26 de março de 2026

Anodinia, violência e humanização do trânsito


Por Márcia Pontes Publicado 22/04/2013 às 03h00 Atualizado 02/11/2022 às 20h46
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Anodinia: incapacidade de comover-se, sensibilizar-se com o sofrimento alheio; sensação de anestesiamento, resistência ao choque, à emoção. Tenho medo dessa tal de anodinia de que as autoridades de trânsito no nosso país temem no item 2.5 do Anexo da resolução nº. 314, de 8 de maio de 2009, sobre os procedimentos para as campanhas educativas de trânsito no que se refere à sua elaboração: “2.5 O extremo cuidado com abordagens negativas ou que apresentem violência para evitar a anodinia.” (RESOLUÇÃO Nº. 314, 2009, p. 2).

O atropelamento e morte de uma criança de apenas 3 meses por um condutor que perdeu o controle do carro e arrastou a criança no carrinho de bebê que estava sendo empurrado pela mãe chocou o Brasil. Assim como o caso atropelamento de um ciclista que teve o braço arrancado em São Paulo. Mas fico me perguntando até que ponto esses casos comovem verdadeiramente as pessoas e a sociedade, já que se tornam recorrentes.

Quantos “mais fracos” morrem diariamente no trânsito das cidades e não ficamos sabendo? Quantos bebês, crianças, idosos, gestantes, cadeirantes? De carro, moto, bicicleta ou a pé, as pessoas se envolvem em cerca de 150 mortes por dia e quase 7 mortes por hora, segundo dados de 2010 do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

No Brasil é provocado um acidente de trânsito a cada 30 segundos. Não deu nem tempo de eu concluir o pensamento desse parágrafo e um acidente de trânsito já foi provocado em algum lugar do nosso país. E isso é preocupante!

Parece que as pessoas estão desenvolvendo uma espécie de resistência ao choque, à emoção, ao sofrimento alheio. É a chamada anodinia. E, se por um lado as pessoas criam essa suposta resistência ao sofrimento humano em acidentes de trânsito, por outro elas parecem ter sentimentos confusos que flutuam entre a anodinia, o sentimento de impunidade que banaliza a vida e a sede de justiça com as próprias mãos, como na tentativa de linchamento do motorista que atropelou Kawane.

O grande risco para a nossa sociedade é que casos como esses, de crianças, idosos, gestantes, cadeirantes, enfim, os mais fracos sendo atropelados no trânsito, não nos comova mais, não nos sensibilize mais, não nos impacte ao ponto de repensarmos as nossas atitudes ao volante, como pedestres e cidadãos.

Tenho medo que as pessoas não confiem mais na Justiça e saiam por aí linchando os outros, deixando de lado a civilidade e a cidadania, pois, se por um lado, questionam a falta de humanidade de quem fere o outro gravemente e foge sem prestar socorro, também não demonstram humanidade em tentar estabelecer a Lei de Talião em substituição ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e às leis que tratam sobre os crimes de trânsito.

Tenho medo dessa tal de anodinia que ora anestesia as pessoas tirando a capacidade de nos sentirmos tocados, comovidos, sensibilizados pela violência e ora nos torna irracionais.

Como falar em humanização do trânsito se as pessoas estão esquecendo que são humanas?

E que essa tal de anodinia não nos anestesie tanto ao ponto de nunca mais acordarmos!

Márcia Pontes

Meu nome é Márcia Pontes, sou educadora de trânsito em Blumenau (SC), Graduada em Segurança no Trânsito na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) e colunista de assuntos de trânsito do Portal de Notícias Blumenews. Sou pesquisadora do medo de dirigir e dos métodos de ensino da aprendizagem veicular pelo método decomposto, desenvolvido na Suíça e difundido em autoescolas italianas.Em 2010 iniciei nas redes sociais um trabalho de Educação Para o Trânsito Online (EPTon) utilizando a força das mídias sociais (Orkut, Facebook, Blog, MSN, Twitter, Youtube) com foco no acolhimento emocional, aprendizagem significativa e dicas de direção defensiva, ética e cidadania no trânsito.Escrevo o Blog Aprendendo a Dirigir voltado para alunos em processo de habilitação nos CFC e para motoristas habilitados com dificuldades e medo de dirigir. O foco deste trabalho voluntário reconhecido internacionalmente leva acolhimento emocional, aprendizagem significativa e fundamentos de ética, cidadania e humanização do trânsito para evitar acidentes, sobretudo por imperícia.No ano de 2012 publiquei o livro digital Aprendendo a Dirigir: aprendizagem pelo método decomposto para evitar traumas e acidentes durante a (re)aprendizagem da direção veicular. Em 2013 publiquei o livro Aprendendo a Dirigir: um guia prático de exercícios para quem tem medo de dirigir.Sou apaixonada por trânsito, respiro, pesquiso cientificamente e vivo o trânsito com compromisso existencial. A principal luta da minha vida: contribuir para rever e atualizar os métodos de ensino da direção veicular no Brasil substituindo o adestramento do aluno e a memorização pela construção de conceitos e de significados sobre o ato de dirigir defensivamente.

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