pode ser chamado de muitas formas: desprezo, ódio, despreparo, preconceito, desvalorização ou, simplesmente, depressão… tirar a própria vida em pleno local de trabalho não é apenas um dos sintomas desse vírus, mas também um recado aos colegas, à empresa e a toda sociedade: saibamos ouvir antes de julgar; sejamos mais compreensivos e tolerantes com o próximo, independente de qual seja a sua profissão, credo, cor, opção sexual, orientação política…; e, principalmente, sejamos menos críticos.

Fico feliz que as pessoas estejam passando a dar, segundo a matéria, o devido valor aos profissionais motofretistas, os conhecidos “motoboys”. É uma pena que tenha sido preciso uma pandemia para que isso acontecesse. Infelizmente, para a categoria dos agentes de trânsito, esse vírus parece ainda estar longe de ter uma vacina…

Rodrigo Vargas de Souza

Sou formado em Psicologia pela Unisinos, atuo desde 2009 como Agente de Fiscalização de Trânsito e Transporte na EPTC, órgão Gestor do trânsito na cidade de Porto Alegre. Desde 2015, lotado na Coordenação de Educação para Mobilidade do mesmo órgão.Procuro nos meus textos colocar em discussão alguns dos processos envolvidos na relação do sujeito com o automóvel, percebendo a importância que o trânsito, espaço-tempo desse encontro, vem se tornando um problema de saúde pública. Tendo como objetivos, além de uma crítica às atuais contribuições (ou falta delas) da Psicologia para com a área do trânsito, a problematização da relação entre homem e máquina, os processos de subjetivação derivados dessa relação e suas consequências para o trânsito.Sendo assim, me parece urgente a pesquisa na área, de forma a se chegar a uma anuência metodológica e ética. Bem como a necessidade de a Psicologia do Trânsito posicionar-se de forma a abrir passagem para novas formas heterogêneas de atuação, que considerem as singularidades ao invés de servirem como mais um mecanismo de serialização das experiências humanas.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *